terça-feira, 21 de agosto de 2012

Habla querido, habla!


Prólogo: O Pirilampo sonha ofuscar as estrelas!



No meio da multidão de empresários angolanos e argentinos ávidos em partilhar novas oportunidades de cooperação, uma voz quebra o protocolo e deixa a respiração de muitos suspensa:

- Presidente tu es una mujer inteligente y hermosa, te amo!

- Habla querido, Habla!

Esta é uma tirada descontraída da charmosa Presidente Argentina Cristina Kirchner, ao reagir ao galanteio despropositado de um empresário do seu país na Feira Internacional de Luanda. Saiu bem! Quiçá entusiasmado pelos potenciais negócios a desenvolver em Angola no domínio da agro-indústria, educação, cultura e novas tecnologias, diante da avassaladora simpatia e simplicidade da Presidente, o argentino não se conteve e gritou seu desejo carnal, mas a resposta pela ousadia venho sincopada e com sabor a Tango, que mescla o drama, a paixão, a sexualidade e a agressividade, para a surpresa e delírio da plateia. O arrepio que pendia a respiração se desfez numa tensa gargalhada.

Num outro momento, durante a conferência de imprensa, o seu assessor aproximou-se do ouvido da presidente e lembrou-lhe sobre algo que ela devia dizer aos presentes. Num gesto rápido disparou!

- Estás chato! No voy a olvidar nada! – E prosseguiu como se aquele episódio-incidente nunca tivesse ocorrido naquele lugar! Era festa, era Tango! Era Cristina! Ela conduziu o tractor, dançou, sorriu e abraçou os que cruzaram o seu caminho! Increíble Cristina es fuego capaces de encender un bosque verde, diziam com certeza seus conterrâneos.

Aliás, ela faz jus ao significado do seu nome. Cristina quer dizer, «optimismo e afectuosidade são qualidades que projectam a imagem de uma pessoa popular que alegra seu círculo de amizades. Adora baladas e agitos onde possa demonstrar seu talento artístico. Muito criativa e comunicativa, possui um charme especial que usa para conquistar o que quer. Sua descontracção e bom humor a mantem sempre jovem, não importa a idade que tenha. Sempre aberta a novidades, possui uma mente fértil para os negócios. Seu optimismo permite que mesmo diante das mais difíceis situações encontre um lado positivo e anima todos à sua volta».

E foi com todos esse optimismo e descontracção que a presidente da Argentina, Kirchner, aos 58 anos, foi submetida a uma cirurgia, depois de lhe ser diagnosticado um câncer na tireóide.

As notícias sobre a visita de Cristina a República de Angola bem como os encontros mantidos com autoridades angolanas, com destaque para o Presidente José Eduardo dos Santos, encheram os noticiários de jornais, revistas, rádios e televisões das duas margens do Atlântico.

Ela foi uma artista: «Só através de um cerimonial consegues comunicar. Porque tu não comunicas com os objectos, mas com os laços que os ligam», escreveu em "Cidadela", o também autor de “O Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry.

Portanto, comunicação é um processo marcado pelo envolvimento do emissor e do receptor, por isso não há espaço possível de fuga para o distanciamento.

A propósito quero abrir um parêntese para perguntar o seguinte. Desculpem-me prezados leitores, ouvintes e telespectadores, pois há uma pergunta que não quer calar. Será que todos os angolanos entendem perfeitamente o espanhol, para que não seja fornecida a tradução dos discursos feita naquela língua? Há muito que essa pergunta me persegue e todas as vezes que ouvia o noticiário nas rádios ou televisões, ela gritava nos meus ouvidos! Ajudem-me por favor! - «De repente apareció un hombre pelado (careca) con el saco (jaqueta) lleno de polvo (pó) que le dijo si podía compartir la cena con él.»

Como podemos perceber no exemplo acima, extraído do blog de Adir Ferreira, professor e tradutor de inglês e espanhol há 18 anos, as palavras podem até ser parecidas, mas encerram significados diferentes.

Eu já convivi com muitos cubanos, sobretudo os primeiros militares que haviam desembarcado em Angola para ajudar a travar a marcha sul-africana em direcção a Luanda. Foram eles que mais tarde formaram o famoso Batalhão Internacionalista no CIR Comandante Raul Dias Arguelles, localizada na Fazenda da Nova Ereira. Ali bem perto do meu Pange, do meu rio Mazungue, que corre entre pedras negras que emergem do leito como ovos de dinossauros.  

Os cubanos usavam uniforme Verde Olivo e botas que disseminaram seus trilhos característicos nos caminhos e estradas de terra batida. Nos comunicávamos de qualquer jeito por uma questão de sobrevivência, numa conjuntura onde a emergência não tolerava o silêncio (Hola primo, hola compañero)! Mas daí a encher-se de ufanismos por falar espanhol vai uma distância considerável. Mesmo com ajuda do esforçado portonhol os angolanos da minha aldeia e os filhos de Fidel ficavam a nadar no Mazungue, porque afinal espanhol não é português.

Para ilustrar melhor essa afirmação narro a seguir o seguinte episódio: Certo dia, os militares cubanos chegaram à aldeia com sacos de pão num camião de marca Berliet, espólio do exército português. Entregaram dois sacos a uma jovem gorda que lavava nas margens do rio, com recomendações para os distribuir aos demais. Seus olhos brilharam ao verem o pão, mas não entendeu a mensagem, gerando-se a seguir uma grande confusão.

