terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Encontro com Salif Keita no deserto


No caleidoscópio, como nevoeiro que cobre as manhãs do interior, Wandalika ainda trazia no semblante a inquietude e na retina a imagem de crianças famintas, angariadas no interior da província da Huila para o trabalho agrícola nas fazendas do Namibe. Na fusão, se sobrepõe o retrato de adultos e adolescentes carregando água em baldes e bidons amarelos na cidade do Kilamba, enquanto aí perto uma fila de camiões cisternas abastecem-se do precioso líquido para comercialização.
Bidons, bacias e baldes são adereços obrigatórios, que ganharam com justiça um lugar cativo em todos os apartamentos, daí a sua justificada demanda no inflacionado mercado luandense. Estes utensílios de tão procurados até entraram para a longa lista de pedidos de casamento, sentando-se à direita do incontornável companheiro, o gerador.
Os seus sentidos confundem a realidade e a ficção. Talvez seja da ansiedade! Talvez seja da sonolência. Talvez seja da fome. Talvez seja da sede. Talvez seja do cansaço da espera incerta. A espera é como as melancias, verdes por fora e sangrando por dentro. Talvez seja da demência. Talvez seja dos solavancos e da poeira da obra da estrada da Penitenciária de Luanda.
Apesar da conjugação do futuro imperfeito, ele sentia-se aliviado. Pelo menos não ficaria preso como cogitara ao ser forçado a iniciar uma odisseia ao lado de quatro desconhecidos. Estar preso é ser privado da liberdade. É não puder ir onde se quer na hora que se quiser. E ele já acumulara experiência de sobra desde a primeira vez que fora preso por brincar com a Esperança. Dormiu no chão da cela, cobriu-se com papelões e a casa de banho estava desprovida do lavatório e da sanita. No lugar da sanita, apenas sobrara um buraco negro vigiado por dezenas de moscas. Usá-lo era preciso uma dose de pontaria, para não falhar o alvo. O procedimento era: 1º - apoiar correctamente os pés fixando-os no pavimento ao lado da abertura; 2º - regular a altura, flexionando as pernas e seguidamente tranca-las com os antebraços atrás dos joelhos. Era como se de uma corrediça da alça de mira se tratasse.
A refeição? Quando houvesse era arroz com chouriço ou com frango. As poucas vezes em que melhor se alimentou, foi graças à refeição trazida pela esposa de um presidiário que havia sido condenado por homicídio. Era tempo de estiagem e a manutenção dos presos era uma tarefa bastante difícil num contexto marcado pela escassez.
Wandalika partilhava a cela com o autor de um crime hediondo. Pelo facto do seu crime não ser grave, podia muito bem aguardar o julgamento em liberdade… Sim. E logo se lembra da estratégia gizada pelo anterior ministro do Interior para o combate à superlotação das cadeias. As pulseiras electrónicas seriam usadas pelos presos para o seu controlo à distância. Por isso torce para que o projecto conste no Orçamento Geral do Estado para 2013.
A implementação do projecto das tornozeleiras electrónicas iria reduzir o número de presos que entupem as prisões e pouparia milhões de dólares canalizados para a construção de novas cadeias, infra-estruturas de apoio, abastecimento com alimentação, água, energia eléctrica, assistência médica e medicamentosa, bem como o pagamento de pessoal de segurança.
A criminalidade custa cara a qualquer Estado. A título de exemplo, tendo em conta valores de 2011, a vigilância electrónica custa ao Estado português 16,35 euros, enquanto o custo médio diário de um recluso é de 47,81 euros.
Já no Brasil, o custo com cada preso é de pouco mais de 1.800,00 reais por mês, cerca de 900 dólares. Com o novo sistema, o custo será de R$ 539,58 por mês (300 dólares aproximadamente).
Além da redução dos recursos canalizados para a manutenção dos presidiários, a medida deverá trazer também mais benefícios para o processo de reinserção social dos condenados, que passam a ter convivência familiar e condições de estudar e trabalhar normalmente.
Por conta das reduções dos números de detentos, aqueles que permaneceriam nos presídios, teriam maior espaço e condições de maior sanidade.
Assim, combater-se-ia a ociosidade que é outra inimiga do presidiário. Permanecer todos os dias fechado numa jaula é coisa que mais os fragiliza comprometendo a sua reeducação. A criação de hortas, carpintarias, oficinas de veículos e máquinas, fábrica de blocos, escolas e bibliotecas era importante para que pudessem vencer o relógio preguiçoso da prisão.
Eram quase 13 horas. Naquele momento, um peão procura atravessar a rua movimentada. Ao chegar no meio da faixa de rodagem, ele vacila e recua correndo para o ponto de partida. No trajecto quase foi colhido por uma motocicleta. Elas estão em todo lado e não respeitam nada e ainda reclamam batendo arrogantes com o punho nas viaturas quando os condutores destas não os deixam passar. E acham que têm sempre razão!
O Corolla, em que ia Wandalika, teve de travar de repente.
- Olha o jornal! Olha o Jornal!
Naquele instante, um ardina aproximava-se com várias publicações. Wandalika esticou o pescoço para espreitar as manchetes do único diário da República de Angola. Assustou-se…
Mas logo o carro acelerou, deixando para trás o adolescente. E a alma reteve o susto. A figura que aparecia na capa usava traje tradicional onde sobressaía o lenço feito túnica cobrindo a cabeça. Quem será?... Será o presidente líbio Muammar Khadafi?...
Khadafi não pode ser, pois este foi morto em 2011, depois de vários meses de resistência contra os revoltosos vindos de Benghazi e sempre apoiados pela OTAN.  
- Em 20 de Outubro de 2011, foi formada uma coluna de mais de 40 veículos que deveria, antes do amanhecer, fugir de Sirte  em direcção à aldeia de Jaref, localizada a 20 quilómetros a oeste da cidade sitiada. Mas a coluna somente partiu por volta das 8 horas da manhã e aviões da OTAN rapidamente atingiram um dos veículos da mesma. Um segundo ataque aéreo causou um maior número de vítimas e atingiu o carro onde ele estava e, por isso, teve que tentar continuar a fuga a pé, mas foi cercado, capturado e morto.
Wandalika ainda se lembra do antigo líder líbio com seu traje e a sua guarda percorrendo os corredores da Sede da União Africana. Ainda ouve a sua voz entusiástica e vê os seus gestos frenéticos no palanque da União Africana projectando os Estados Unidos da África. Ele queria uma África livre e independente de facto, que fosse capaz de ser dona dos seus próprios destinos.
- Na véspera  de uma das Cimeiras, naltura na qualidade de presidente da UA, o líder líbio Muammar Khadafi, concedeu uma longa entrevista a agência PANA, manifestando o seu cepticismo quanto aos resultados alcançados pela organização desde a sua criação. Segundo ele, passados cerca de dez anos após a proclamação da UA “e na sequência de um trabalho laborioso, os africanos rendem-se, infelizmente, à evidência de que o continente continua longe de realizar o seu projecto de uma África Unida.
Kadhafi foi morto sem conseguir atingir o seu sonho. E mesmo nos momentos mais derradeiros dos combates em Trípoli, poucos ou raros irmãos africanos o ajudaram.
 Como praga, na sequência da sua morte, deflagraram ou se acirraram conflitos antes latentes em vários pontos do continente: Costa do Marfim, Guiné Bissau, Mali, RDC e República Centro africana. E o continente, 50 anos depois da proclamação da Unidade Africana, tem-se mostrado incapaz de solucionar os seus próprios conflitos e carências, a ponto de apelar para a presença de tropas francesas e de apoio logístico de outros países da OTAN e dos EUA para fazer face à ameaça de desagregação do Mali.
A conflitualidade que se regista na República do Mali tem probabilidade de afectar países vizinhos. Basta observar a dimensão territorial e a quantidade de países que o cercam. Argélia, (que ainda procura curar as feridas deixadas pelo ataque terrorista contra as suas instalações petrolíferas), o Níger, Burquina Faso, Cote D´Ivoire, Guiné Bissau, Guiné Conacry, Senegal.
As mesmas armas que assassinaram o antigo líder líbio estão hoje apontadas contra os tuaregues, que são tão africanos como ele. Que futuro?
Como disse o europeu Henry Palmerston “Nós não temos aliados eternos nem inimigos perpétuos. Nossos interesses é que são eternos e perpétuos, e nosso dever está em perseguir esses interesses.”
 E os interesses geoestratégicos das grandes potências vão vincar, pois o Mali é um país rico em Ouro, Urânio, tendo também reservas de cobre, diamante, ferro, manganês, fosfato, bauxita, zingo, lítio entre outros minerais.
Afro-pessimistas, afro-optimistas, pan-africanistas… Wandalika suspira com mágoa. E rumina no silêncio as palavras do Presidente António Agostinho Neto: - «Hoje a África é como um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço».
E com a sonoridade da música “Yamore”, do cantor maliano Salif Keita e Cesária Évora, os ocupantes do Corolla seguem em direcção ao município do Cacuaco... Todos gargalham descontraídos. Só ele está triste, introspectivo!... - Abutres sobre o corpo inerte!…