– O pão é meu, mi deram só su eu!...

- Eles falaram, é p’ra nós todos!...

Instalou-se o conflito. Formaram-se dois grupos ansiosos em comer do pão. A escolha da aliança foi feita tendo em conta factores como laços familiares ou de amizade ou ainda a maior probabilidade de se alcançar o objectivo.

O camião a muito havia partido, não havendo sequer alguém na poeira para repor a verdade, apaziguando os ânimos dos alegados injustiçados! Os ruídos na comunicação geram quase sempre conflitos difíceis de mediar. A contenda motivou uma reunião de desfecho imprevisível no Comité do Partido.

A fronteira luso-espanhola, conhecida pelo epíteto de “A Raia”, estende-se desde a foz do rio Minho, a norte, até à foz do rio Guadiana, a sul, ao longo de mais de 1200 km. Os portugueses que são os criadores da língua e dividem uma fronteira e história com a Espanha, traduzem os discursos destes para o entendimento da sua audiência, mas nós angolanos, cuja maioria tem uma língua diferente para pedir leite materno, nada! Que presunção!

Qualquer manual de jornalismo recomenda o uso da clareza, simplicidade, exactidão, concisão e vivacidade. Como é que tal desiderato pode ser alcançado quando o profissional de jornalismo se esforça em afinar para que possa transparecer uma imagem de homem culto? Ademais com o índice de analfabetismo que grassa entre a população, todos os textos ou discursos em língua estrangeira, incluindo em espanhol, devem ser traduzidos! Já imaginaram uma notícia em espanhol nos semanários? Seria uma brincadeira de mau gosto que baixaria muito gravemente as receitas das vendas e da publicidade!

Por isso, a comunicação é partilha de vivências e experiências, é acto imbuído de generosidade e de amor ao próximo.

Portanto, mesmo captando a mensagem da letra pela metade, enquanto espero pela tradução dos conteúdos noticiosos feitos antes em espanhol nos órgãos áudio visuais de Angola, vou sussurrando, descontraído “Amiga mia”, de Carlos Gardel. Talvez, até lá tenha chances de conquistar a vizinha do saco de pão!



Amiga mía, a ver si uno de estos días,
por fin aprendo a hablar
sin tener que dar tantos rodeos,
que toda esta historia me importa
porque eres mi amiga.



- Habla querido! Habla!…




Lições de Papai


O cacimbo chegou, mas hoje acordei meio introspectivo, pois já não vejo o vermelho cereja cobrindo os cafezeiros e o terreiro das roças. Nem avisto homens e mulheres sorridentes com cestos ao pescoço, colhendo o bago vermelho. Também já não ouço as suas canções que marcavam o compasso durante a safra e serenava a dor da saudade dos que haviam partido. Apenas cafezeiros envelhecidos sobressaem numa paisagem cada dia mais calva com o abate indiscriminado de árvores de sombra. E a silhueta de um agricultor de olhar distante e gestos indolentes ainda persiste para a sobrevivência do seu orgulho.

Ao chegar o cacimbo, imagino meu pai com um tronco ao ombro para fazer fogueira no terreiro ao lado do café e minha mãe agasalhada com panos de flanela, transportando a sanga de água! E nós crianças traquinas envolvidas em brincadeiras intermináveis, que faziam esquecer a hora de buscar às cabras ao pasto ou a louça por lavar. Ah, como o tempo passa!

Ainda me lembro da noite, com estrelas e o luar cobertas pelo denso nevoeiro, quando chegou a casa um camião alemão de marca IFA com o número 56 e a sigla ETP na porta. Era alto e de cor creme, tinha lona cobrindo a carroceria e quatro pneus no diferencial traseiro, sendo dois de cada lado. Respirava, tinha vida! Na cabine, no painel de instrumentos, as luzes de várias cores imitavam a iluminação das grandes cidades e que só víamos no cinema. Mas era realidade, um aldeão, como nós, ia ao volante!

Como é que um simples camponês analfabeto consegue obter cartas de condução e dirigir um camião daqueles? Diante do incrédulo, alguns aldeões refugiaram-se numa única explicação: É feitiço! Outros, procurando abafar o mérito alheio, diziam: Cuidado, é motorista de 25 de Abril!

Com a sua robustez, os IFA’s rapidamente conquistaram a simpatia do povo e as estradas de Angola de Norte a Sul. Com o IFA, meu pai conheceu Quibala, Calulo, Wako Kungo, Cassongue, Atome, Conda, Seles, Huambo, Bié, Benguela e Lobito. Depois veio o tempo das colunas!

Ministério dos Transportes, da Agricultura (Encodipa, Dinaprop), UNTA Finanças, Construção e Habitação… República Popular de Angola! Eram os frutos da independência e da liberdade, conquistadas com o sacrifício de milhares de patriotas angolanos.

Scania 81, depois foi a vez do famoso Scania 111 número 122, cor de laranja. Perguntem ao músico Proletário, qual foi o camião que levou a sua Kahinda!... Scania 111, com a sua lona cobrindo as 18 toneladas de café ou géneros alimentares para as lojas do Povo era a rainha das entradas emocionando adultos e crianças. E no silêncio repetiam: Valeu a pena a Independência!

O tempo quase sempre se tem mostrado incapaz de apagar as lembranças e passado vários anos após a partida do meu pai, no caminho nasce erva daninha, mas as lições deixadas ainda continuam perenes. E incrivelmente, muitas vezes de forma involuntária achamo-nos a partilha-las com os filhos, com os dos vizinhos ou mesmo em salas de aulas com os alunos, diante da estupefacção ao perceber-se que à maioria deles falta-lhes energia volitiva ou seja vontade própria capaz de os impulsionar em direcção ao sonho. Não basta sonhar e ter fé, é preciso ter vontade e força para alcançar o sonho por mais difícil que ele seja.

É a vontade de realização do sonho e a capacidade de consentir sacrifícios que nos fazem avançar e vencer os percursos mais espinhosos. Os homens vitoriosos foram sempre aqueles que souberam identificar as metas e mobilizaram as energias e com audácia e estoicismo lançaram-se intrépidos na sua concretização! O desejo é o rastilho que acciona toda a engrenagem. Quando estamos a cumprir uma missão até a nossa unha deve estar concentrada neste objectivo, papai dizia. Após a identificação do alvo devemo-nos concentrar para atingi-lo! Nada nos deve demover do objectivo principal! O sono proporciona relaxamento e renovação das energias, mas dormir mais do que o necessário é um desperdício de tempo e de oportunidades. Quem muito dorme baba no travesseiro!

Tudo isso aprendi-o com papai. Quando eu nasci, ele tinha 38 anos de idade. Foi no ano da África! Nascido em 1922, era um homem de altura média, bem constituído, forte e sempre bem-humorado.

A busca do primeiro emprego, levou-o de Novo Redondo até à região montanhosa do Amboim, onde apresentou-se como carpinteiro na fazenda cafeícola da Boa-Entrada, C.A.DA. Levava uma caixa onde tinha o serrote, formões de vários tamanhos, diversas plainas e martelos. Era uma altura em que não se ouvia falar do currículo vitae. Era o desempenho profissional que contava na conquista da simpatia do patrão. A humildade, o respeito e a honestidade eram requisitos para singrar na vida!

Analfabeto, lia a bíblia, todavia mal sabia escrever o seu próprio nome. Comprou várias fazendas de café e resistiu às pressões permanente de vizinhos monopolistas como Mário & Cunha e Marques Seixas. Foi o primeiro a matricular os filhos na Escola Primária do Amboim, porque queria que seus filhos fossem como aqueles brancos que trabalhavam no Banco Nacional de Angola ou na Fazenda e Contabilidade. Era um grande orgulho ter um filho no Banco ou na Fazenda, não é como agora, que funcionário bancário poucos meses depois de ser admitido é apanhado a falsificar cheques ou a simular roubo em conluio com bandidos.

Quando a produção do café começou a minguar diante da moleza, não obstante o esforço no aprimoramento técnico, com empreendedorismo investiu na produção do algodão na região do 40, Porto Amboim. Ali conseguiu 8 hectares, nos limites dos quais semeava milho para sustentar a mão-de-obra. Nas férias, era festa grande, pois todos os filhos desciam de comboio para participar na colheita do algodão, voltando apenas na véspera do ano lectivo, que ocorria dia 11 de Setembro. Apanhavam o trem nas Lassetes, ou na Gonga, estação logo a seguir, passavam pela Boa Viagem, 70 e desembarcavam felizes com as suas trouxas na Quijiba, ou Torres. Depois a pé caminhavam vários quilómetros até a lavra do 40.

Mesmo sabendo apenas escrever o nome, conseguiu tratar juntos das autoridades portuguesas os documentos de porte e uso de arma de caça, com que passou a sustentar a família. Não tardou a ser chamado o “Homem da carne seca” em toda a região. Quem não o conhecia pessoalmente, dificilmente pode negar ter pelo menos comido da boa carne seca de Velho Kamupinda! Lá em casa, comercializava-se de tudo desde peixe seco, carne de veado, pacaças e javalis e tabaco produzido na região do Novo Redondo. Era sim empreendedor!



Depois do 25 de Abril, chegaram os movimentos de libertação e as desarmonias insufladas pela guerra fria que opunha os Blocos Ocidental e o do Leste. Vivia-se o período que o francês Raymond Aron chamou de “guerra improvável e a paz impossível”.

O negócio do bago vermelho e do algodão faliram, a caça foi proibida ou impedida pelo conflito militar. Que fazer? Foi aí que decidiu ser condutor de camião na Empresa de transportes Públicos, vulgo ETP. Mas como, se não sabia ler e nem escrever em condições?

Acredite! Matriculou-se na Escola de Condução e decorou o livro de Código de Estrada e de mecânica. A mim coube a tarefa de ler os textos enquanto ele os repetia. Na hora do Programa radiofónico “Angola Combatente”, eu ficava dividido. O que é o motor? Onde é proibido fazer ultrapassagens?...

No dia de exame, ele aprovou com distinção e semana seguinte estava ao volante do IFA.