Não grita seus anseios                                  
no receio de perturbar um mundo
que o ofusca
com o falso brilho dos seus ouropéis.”

E Wandalika chora suas lágrimas de indignação.
AI NETO!... 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Optimismo da Esperança


Algures, o Mundo espreguiçava-se no leito para o esforço de um novo dia e tão logo como abelhas se lançarão de mangas arregaçadas ao labor em busca do pólen da vida, suando na ânsia de se alcançar o sonho de felicidade. Esta felicidade dos homens, que o modernista brasileiro Oswald de Andrade, considerou como sendo uma felicidade carniceira, pois a última coisa que sobrava no cadáver era o dente. A felicidade, todos nós queremos! E é por ela que se batem em renhidas disputas indivíduos, povos e nações inteiras.
Aqui Wandalika, incrédulo, na esguelha das suas lembranças vespertinas, o raiar do sol encaminhava-lhe para um novo destino. Murmúrios de vozes brotam do seio de uma multidão espremida à saída do quintal de portão rudimentar para verem passar o carro que o transportava.
Em silêncio e com o olhar ainda fortemente marcado pelas mazelas da surpresa, lá estava ele ensardinhado entre dois varões. Um uá-ué desabrocha e perpassa a multidão angustiada desfazendo-se em lágrimas. Mas ficam apenas no gemido resignado. Condoíam-se com a sorte alheia, porém muito pouco ou nada tinham para contrariar a torrente do destino.
Como ovelhas submissas viviam suas vidas lineares sem grandes ambições, nem cobranças, palmilhando os mesmos caminhos, encruzilhadas e prazeres da infância com os mesmos pés descalços, que resmungavam aos espinhos e colisões contra as pedras do trajecto.
Era o sentimento comum de gente simples, de bairros também simples, criados na periferia das cidades, oscilando errante entre a modernidade e tradição. Aí a notícia chegava calma, descia a encosta e perdurava além das 24 horas, num cenário que o relógio tinha pouca serventia. Tinham o Rei-Sol como guia. Não viviam apressados, aflitos, ofegantes, como se o Fim do Mundo estivesse a poucas horas. 
Apesar do vendaval urbano que sopra persistente despenteando o capim da floresta do vale, eles ainda zelosos, cultivavam valores como a obediência, a humildade, a honestidade e o amor ao próximo. A alegria repousava no partilhar com equidade o pouco que se tinha e, assim, se diziam felizes, pelo menos compreendiam na devida dimensão que riso à solo podia ser o limiar da demência.
Na sua lhaneza, os dias tinham todos o mesmo colorido do pôr-do-sol com seus lilases e perfumes de flores silvestres, embriagando a tela da vida com a sua magia.
Ao anoitecer, depois do jantar, ao luar brincavam e cantavam e contavam as suas estórias procurando costurar o sentido da vida. Não falavam do Patinho Feio vindo da Europa. Para eles, esta estória dos brancos era triste. Pois como aceitar que um patinho só por ter nascido feio fosse excluído do seio da sua família sendo obrigado a refugiar-se. Eles não pensavam assim. Se fosse assim, talvez as aldeias estivessem vazias, mas não. Cimentavam a harmonia e a concórdia como ingredientes para a solidificação das suas comunidades. A Estória do Patinho Feio é uma lição flagrante de exclusão, que não deve ser apreendida pelas suas crianças, que desejam felizes e fortes na solidariedade.
Felicidade!... Os anos iniciavam e terminavam, deixando atrás de si lembranças boas e más ou rugas da longa espera por um dia de sonho. Mas tinham esperança. A tal esperança que é a última que perece no confronto renhido pela sobrevivência.
A esperança do náufrago por uma folha ou tronco ainda que minúsculo que flutue sobre as águas tempestuosas do rio. A esperança do moribundo pelo milagre para reverter o quadro clínico definido pelo médico como altamente reservado, quando os gestos dos enfermeiros traduzem o vazio da espera vaga por algo que supere as suas capacidades sempre limitadas.
- Nem sei se acordará amanhã.
Mas, contra todos os prognósticos e diagnósticos, dia seguinte, o paciente, não só continua vivo, mar soergue-se trôpego da cama para ir ao banheiro e no seu regresso pede água para humedecer a garganta e sopa para reabrir o caminho dos alimentos. A esperança pela promessa ainda promessa.
Esperança-fé. Esperança, mola que impulsiona energias e vontades para se alcançar a meta. A esperança pelo amor que nos faça depois do altar definitivamente livres-felizes e remova do escaninho da memória as placas de lembranças e frustrações feitas paradigma do reiterar dos anos. Para ele Wandalika, não havia desespero pois este estava fixado no limite além espera.
E lembra-se da sua Esperança. E nesse instante, o seu rosto triste é iluminado por um morno sorriso. A Esperança, alta, andar senhorial, era uma moça bonita nos seus 18 anos, exalando perfume de sua beleza e juventude nos caminhos da aldeia. Atrás de si a cobiça fazia brotar da mente comentário miúdo de adultos envelhecidos pelo passar dos cacimbos. Nos jogos de cabra-cega, garrafinha ou de banana-verde era incansável, corria, driblava sem perder equilíbrio, feita flecha atirada certeira para o alvo. Usava duas tranças na cabeça arredondada, vulgo tranças bailundo. Nela, cabeça, corpo, olhos, lábios, nariz e voz. Tudo era harmónica despertando suspiros de antropófagos.