Nós podemos tudo, basta querer, dizia fervoroso! Era preciso aprender a trabalhar com honestidade e humildade, porque a preguiça ou a indolência são inimigas do sucesso. O homem mais preguiçoso da aldeia, havia virado quimbanda ou feiticeiro, para conseguir sobreviver. Enquanto os demais aldeões acordavam cedo para ir à lavra semear ou proteger a sementeira contra as aves do campo, ele ficava a aguardar pela colheita. O primeiro milho tinha que lhe ser entregue para que fosse abençoada. Foi assim que alguns aldeões se tornaram refém de espertalhões.

Meu pai, meu herói, está sempre na moda, jamais o deixaria ficar à porta de um asilo!

Obrigado Papai!...

Quem muito dorme baba no travesseiro!


Língua da morte


Ontem, acabado de chegar a casa, depois das habituais arrelias provocadas pelo trânsito apertado, suspirei e retomei a leitura da véspera:

- Quem nunca quis ter uma casa de sonhos numa colina com o sol filtrado pelos limbos das plantas do quintal e lá no fundo um lago com patos a nadar? Pois é, no sonho todos podem, aliás diz-se que sonhar está previsto em Constituições de todas os Estados. Sim! Todos têm direito de sonhar! Talvez seja esta obsessão que impele uma minúscula semente a germinar rompendo a terra e erigindo o caule em direcção ao Sol.

“Nossa Vila”, “Nosso Lar” e “Bem morar” deixaram para atrás de si um grande remoinho de frustrações e descontentamento, pois foi um sonho que terminou em pesadelo para a grande maioria dos angolanos. Para quem mesmo perto dos 50 anos, ainda anda às voltas com o espinho da casa própria na garganta, sabe o que isso significa para um chefe de família, que tem sob sua responsabilidade o bem-estar e a auto estima da mulher e dos filhos. Por isso, a corrente de solidariedade para com os burlados no caso Grupo Build Angola. Sabe-se o quanto dói o dinheiro ganho com grande sacrifício e a expectativa frustrada de toda a família que ansiava mudar-se para uma nova casa com quarto para cada criança, cozinha espaçosa, quintal, suites, escritório, enfim uma casa com habitabilidade. Mas tudo isso acabou como um simples sonho enfronhado pela dor. Agora entendes?

Ingressou ao grupo dos sem casa própria, logo após atingir a maior idade. Abandonou o doce lar com a esperança de caminhar com os seus próprios pés. Ao desembarcar em Luanda, morou em casa de aluguer. Primeiro, no bairro Prenda, ali bem perto da Oitava Esquadra. Dia e noite deambulava com outros jovens da sua idade a busca de festas para comer, beber e dançar. Para ir ao trabalho descia à pé ao invés de esperar pelo autocarro. Descia pelo areal, apanhava a estrada da Samba, passava pelo Zamba 2 e seguia tranquilo até à Mutamba. Prenda ainda era Prenda e não tinha esse amontoado de chapas, lixo e blocos!

Aos 23 anos, já com a cônjuge mudou-se para a Ilha de Luanda, ali bem perto do Marítimo e da Loja do Povo onde fazia as compras no tempo do célebre Cartão de Abastecimento. A casa tinha apenas um cómodo para o casal e a filha, a primeira de uma lista que supera os dedos de uma mão! Num canto, estava o fogão da Sonangol, adquirido graças a requisição do patrão da esposa, e do aparelho de TV preto-e-branco atribuído a si por ter sido considerado Destacado na Emulação Socialista. Do outro lado, separado por cortina de pano de Congo, estava a cama e duas malas de chapa com roupas. Um fio unindo as duas paredes do ângulo recto, feito a hipotenusa de um triângulo, servia de cabide. É lá onde pendurava os trajes, na sua maioria roupa usada, e outra adquirida em lojas abastecidas pelos Sábados Vermelhos.

Durante a noite, o delírio de prazer alheio chegava através da abertura deixada pela meia parede que separava o cómodo da do vizinho. E sobressaltados, avisados por uma voz masculina do outro lado, sabiam-no: a neblina cairia dentro de pouco tempo.

Na hora do almoço, voltava para casa, ia e vinha com o autocarro nº 28 que ligava a Ilha do Cabo ao Porto de Luanda. O Panorama ainda era Hotel e sobressaia no Cartão Postal da Ilha da Kianda.

Certo dia, uma contrafé bateu-lhe a porta. A vizinha dos delírios da noite e que se exprimia com sotaque francês reivindicava a outra parte da casa. Os fiscais também percebiam francês e acabaram por se entenderem para a sua desgraça.

Na época, os despejos eram frequentes, pressionados por falta de habitação. Requerimentos com denúncias inundavam a Secretaria de Estado da Habitação. Ainda guarda zeloso a cópia de muitos deles pedindo mui respeitosamente que se dignassem a autorizar a ocupação de um imóvel para morar.

Nada! Com a mulher grávida, seis meses depois de se ter mudado para a Ilha, partia errante por Luanda à busca de um novo paradeiro. Poisou novamente no Bairro Prenda e depois foi para o Cassenda. Sempre em casa de aluguer!

No Cassenda, depois das eleições de 1992, o casal dono do apartamento entra em litígio e decidem vendê-lo. Apanhado de surpresa, demanda-se aflito para o bairro Benfica, levando sempre consigo o sonho da casa própria.

Hoje vive no Zango, conformado com a recusa de um banco em conceder-lhe crédito habitacional, pois apontam a idade como condicionante. Com 50 anos idade, teria de pagar o crédito em apenas 10 anos, o que significaria um esforço financeiro que o seu salário não suportaria. Saiu da agência desiludido. O limite de crédito habitação são os 60 anos de idade. A exigência, atrás da qual se escudam os bancários engravatados, é que aos 60 anos deve-se liquidar todas as dívidas com as instituições bancárias. E os anos restantes que se nos acrescentarem são considerados de compensação e neutralizações.

Pronto, já está-se no Zango! Desde que mudou-se por iniciativa própria para o Zango, nos últimos 4 anos converteu-se, de forma inusitada, num verdadeiro fiscal de obras. Conhece de tudo um pouco, inclusive a data de início e as respectivas empreiteiras a quem as mesmas foram adjudicadas. Ainda lembra-se da alegria pueril com que foi acolhida a boa nova. Troços, traços, pregos, buracos, empreiteiras, vala. As câmaras e as manchetes amplificaram o Projecto ainda em maquete. Viu as obras de alargamento da estrada de Viana e as dificuldades encontradas pelo engenheiro para vencer as águas que nasciam por debaixo do pavimento. Não entendia do assunto, era como um médico querer tratar de ensinar a redacção do lead ao um jornalista decano. Mas há polivalentes por aí que alegam possuir experiência para leccionar todas as disciplinas de um curso. Era leigo, mas já construiu uma casa de raiz, numa altura em que o tijolo dominava o mercado de construção civil. Fazia as misturas de cimento e areia sem obedecer a qualquer proporção. Mais cimento para ficar firme! Será que pode ser considerado engenheiro?

Voltemos aos carris. … Acompanhou animado as várias etapas da obra da estrada da Samba, Benfica-Cabolombo. Os seus olhos viram a poeira, que levantada pelos pneus, pairava sobre os limbos das árvores e do capim das bermas da estrada. As obras da Nova Centralidade, do Estádio 11 de Novembro e os vários projectos habitacionais que foram nascendo ao longo da via, feito cogumelos, atraídos pela perspectiva de se ter um pólo de desenvolvimento por perto. Morar na periferia tem-se essa vantagem de saber-se tudo que se passa fora e dentro da cidade.

Angustiado também viu os vários acidentes que passaram a ocorrer com maior frequência à medida que o pavimento era melhorado. Não entendia de engenharia mas tinha uma opinião, mas que raros escutavam. Dizia: Atenção às línguas da morte que existem espalhadas pela cidade. Os retornos vieram substituir as rotundas, tudo devido o aumento do trânsito rodoviário. Mas uma coisa o intriga: Sempre que se realizam campanhas de prevenção rodoviária, às culpas pelo alto grau de sinistralidade é imputada aos motoristas e peões. Alegando excesso de velocidade, imprudência, consumo de álcool etc.

Das línguas da morte nada se falava. Uma boa parte dos acidentes na estrada de Viana e Samba ocorre nos retornos. Aliás, na via da Samba por altura do Morro da Luz, depois de variadíssimos acidentes e vítimas, a empreiteira retornou ao local para reduzir a língua de betão. A noite, as ruas estão escuras e esta língua traiçoeira facilmente se confunde com o escuro. Ao menos que fossem devidamente sinalizadas com reflectores, caso contrário, ainda teremos mais vítimas nesta noite.

Cuidado com a língua da morte, seu beijo pode ser fatal!

Pensamento flutuante


Os pensamentos roubavam-lhe o sono. Acordava cedo e procurava ocupar-se com algo que lhe ajudasse a matar o tempo. E num dia igual aos outros e imbuído de sentimentos que eram a sua rotina, apanhou o autocarro com destino à baixa de Luanda. Eram 10 horas.

No bairro Morro Bento, subiu uma jovem que veio sentar-se ao seu lado. Que sorte! Chamava-se Miquilina Ngueve, natural do Bié, e vivia sozinha num dos bairros de Luanda. E trabalhas? Sim, sou PISCÓLOGA. Sorriu descontraída. Wandalika aceitou com relutância a profissão. PISCÓLOGA! Pelo traje bem poderia ser confundida com uma vendedora ambulante do mercado existente por de trás dos antigos Armazéns Gajajeiras, vulgo Arreiou-Arreiou. Lá o negócio é feito no meio de lama, facto que obriga os clientes a calçarem sacos para não sujarem os sapatos. Mas aceitou, era preciso fazer fluir o diálogo. Vive sozinha por quê? Tio, essa é uma grande história, não vais ter tempo para me escutar. A viagem está quase a terminar. Vais até aonde? Vou à Mutamba. Vou ter tempo, conta!

Wandalika insistiu até que ela decidiu desfazer o novelo da sua história: Eu sou natural do Bié. Lembra do tempo da guerra? … Pois, eu e o meu irmão Catraio viemos para Luanda para fugir a guerra. E os teus pais? Eles ficaram lá. Como? Eles só nos colocaram no avião. Não havia mais lugar, toda a cidade queria vir para Luanda. Eles ficaram e nós viemos! Quantos anos tinham na altura? Eu tinha 13 anos e o meu irmão, nove. Vocês já conheciam Luanda? Não! E como é que foi ao chegarem aqui? Viemos só. Chegamos no aeroporto, descemos e depois fomos andando... Ficamos uma semana naquelas barracas do aeroporto. Durante o dia, ajudava as senhoras a lavar a loiça e à noite ia passear ali perto no Cassequel do Lourenço, depois no Mártires do Kifangondo, no Cassenda e na baixa. E dormiam onde? Dormíamos em qualquer sítio. Ou na barraca ou nas sucatas ou ainda na rua.