Wandalika, descarregou num suspiro todo o seu desgosto. Lá estava ele olhando através da janela do velho Corolla uma miscelânea de rostos de olhares terrosos, cabelos multicolores e gestos e mímicas. Confuso, não acenou, deixou-se ficar quieto entre os seus algozes.
E seguiram viagem em direcção à Baixa de Luanda. O homem que ia ao lado do condutor olhava frequentemente para trás, enquanto andava de um lado para o outro com o sintonizador do rádio receptor. Os demais mascavam de forma ruidosa uma mistura de raízes e folhas de Santamaria na ânsia de afugentar os maus espíritos.
Durante alguns instantes uma música suave invadiu os seus ouvidos, mas depois saltou para uma outra rádio. Não demorou-se. Talvez pela baixa qualidade sonora e dos seus programas. Era Para-Lamentar! Devia estar em quarentena durante algum período até melhorar a qualidade da sua grelha. Logo o homem mudou de frequência e, pela primeira vez, estavam de acordo.
RÁDIO3: Um correspondente falava de camiões atolados na lama da estrada no Kuando Kubango. As chuvas que se abateram no sul de Angola abriram ravinas e cortaram a circulação rodoviária. Um grito aflito temendo a deterioração das mercadorias do Natal. Tinham esperança…
- RÁDIO4. Falava da preparação dos Palancas para o CAN da África do Sul. A Esperança é chegar o mais longe possível. Por que não às meias-finais?
RÁDIO5- Abordava aspectos relacionados com a economia do país. A agricultura, pecuária e indústria, crédito à economia, agricultores do fim-de-semana. Irrigação! Ordenamento do território. O Vector da economia! Que já devia ganhar prémio nacional de jornalismo pelo contributo que tem dado para a reflexão sobre as questões do desenvolvimento do país. A esperança é viúva, é última que morre!
RADIO6- Tudo está atoa no trânsito da grande metrópole. Inquilinos de bairros dormitórios vêem-se aflitos para chegar ao centro da cidade. Essa é sua rotina. De manhã, descem aturando longo engarrafamento e à tarde idem. O custo do engarrafamento não entra nas estatísticas, mas é alto. Milhões de litros de combustíveis consumidos num trajecto de 30 quilómetros. E o custos com o stress e suas doenças derivadas? E a baixa produtividade? E o mau-humor? E os conflitos domésticos?
RADIO7- Diz-se de Escola, mas concebida para servir de laboratório para os alunos de jornalismo, no viés do projecto, virou rádio comercial. Os cursos de rádio, Tv e de jornalismo, que até tinham muita audiência e importância, jamais foram leccionados. Cefojor é simples sigla na memória como Dinaprop, Econdipa, Empa, Egrosbind, Egrosbal…
RADIO8- Era o de Línguas Nacionais. A língua é um instrumento importante para a preservação da identidade de um povo, mas cada dia que passa o número de falantes cai perigosamente para o vazio. A força da língua está no perfil dos falantes. Língua apenas falada por velhos, pobres e analfabetos está moribunda. A Faculdade ensina língua nacionais, mas quantos estudantes aprenderam comunicar-se de facto. É só para passar de classe. Ainda que aprendessem, onde iriam poder exercitar? Na Rua?... No serviço?… O preconceito ainda reina. Nenhuma telenovela Nacional tem um personagem que se exprima em língua nacional. Só na Radionovela Camatondo! Que valores nacionais se quer preservar?
Naquele momento, o carro que transportava Wandalika atinge finalmente a Maria Pia. Pensou que o internariam, mas não. Ficou triste, pois pelo menos terminaria a incerteza, o suspense. 
Desceram a Avenida 1º Congresso, admirou as novas construções com vidros reluzentes e os vários guindaste q     eu se disseminavam pela baixa luandense e arredores. E ficou feliz. Depois, ao passar no Cine Nacional, lembrou-se dos velhos tempos. Henrik Ibsen era a sua paixão. E jamais se esqueceu da peça “Um inimigo do povo”. Lembra-se que depois de ter sido escolhida pelo seu Grupo, ela não foi encenada por falta de actores à altura do texto dramático. Teatro tem de contar com bons actores. Mede-se a cultura de um povo pelo seu teatro, dizia Garcia Lorca. E ele sorri. Olharam-no, assustados.
Atingem a Marginal e rapidamente chegam ao Porto, encaminhando-se para o bairro Boa Vista. Poeiras mil! Havia um grande engarrafamento. A estrada que sai de um dos portos comerciais mais importantes do Continente africano, que movimenta milhões de dólares em mercadorias por dia, está altamente degradada. Camiões com contentores circulam com dificuldade e os acidentes fazem rotina. As construções desceram o morro e invadiram a antiga estrada.
- Chefe, vão me levar pra onde?
- Você não é pessoa, não tem direito à palavra!...
- Eu então não fiz nada! Estão a me levar na penitenciária por que?...
- Cala essa boca, Kazumbi!... Vou te levar na igreja
- Pai, não me faz isso, faz favor. Vão me matar!...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Regresso de Pessoa