Wandalika ficava cada vez mais intrigado. Mas você é formada, podia arranjar um emprego como psicóloga! Ela sorriu numa longa gargalhada. Desconfiado, Wandalika avançou com mais cautela. Aquele sorriso era uma máscara que escondia algo importante. Então você não é formada em Psicologia? Mais ou menos. Como assim? Eu trabalho com pessoas! Pessoas? Sim, pessoas que precisam de ajuda. Ajuda PISCOLÓGICA! Ah, tá! E tens muitos clientes? Muitos doutores, grandes chefes, bosses de verdade, funcionários, kabolas e tudo. Basta ter dinheiro! E quanto ganhas por dia? Depende! Depende do dia! Aos fins-de-semana ganha-se mais, mas uma pessoa fica partida. Mas em que clínica trabalha? Por conta própria! Então você é empreendedora? Mais ou menos. E quais são os teus planos para o futuro? Quero arranjar dinheiro para viajar. P’ra onde? Para ir ver os meus pais. E o teu irmão? Ela baixou a cabeça e entre soluços disse: ele morreu. Lhe mataram num senhor. Por quê?! Ele lavava carro no aeroporto. um boss lhe mandou lavar o carro dele. Eu até lhe vi, quando lhe deram o trabalho. Era já mesmo cliente dele. Todos dia ele lavava e recebia dinheiro à tarde. Certo dia, quando o boss veio encontrou os espelhos não estavam, roubaram. Falou que meu irmão é que roubou. Aí começou a lhe bater, lhe bater, lhe bater. Ele começou a dizer que não era ele, mas o boss continuou a lhe bater. Só lhe deixou quando ele começou a vomitar sangue. Dois dias depois morreu. Não levaram ao Hospital? Fomos até na Maria Pia, lhe deram uma pica e lhe mandaram voltar. Dia seguinte, morreu. A polícia levou o corpo na molga. Como não tinha nenhum documento, assim lhe enterraram na vala! Eu também não tinha condições para lhe enterrar! É muito triste! Sim, agora estou sozinha. Por isso quero ir me m’bora no Kuito. Mas o dinheiro não chega. E não aconteceu nada ao boss? Nada, anda aí! Não está preso? Quem vai lhe prender? Pobre não prende rico! O tio não está ver mesmo a situação?

Os seus olhares se cruzaram. E essa cicatriz na testa? Um tio é que me bateu. Depois de eu lhe atender não queria mi pagar. Eu lhe segui até no carro. E te deu o dinheiro? Não, mas também lhe deixei estrago! Que estrago? Quando ele tentou fugir, eu queria abrir a porta. Ele começou a ofender a minha mãe, eu entrei na janela e lhe segurei no pescoço e começamos a lutar. Na atrapalhação o carro acelerou e foi bater numa pedra. Aonde é que foi isso? Na Ilha…O carro partiu o vidro e começou a sair água quente. Que tipo de carro era? Era preto, desse tipo dos boss. E ele? Heheheheh! Deixou o carro na estrada, só tirou a pasta dele e a chapa de matrícula, depois se meteu na floresta da Ilha. Bem feito! Ele pensa que nós não sofremos! Nosso serviço é chofrimento! Depois há com cada cliente!... E ainda temos de pagar a casa de processo! Com essa doença que anda aí, tamos mal!... E descarregou todo desgosto que carregava num suspiro. É a vida!...

Já perto da Assembleia Nacional, Miquilina perguntou, enquanto se preparava para levantar-se. Gostei muito do tio, tens um sotaque tipo brasileiro. E o tio faz mesmo o quê? Sou desempregado. Hum, mata cassumuna? Afinal era só lata! Com essa roupa, eu já pensei m’bora …! Mas kunanga, não acredito ou és da investigação ou da Igreja Universal?!... Kunanga de primeira!

No Cine 1º de Maio, desceu e num salto desapareceu na multidão de passageiros que desembarcava. Wandalika também desceu do autocarro e, ao caminhar em direcção à Mutamba, lembrou-se do cheiro exalado pelo corpo de Miquilina. Era do perfume barato comprado no mercado Roque Santeiro, adicionado ao cheiro de noites partilhadas na busca de prazeres carnais. Suspirou pensativo. É a vida!

As tentativas de rever a Miquilina foram infrutíferas. Então desacelerou o passo e indolente prosseguiu a marcha sem pressa como se não quisesse chegar ao destino. Estava desempregado e até já chegou a pensar no suicídio, mas o drama de Miquilina impressionava-o. Afinal há gente que está pior do que eu! Quis ir saber do seu curriculum, mas desistiu. Se estivessem interessados o chamariam! Aliás, no dia do contacto a funcionária já o havia alertado. Há poucas hipóteses, pois o Gabinete de Comunicação está em reestruturação. São sempre assim!

Passou atrás do Cine Teatro Nacional e ao tentar atravessar a Rua de Portugal quase foi atropelado por um táxi. Correu, mas ainda foi a tempo de ouvir os palavrões do condutor. Não ligou. Querem me matar aqui! Nem pensar! Malandros!

Incrivelmente mais animado, acelerou o passo e entrou num bar para urinar. Naquela hora, trabalhadores e vagabundos confundiam-se no cenário. Pediu um cigarro e um fino, enquanto bebia reflectia sobre a sua vida. Pediu mais outro e os restantes ficaram por conta de um amigo de ocasião. Ao sabor do diálogo e da cerveja, não viu o tempo passar.

Às 15 horas, agradeceu a gentileza do amigo e encaminhou-se até a Marginal de Luanda. No calçadão, não acreditou nos seus olhos. Como a Marginal está bonita! E ao sabor da tarde, deixou os seus pensamentos a flutuar nas águas da Baía.


Vidas sem fronhas


No cimo do seu orgulho muangolê, sorri: Kupapata, Kuduro, Kaenche, Quinguila, Quilápi…! E admira a força e a facilidade com que o popular consegue introduzir novos termos linguísticos, ou seja neologismos, no vernáculo oficial. Queda-se na empatia de heróis do guetto, como “Nagrelha”, “Dadão” e outros, que transformaram rapidamente o país num gigante e afinado grupo coral:  Moré, moré Moré, moré … Corré, corré, corré, cooooorré!

Espirra e olha de soslaio as pedras e blocos colocados sobre as chapas para segurarem o tecto das tempestades. Todo candidato a Governador de Luanda devia sobrevoar a cidade durante várias horas, antes de aceitar a proposta!

Suspira. Liga o reprodutor e a música suave do octogenário Nga Petelo afaga a alma e dá um outro colorido à sua manhã. O músico, aos 80 anos, prepara a apresentação do seu primeiro disco. É como se a vida começasse aos 80. Bem-haja, antes tarde!

Emerge relutante do sublime! Naquele instante, trava bruscamente para superar um buraco no pavimento e esboça um sorriso ao avistar um outro carro com vidros todos fumados. Essa aí vai passar despercebida. Investe num “noivo mecânico”, ou para passar invisível, como uma ilustre desconhecida.

Afastou esses pensamentos e prosseguiu calmo e indiferente às traquinices dos taxistas, à arrogância dos automobilistas e ao desmazelo dos ambulantes, que fechavam a via com os seus embrulhos.

Desceu paciente até à baixa luandense. Era importante manter a serenidade, pois sabia o que o esperava no guiché da empresa que era obrigado a contactar naquele dia. Era cliente antigo e perdera o número de vezes que fora atendido sempre por aquelas duas funcionárias. Ela eram as donas do espaço. Conheceu-as ainda jovens e esbeltas! Ah, como o tempo foi daninho para aquelas duas criaturas!

Sabia as suas vidas de cor e salteado. Quanta inconfidência! Se ela viajou para o Dubai com o marido, as compras que fez, o hotel onde se hospedou. Toda a empresa e a restante clientela sabiam o que trazia na bagagem para revender à quilápi a todos que desejassem. Os pedidos de noivados e os casamentos em que participara, o cabelo da noiva, a roupa do noivo, o buffet e as censuras sobre a cor do batom, do vestido ou dos sapatos femininas das convivais. Toda a vida andava às claras no guiché, esventrada pela má-língua, sem quaisquer fronhas. 

Aquelas duas há muito eram colegas numa empresa pública na baixa de Luanda. As amicíssimas eram parecidas pelo volume dos pneus na região do abdómen, pela cor da peruca e na lentidão como se locomoviam durante o atendimento. Nunca tinham pressa e eram imunes às reclamações: Aqui não é casa da mãe Joana! O senhor não manda aqui! Se quiser vai passear! Incrível, uma delas chamava-se exactamente Joana!

Não adiantava reclamar, talvez elas tivessem os seus corpos envoltos em colectes protectores contra qualquer perfurante! Nunca se sabe, quem fala assim não é gago! Por isso, a prudência recomendava sobretudo ponderação! Seguro morreu de velho ou de medo?

Quem nunca ouviu falar delas, que também eram conhecidas pela rabugice no atendimento e por isso acumulavam sacos de censuras do público por ficarem a conversar, enquanto deviam trabalhar? Este e outros comportamentos semelhantes que levaram muitas empresas a caíram na falência e, na curva, algumas entregues de quiabo para a outra gestão.

A chegada dos telemóveis agravou ainda mais o sofrimento de quem procura os serviços daquela instituição. Ontem a conversa versava sobre o cônjuge da Joana. Comentavam: Mas um homem que é homem de verdade nem casa própria tem? Uh, a fulana, ela sim, é que se casou de verdade. Tem casa própria e carro novo na garagem. Agora nós, é só esfrega!

Há tanto tempo que estamos a construir a casa mas as obras não acabam. Parece obra de igreja! Quando começamos, eu estava grávida da minha primeira filha! É? Quantos anos tem o seu marido? … JÁ DEU CACHO. Nesta idade ainda vive na casa de renda! É VERGONHOSO! Estou cansada de mudar de bairro todos os anos. A família até pensa que estás a fugir das dívidas. Olha, melhor assim, também há família do marido que é um verdadeiro horror. Só falta uma declaração de guerra. É verdade! Hoje estás aqui, amanhã estás não sei lá aonde! De tanto mudar de casa ainda acabas por chorar óbito sozinha. Pelo menos, não te vão expulsar da casa! Cambadas de ambiciosos, quando trabalhamos eramos só os dois na vida até que a morte nos separasse, mas depois aparecem outros figurões! É verdade, pelo menos nunca vão saber para onde te mudastes. Se não fosse os telemóveis estávamos perdidos no meio urbano! Somos embora ciganos!