Há mais de uma semana que ele desaparecera. Em sua casa, uma multidão de familiares e amigos aguardava ansiosa por notícias sobre o seu paradeiro. A esposa, sentada na esteira da viuvez, cansava-se em contar e recontar as circunstâncias que envolveram o seu desaparecimento. Pai, já se foi em tudo que é morgue nesta cidade, mas até agora nada! Já fomos no Ecos & Factos, da TPA… O mano não viu ontem a foto dele?… Passou na Televisão, até as famílias da província telefonaram a perguntar… Hummm, azar procura o dono!... Pai, azar não custa que custa é casar! E com gesto pesaroso se erguiam, suspirando as suas angústias e sofrimentos.  Coragem!!!
Ao se verem livres, afastados do quarto, lá fora reuniam seus parceiros para o jogo de cartas, enquanto outros procuravam trocar impressões sobre a vida quotidiana nos seus bairros e aldeias. Os das aldeias, falavam da chuva que caia e da germinação das sementes no campo. O verde da paisagem do milheiral que se estendia para além do horizonte. Contabilizavam os custos com a mão-de-obra, o aluguer do tractor na empresa de mecanização agrícola, o transporte e os inseticidas usados no combate aos insectos nocivos à plantação, antevendo as margens de lucros. E todos eram unânimes: Os agricultores trabalhavam dia e noite para aumentar a produção de milho, hortícolas, feijão, mandioca, batata e tantos outros produtos do campo, mas no fim quem mais ganhava são os comerciantes. Por isso, vêem-se mais gente a comercializar do que a produzir no campo. E o campo começa a se tornar pouco atractivo. Por isso é que as pessoas estão a fugir. O trabalho do campo é muito duro, é preciso ter muita força de vontade para aguentar. O ano inteiro não há feriado. Tudo começa com a preparação do campo para a sementeira: a capina, a recolha e queima do capim, a sementeira, a luta contra as aves e os macacos colocando espantalhos em toda lavra ou marcando presença diária, gritando e batendo o tambor. A sacha, a luta contra os javalis, veados e elefantes que procuram folhas tenrinhas para saborear e matar a fome.
A conjugação de exclamações e interjeições procuravam exprimir a dimensão do estrago que cada interveniente provocaria à plantação:
Eh, pai! Veado quando encontra milho ou campo de kizaca, aquilo é comer ou quê?!!! Ele come para uma semana! Até se esquece que o milho tem dono. Quem se esquece no que é alheio, não valoriza a segurança da sua própria vida.
O velho de chapéu de cowboy e de olhar distante, com uma mão segurando o cajado e outra sobre a cobertura, ergueu-se da cadeira de plástico, vulgo espera condições, ao referir-se aos elefantes que com frequência devastavam a sua plantação no Bié. Eu nunca vi tantos elefantes!… Mas estes bichos andavam aonde? Dizem que tinham fugido para os países vizinhos por causa da guerra que ameaçava as suas vidas. Depois que a paz foi alcançada, eles decidiram regressar para as suas terras. O seu regresso tem gerado muitos conflitos, sobretudo com os homens que, alguns deles, construíram aldeias e lavras nas suas áreas de pasto. O elefante tem memória tipo gente, sempre regressa à sua aldeia de origem. Até aqueles que haviam fugido estão a regressar e a exigir o que era deles. Nova cooperação! Estamos mal!...
O pai acha que as pessoas que vivem hoje aqui em Luanda um dia voltarão às suas aldeias? Perguntou o Pastor Zagueu, da Igreja Justiça Divina!
Todos entreolharam-se e alguém sorriu com desdém antes de comentar: Hehehehe regressar ao campo, nem pensar! A vida no campo é muito dura, difícil. Você no campo, depois de muito trabalho, vende um cacho de banana a 100 kwanzas. O comerciante que vem da cidade bota o cacho na carrinha e chega no mercado do Catintom, em Luanda, revende-o a 1000. Mesmo que o frete seja alto, ele acaba lucrando mais do que o próprio agricultor. O homem do campo continua com muitas dificuldades e a viver com a camisa e as calças rasgadas, enquanto outros enriquecem à sua custa. É mais fácil vender jinguba no muro do quintal ou em qualquer esquina das cidades do que trabalhar a terra.
E todos corroboraram. Quem partiu para a grande cidade dificilmente regressa. Por isso as aldeias estão a ficar vazias de braços e de força jovem para o seu desenvolvimento. Em muitas delas hoje apenas encontras velhos e velhas, esperando o dia da partida. Muitos deles já têm as suas trouxas arrumadas! Cada ano que passa a extensão da plantação diminui. Os velhos estão cansados e o corpo enfraquecido. Contrariamente ao que muitos pensavam, o fim da guerra não incentivou o regresso, mas o êxodo rural. Basta ver que muitos dos bairros que existem hoje, surgiram na era pós conflito.
Aliás, muitas das construções anárquicas nasceram nessa época. Como é que se aceita que um indivíduo construa uma casa naquela ribanceira do Morro da luz? Mas aquilo é perigoso! Não há Polícia para evitar aquela buandja, aquela anarquia? Pai, eles constroem à noite. Mas a polícia não dorme. Como dizia o outro: O inimigo madruga, nós não dormimos. Isso é buandja!
Olha, no tempo colonial nós nem caporroto podíamos fazer. Se te apanhassem destruíam tudo e eras levado para a esquadra donde sairias com as mãos e o matacos inflamados. Aquilo era purrada! Qual Direitos Humanos!
Hoje nas ruas das cidades e nos becos dos bairros, você encontra gente a beber álcool logo de manhã. E tranquilamente! Os outros estão a ir trabalhar ele já está a beber!...  Olha, eles bebem também mata macaco! Mata Macaco? Sim, vocês não conhecem uma bebida que mata macaco? Não?!!! O mais velho pode então nos explicar! Olha, a tal bebida vem numas garrafas pequenas e no rótulo traz uns números. Cada garrafa traz o seu número…
A gente compra as tais garrafinhas na cidade, quando chegar na lavra, colocamos numa tijela. O macaco ao ver o recipiente, desce das árvores e começa a beber. Todo o bando desce para beber. Invadem a bebida. Até eles esquecem o milho! Chega uma altura que eles lutam por causa da bebida! Aquilo vira confusão! Depois de veres que eles já se embutiram da bebida, então você aparece. Olha, quando te verem a chegar, eles partem em correrias, subindo nas árvores… Pai, quando você gritar, eles com medo começam a pular de ramo em ramo. Como estão bêbados, eles não conseguem medir a distância entre um ramo e outro. Resultado, se atiram no abismo, morrendo ao se espatifarem no chão.
E todos sorriram. Não riem! Agora vocês estão a ver por que razão tem hoje muitos acidentes nas nossas estradas?… Bebida, muita bebida! As pessoas quando bebem não calculam as consequências dos seus actos. Quando pegam o volante pensam que não morrem mais. E muitos casos de sida é consequência do álcool, porque quando você bebe, perde o medo e a noção do risco. Depois diz que é feitiço!
Olha, o Governo devia reduzir o comércio de álcool. Daqui para o Sumbe, Benguela, Huambo, Malanje, Uíge..  Ao longo da via você encontra bebida. Os acidentes estão directamente ligados ao consumo de bebidas alcoólicas.
Naquele momento, aproxima-se um homem vestido de calça social e uma garrafa de aguardente na mão. Usava um chapéu de palha. Eram 20 horas. Olharam-no assustados. Uaué, pai, kazumbi do Wandalika voltou! E todas a pessoas puseram-se a correr. Na aflição, deixaram para trás as esteiras, os panos e os bancos.
Era uma algazarra! Uaué, kazumbi do Wandalika voltou!...
E calmamente, Wandalika subiu num banco, ergueu os braços e na sua voz rouca começou a declamar Fernando Pessoa! Os seus gestos foram projectados pela Lua Cheia sobre a parede de blocos. 

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.”

E naquela noite, Wandalika ficou só na casa vazia. Até os cachorros recusaram-se a entrar para o quintal, optando por uivar errantes pelo bairro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Martelo ou bigorna


Às 7 horas e 30 minutos cruzou com um estudante, meia altura e uma sacola artesanal à tiracolo. Caminhava tranquilo. Ao cruzarem no corredor, cumprimentou-o. Você é da onde? Sou de África, o Continente Berço. Sabia que você era gringo! HEHEHEH Você é do continente onde se dorme muito, né cara? ehehehehe Como assim? Uai, berço não é para bebé dormir?! Não tem nada a ver! Viste o jogo da Nigéria? Perdeu por infantilismo. Vocês são muito emocionados e a emoção é coisa de criança! Hehehehehe… Falando sério. A África é um berço em permanente convulsão. Aquilo é um caos federal, percebe? Já viste o formato, parece uma pistola, cujo gatilho está no Golfo da Guiné, o cão na Somália! A mira está em Moçambique e o cano na África do Sul. Heheheh! Wandalika olhou-o desconfiado… Será mercenário! O célebre francês Bob Denard tinha varias ramificações no mundo, até na América Latina! Amigo, na África não há um único país que possa ser apontado como exemplo de desenvolvimento e de boa governação. A África do Sul! Ok! Talvez seja o único e porque andou lá a mão de ferro. Vais ver o que vai acontecer dentro de alguns anos! Tirando a terra de Mandela, cara, o resto é paisagem, é leões, antílopes e macacos correndo na paisagem! Hehehehe… Não se esquece que a escravatura e o tráfico de escravos afectaram profundamente os africanos. Fomos nós quem construiu a felicidade das Américas, sobretudo no Brasil! Isso teve reflexo no desenvolvimento do continente Negro. Quê isso cara?! Os vossos reis é que eram ambiciosos, pois trocavam os seus filhos com produtos da indústria europeia: pedaços de espelho, cachaça! Foi tudo ambição! Ao invés de se unirem estavam vidrados no negócio. É lógico, os europeus não são bobos, aproveitaram! Aproveitaram roubar a nossa riqueza! Cara, deu moleza, apanha! Na vida ou se é martelo ou bigorna. ................................................

Extrato do livro "Aventura de um estudante Angolano no estrangeiro" apresentado pela Editora Mayamba em Agosto de 2012 em Luanda.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PONTEIRO NO VERMELHO



 
ESTAMOS NA CIDADE DE JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS, BRASIL, 1995. Nossa Senhora Aparecida era um bairro de gente simples entre as quais muitos brancos, negros e mestiços. Funcionários, operários de construção civil, vendedores e empregados. Algumas ruas eram asfaltadas e outras calçadas de pedra. A casa onde moravam ficava no término dos autocarros daquela linha. A cerca de 20 metros havia duas cantinas e um orelhão (Telefone público). Nossa Senhora Aparecida fazia fronteira com os bairros Santa Rita, Santa Cândida e Nossa Senhora de Lourdes. Era muita Santa à sua volta.

No anexo com o Cativa, também vivia um capitão da Força Aérea chamado Maurício. Um luandense do Bairro Rangel. Mais tarde, vieram a saber que ele era apenas tenente.

Estamos zerados, dizia o Cativa. Estamos zebrados! E sorriam,sorriam... Na primeira semana, Wandalika pegou, a título de empréstimo, em 100 dólares e deu-os a cada um deles. A alegria havia retornado. Dois dias depois, voltaram a pedir mais 100 dólares. Acedeu desconfiado. Semana seguinte, pediram mais 100 dólares. Recusou. Deu-lhes apenas 50. Entretanto, os gastos eram compreensíveis, pois os seus companheiros tentavam atenuar a dívida do aluguer, melhorar a dieta alimentar, comprar roupa e diminuir o cansaço andando de autocarro[2]. Do frango haviam passado para carne, sobretudo de fígado de vaca. Voltaram a gargalhar ao lembrar os esqueletos de frango.

Mas no mealheiro, o nível de segurança baixava. Em menos de um mês Wandalika estava apenas com 300 dólares. O ponteiro estava no vermelho. Para quem não sabia quando receber o reforço de verba, a situação era realmente aflitiva.

Como o quadro degradava-se a cada dia, decidiu manter um encontro com os companheiros de caserna para a revisão da situação: Camaradas! Nós somos militares e temos que buscar soluções. Mas que soluções? Somos comandos desembarcados na profundidade do inimigo. A nossa missão é de alto risco. Não temos como receber apoio da rectaguarda, devemos contar com os nossos próprios meios e capacidade de sobrevivência. Temos de aprender a pescar!

O Cativa acendeu um cigarro com indisfarçável insatisfação pelo diálogo que para si até aí era incompreensível. Wandalika esperou alguns segundos até a conclusão da primeira baforada e prosseguiu com maior acutilância: como vos disse, a guerra em Angola não deixa espaço para vislumbrarmos um futuro de paz dentro de pouco tempo. As tropas do Governo desdobram-se no terreno para rechaçar o inimigo, mas a situação vai ainda durar algum tempo. Sabem que o inimigo está bem municiado! Caxito, Catete, são zonas de guerra! Não temos como receber o dinheiro da bolsa dentro de pouco tempo. Temos de resistir. E o Primeiro-ministro Marcolino Moco?... Todo o esforço vai ser canalizado para a guerra. Esta é a verdade.

A impaciência dos interlocutores empurrou-o precipitadamente para a parte principal do plano. Vamos procurar uma igreja! O falso capitão sorriu numa alta gargalhada, levantou-se, abriu a porta e saiu, fechando-a atrás de si com alguma violência. A porta fechou-se e no caminho que os unia apareceram pedras que cresceram e chegaram a pedregulhos como as que existem no rio Mazungue. Para ele, Wandalika era um doido, um puro exibicionista!

Quem olha em várias direcções não avança! Por isso concentrou o fogo em Cativa. Queria convencê-lo. Fica calmo, nós vamos conseguir manobrar. Os chineses dizem que a arte da guerra é a arte da manobra. Vamos à igreja!

O seu companheiro Cativa manifestava-se relutante, argumentando que era católico desde os tempos de criança no município do Bailundo e não protestante. E ele contra-atacava. Quando a vida está em perigo, as soluções devem ter em conta, primeiro, a sobrevivência. Lá vais seguir todos os movimentos de levantar, fechar os olhos, assentar e ajoelhar. Fica calmo! Mas porquê que você não quer ir na Católica? Até fui baptizado pela Católica, mas ainda era criancinha, apenas tinha dois anos. Então, vamos lá! Nem pensar! A última vez que pus os meus pés numa Igreja Católica foi em 1993. Nem imaginas! O quê? Fomos corridos pelo padre!... Hum, fizeram o quê! Sabes que depois de 1975, após a proclamação da independência quase todos os jovens aderiram ao ateísmo científico. Aliás, era condição para ser-se militante do MPLA, mais tarde transformado em Partido do Trabalho. Todos queriam ser marxistas e leninistas! Depois do Muro de Berlim ruir em 9 de Novembro de 1989, criando um mundo unipolar… O sol se pôs e órfãos da Guerra Fria tacteavam nas trevas, buscando a luz! Então em 1993, familiares de um militar falecido queriam que se celebrasse uma missa em sua memória na Igreja Sagrada Família.

A plateia era composta maioritariamente por militares garbosamente fardados exibindo braços musculosos. São dos debraços e cangurus[3]! Quando começou a missa foi uma desgraça! O diabo desceu? Não, nenhum deles sabia rezar o Pai-Nosso e nem Ave-Maria. Nem ninguém sabia cantar as canções. O Padre sentiu-se solitário diante do cadáver desconhecido. E enfurecido começou a amaldiçoar os presentes: o que é que vieram fazer aqui? São vocês que quando vivos não se preocupam em ir à igreja e fazem-no apenas na hora da morte. Vocês são oportunistas. A Igreja não é loja, onde se compra a fé. De nada adianta pedir a Deus que receba a alma de alguém que em vida foi carrasco do Senhor.

Sem terminar a missa, pegamos no caixão e saímos apressados. O padre tinha razão. As pessoas só procuram a igreja quando têm problemas. Quando estão encravados. Eu não vou mudar de igreja agora. Epá Cativa, então vai me fazer companhia para eu não ir sozinho. Vou pensar no teu caso!...

Agora mais calmo. É preciso ter fé, amigo! A fé move montanhas. Como assim? Olha, quando estava internado no Hospital Militar depois de ter accionado uma mina durante uma emboscada no Lucusse… Quando?  Na altura da ofensiva de Mavinga em 1989. Pensei! Pensaste o quê? Pensei que fosse em Cangamba? Ah, ya durante a guerra de Cangamba eu ainda estava na Academia Inter-Armas… Yá, conheci um capitão que havia fracturado a coluna num acidente. Era domingo e caíram com o camião de marca Ural num precipício na Serra da Leba. Possa, aquilo é perigoso!  Ele estava internado há mais de um ano e não saía da cama. Estava todo magro e as costas cheias de chagas. Todas as necessidades fisiológicas fazia-as na cama. Chorava todas as noites ao pensar na mulher e nos filhos que ele já não via há bastante tempo… É triste! Olha, ele chorava mais nos dias de visita. Tem razão! Quando estás internado ou preso e não recebes visita, ficas maluco. Família faz falta! E o que é que aconteceu com o capitão? Ok. Certo dia, ele chamou-me todo radiante. Wandalika! Wandalika vem só ver! Peguei na muleta canadiana e fui. E ele dizia todo feliz, eu ainda vou andar! Estás a ver o meu dedo do pé?... Yá!... Está a mexer! Aproximei-me  até a um palmo do referido pé, mas não via nada se mexendo. E ele? Ele insistia, estás ver, chefe? Qual era a sua patente? 2º tenente. E ele te chamava chefe? Epá… E depois? Yá! Olhei-lhe nos olhos e comecei a pular de alegria. O capitão Kupessala vai andar! … vai andar!... vai andar! E ele ficou ainda mais feliz. Nunca o tinha visto tão alegre!

Quando se tem fé as coisas acontecem. E o capitão voltou a andar? Não sei, porque eu tive de sair, deixei a cama para doentes mais graves, sobretudo os que chegavam da frente de combate. E não eram poucos! O que me substituiu era um jovem tenente, que tinha o corpo cheio de queimaduras! Será que o camião Gaz 66 em que seguia pegou fogo? Não! Disse que durante o avanço em direcção a Mavinga um obus anti-tanque passou bem perto dele e a farda pegou fogo. Possa, teve sorte! Aquela brincadeira é bem quente e é capaz de derreter um tanque, já imaginaste?!... Nem sei se ele sobreviveu! A vida militar é dura! Yá. Só o patriotismo obriga a tamanhos sacrifícios.

Olha, falando nisso. Certo dia chegou uma ambulância que trouxe muitos feridos. Vinham da frente. Um artilheiro estava a sangrar dos ouvidos. O sangue jorrava como se fosse de hemorragia provocada por uma bala. Segundo informações,foi preciso retirá-lo da peça à força, pois a Unidade já estava a retirar-se, mas ele e o municiador continuavam a disparar e no meio daquela poeira. Eles não viam, nem ouviam mais nada. Apenas resistiam!. À volta da peça viam-se corpos de companheiros tombados. Um ferido pedia para os camaradas o liquidarem. Não queria ser capturado. O outro estava com as duas pernas fracturadas, mas pediu munições e granadas para se defender. E suspiraram quase juntos. Angola tens heróis de verdade. Homens corajosos e valentes. Eles merecem o nosso respeito! O reconhecimento de toda a Nação! Tem o túmulo dos soldados desconhecidos. Yá, nunca entendi bem isso. Como soldado desconhecido, não tinham nome? Epá, é universal!

 



[1] Texto extraído do seu livro com o titulo “Aventura de um estudante angolano no estrangeiro”
[2] Ônibus, para os brasileiros e camioneta, para os portugueses
[3] Tipo de exercício que imitava o movimento dos cangurus

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Palavras do autor na apresentação da Obra

  Excelências membros da Direcção do Departamento de Sociologia da Faculdades de Ciências Sociais!
  Prezados membros do corpo Docente!
     Prezado Editor da Mayamba, Dr. Arlindo Isabel!
  Estimados estudantes!
Queridos amigos!
Minhas senhoras e meus senhores!

Depois de mais de dois anos de várias tentativas, finalmente tenho a alegria de lançar em Angola, a  obra “AVENTURA DE UM ESTUDANTE ANGOLANO NO ESTRANGEIRO. Crónicas de uma viagem ao desconhecido”. 
Como estamos entre sociólogos, creio que para melhor entender a obra do autor, nada melhor que fazer uma incursão, ainda que breve, ao seu mundo, à sua origem e ao conjunto de eventos históricos que marcaram a sua vida. Ou seja, rever o universo de ícones e símbolos que povoam o seu subconsciente.
Chamo-me Augusto Alfredo Lourenço, tenho 49 anos de idade, e sou natural da localidade do Pange, município do Amboim, província do Kwanza Sul. Meu pai é Alfredo Lourenço, carpinteiro, agricultor, caçador e mais tarde motorista da ETP. Recorde-se que meu pai apenas sabia assinar o nome, mas depois que a caça se tornou impraticável, e porque no mato havia outros caçadores que caçavam homens, ele decidiu ser motorista. Como um homem analfabeto conseguiu obter cartas de Condução?
Como os meus irmãos já haviam partido para a guerra, foi a mim que coube a tarefa de ler para si os textos do código de estrada e de mecânica. No fim de meses ele decorou-os do princípio ao fim.
Minha mãe chamava-se Conceição Francisco Durí, doméstica. Ambos são naturais da localidade da Gangula, Novo Redondo, hoje Sumbe.
O Pange, meu berço, é um bairro cercado por um cordão de montanhas de pedra e coberto do verde das palmeiras e das mulembeiras. O Mazungue dá ao cenário o toque de sua magia, que só os rios conseguem transmitir à paisagem verde. Foi nesse ambiente bonançoso que me fiz homem.
Nasci e cresci nas cercanias das fazendas cafeícolas do Mário & Cunha, CADA-Boa Entrada e Marques & Seixas e cedo vi os contratados a trabalhar com as suas catanas e enxadas. Cedo também vi os capatazes a gritarem e a chicotearem os trabalhadores da fazenda. Cedo acompanhei as canções de trabalho dos contratados, que como bálsamo procuravam atenuar a dor da violência. Na minha visão, deste lado, na aldeia, estava a liberdade, e do outro lado, na fazenda, a opressão.
Um dia perguntei ao meu pai por que razão os contratados sofriam tanto, mas não conseguiam reagir e apenas cantavam. Meu pai disse que no cantar estava a sua resistência.
Então fiquei mais curioso. Fiquei mais atento. E hoje ainda me lembro das canções que eles mais cantavam. “KAPALANDADA WA LILA…”
Rezava todos as noites, até que certo dia, ao voltar da escola encontrei dois homens que haviam fugido da fazenda Mário & Cunha. Disseram que, após vários anos ao serviço dos colonos, não suportavam mais a dor do sofrimento e da humilhação.
Meu pai recebeu-os e passaram a morar lá em casa. Eu fiquei feliz, porque agora tinha ganho dois novos amigos e todas as noites ouvia deles estórias de terras longínquas do planalto Central.
Maurício Ernesto Kaesse e Tchiwangula tornaram-se nos meus melhores amigos. Íamos às lavras e almoçávamos juntos e ao regressar tomávamos banho no rio Mazungue, livrando-nos da poeira e do cansaço da lavoura.
Após 25 de Abril, festejamos juntos o fim do regime facista de Salazar e Caetano e igualmente juntos acompanhamos o hastear da nova bandeira da Angola Independente. Nunca os tinha visto tão felizes.
Construíram as suas casas ao lado da nossa, casaram-se e permaneceram até a década de 90, quando já velhinhos acabaram por morrer.
Nessa altura, eu já lá não estava, pois havia ingressado na FAPLA. Mesmo longe da minha aldeia, eu ainda ouvia as suas estórias e as canções de contratados que trabalhavam no cafezal.  
Conheço a dor e o sofrimento. O amor que anima o compasso da vida. A esperança e a fé no amanhã. É tudo isso que nos move todas as manhãs ao acordar para mais um dia.
E mesmo no quartel, nos momentos mais difíceis em que a pátria se viu ameaçada, procuramos forças no sentimento sublime que nos unia e identificava como filhos da mesma pátria.
Ao escrever esse livro, moveu-nos um único sentimento: o de partilhar com generosidade vivências e experiências acumuladas durante os quatro anos do curso no Brasil.
A literatura, com disse Roland Barthes na sua aula inaugural realizada no colégio de Paris, é o único espaço onde é possível agir com liberdade. Pois, nem na linguagem tal era possível já que esta é fascista, não pelo que ela dizia, mas pelo que ela obrigava a dizer.
A criação literária é uma forma de exercício da liberdade, basta ver que o impulso para o acto criador é inusitado.
Senão vejamos: a 3 de Maio de 1988, na noite em que acabava de imprimir o trabalho de fim do curso de graduação em Comunicação Social, recebi a notícia da morte por atropelamento da minha primogénita Edna. Estava na sala de aulas, quando a informação sobre a desgraça chegou. Apenas três meses depois consegui angariar dinheiro para poder viajar para o óbito.
Uma das lembranças que guardava com zelo era uma carta que Edna me havia enviado pouco antes de ser atropelado por um camião no mercado de Artesanato do Bairro Benfica, em Luanda.
Passado 4 anos, quando trocava os documentos da carteira, a esposa, ao ver o seu estado de conservação da referida carta, quis saber por quanto tempo ainda iria guardar a carta. Não respondi. E durante quatro noites consecutivas fiquei a cogitar em como preservar e partilhar a carta com os meus amigos e familiares. Foi assim que iniciei a escrever a história que vós tendes a oportunidade de ler hoje em forma de livro.
Obrigado Edna, por tudo. Pelo seu amor e carinho.
Obrigado à esposa, pelo incentivo involuntário.
 Minhas senhoras e meus senhores!
Eis a obra escrita com a alegria e também com muitas lágrimas.
Todos que um dia foram estudantes no estrangeiro, ao ler estas páginas da “Aventura de Um estudante Angolano no Estrangeiro“ irão com certeza encontrar laços de identidade e de projecção com as cenas e os personagens que costuram o enredo.
E para aqueles que serão um dia bolseiros, as lições ou o aprendizado que colherão da leitura, servir-vos-á de bússola orientadora no caminho da busca de conhecimentos técnicos e científicos indispensáveis para o desenvolvimento do nosso país.
Agradeço o Comando da Marinha, pelo apoio prestado na edição!
Ao Arlindo Isabel, pela rapidez com que aceitou e aprontou o livro.
À Drª Márcia Falabella, pelo carinho e por ter aceite prefaciar o livro.
Aos meus professores e colegas da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, pela amizade e compreensão. Ao povo brasileiro, pela solidariedade.
A todos os presentes, reitero o meu muito obrigado pelo carinho da vossa audiência!

Faço votos de uma boa leitura !
Obrigado!


OBS. Palavras proferidas pelo autor  dia 13 de Setembro de 2012, no auditório da Faculdade de Ciências Sociais, em , Luanda, durante as jornadas do curso de Sociologia.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

AVENTURA DE ESTUDANTE CHEGA AO MERCADO


 

O livro Aventura de um estudante Angolano no estrangeiro vai ser lançado às 15horas desta quinta-feita, 13 de Setembro, na Faculdade de Ciências Sociais, em Luanda.


A obra de Augusto Alfredo, está escrita em forma de diário, retrata a vida de dois estudantes que partem do país na expectativa de formar-se no estrangeiro, onde se confrontam com várias dificuldades, desde a adaptação cultural, a falta de notícias do país, na altura em guerra, bem como a saudade. Os dois personagens principais Wandalika e Cativa, ao longo do enredo, vão desfiando o rosário dos seus conflitos e dramas em diálogos descontraídos onde estão em pauta os mais variados assuntos desde os corriqueiros do quotidiano, até aos desafios que perpassam o presente e futuro de Angola e do continente africano.

PARTICIPE!