Mas o problema é que a mobília não dura por causa das mudanças frequentes. O meu sofá que comprei na última viagem, você nem acredita como ele ficou depois do Coqueiros. Está todo rasgado. Também, do jeito que seguram as coisas, aquilo até parece que estão com inveja. Esses raboteiros sabem o que é boa mobília?

E a outra sorriu. Roboteiro. Raboteiro? Vem de quê, de rabo?... Nem sei. Talvez de robô. Ya, meu marido também disse que vinha da palavra russa rabota, que quer dizer. Trabalha! Imagino os russos a gritarem para o angolanos: Rabota! Rabota! Rabota! Sorriram longamente e fecharam com o gesto de bater as mãos  abertas uma na outra. Hum, até já virei gira-bairro, disse a outra, enquanto colocava os óculos para atender um cliente que lhe havia aproximado a ficha até bem perto do rosto.

Não precisa esfregar-me o tal papel na cara. Eu não sou cega!... O homem ficou calmo, olhou-lhe nos olhos e estendeu-lhe a mão fechada com o punho virado para baixo. E a tempestade evaporou-se numa onde de espumas. Sabia o remédio certo. Ele continuou calmo. Não queria estragar a promessa de não se irritar naquele dia. Aguentou como pôde e finalmente suspirou de alívio quando se viu livre daquelas duas. Mas o seu diálogo sobre a casa de aluguel o perseguiu.

Interessante! Numa cidade em que tem-se dificuldade de se indicar o endereço, porque anualmente mudamos de casa, num verdadeiro nomadismo urbano. Interessante, conhece-se novos lugares, novos vizinhos com seus bons-raros hábitos e maus-copiosos-vícios. Arrastam o saco de lixo escada a baixo, estaciona enviusado fechando as outras viaturas, e quando chamado, manda passeia a buala toda, buzina à meia-noite para abrirem a porta do apartamento no 9º andar. Pára para conversar com o outro automobilista seu amigo e esquece os restantes, rabujando ao ser incomodado. Depois dizem que gente que nasceu na esteira no quimbo é que se comporta assim.

Há mais 30 anos, ou melhor desde os 18 anos que se está na procura angustiada de uma casa condigna para se morar. O fim de cada ano, renova-se a esperança no ano seguinte. E o caso habitação perpetuou-se na agenda das prioridades. Angustia-se, sobretudo para quem aos 50 anos, depois de tantos programas quinquenais, ainda tenha a casa do sonho pendurada no plano.

Casa de aluguel é um fenómeno urbano, porque nas aldeias, quem quer habitação construía com os materiais locais. Tudo que se necessitava estava aí à mão de semear: terra, paus, pedras e capim.

 A conjuntura, marcada pelo êxodo das populações das províncias para Luanda, fruto do conflito, propiciou o aumento vertiginoso da procura por habitações. Assim a década 80 e 90 do século passado foram os mais marcantes no que diz respeito aos despejos administrativos, por falta de documento que legalizavam a posse de determinada habitação.

Inexistem dados estatísticos para fiabilizar essa afirmação, mas há realidades que se constatam sem a frieza dos números. Para quem viveu aquela época na cidade de Luanda, mesmo sem óculos, chegaria à presente conclusão.  A desonestidade ganhou novos e fortes adeptos! 

Certo dia com a ajuda de um amigo obteve informações fidedignas de que o apartamento estava sem qualquer proprietário. Pois o inquilino, vendo-se incapaz de liquidar o aluguel atrasado de vários anos de inadimplência, numa noite saiu sorrateiramente depois de construir a sua casa no bairro da Petrangol. 

O caminho estava aberto. Dia seguinte, fez deslocar uma patrulha. Elaborou-se o requerimento dirigido ao Comissário Provincial de Luanda. Naquela altura, bastava vigiar um apartamento durante uma ou duas semanas, caso não se notasse qualquer presença humana, para que se pudesse despoletar o competente processo de denúncia e consequentemente de despejo.

É assim que a bananeira deu cacho, imbondeiro sumo e gelado, mas ele ficou a espera. E como cigano continua a cantar:

 Hoje tô aqui/amanhã ali/Benfica, Cacuaco/ não tenho endereço/não Zango não/se quiser espera/na porta do Camama! Viva sem fronhas/Nem amortecedores

Viva os ciganos urbanos!

FIM DO MITO


Era sempre assim. Seguíamos tranquilos a rotina das nossas vidas humildes, como o rio Mazungue faz o seu percurso, descendo silencioso o mesmo leito de antigamente.

Lá em casa, a mesa farta se enchia de algazarra nas horas das refeições, mas quando a estiagem minguava a colheita, o prato de funge e de feijão tornavam-se comuns para toda a miudagem. Era a melhor forma para distribuir o pouco que se tinha na dispensa. Os adultos vigiavam cada colherada, sendo a desonestidade no encher a colher ou no comer apressado entulhando a boca de alimentos, punidas com censura ou com a suspensão temporária de voltar ao prato até que os demais recuperassem o atraso. Quem fosse último, lavaria os pratos, porém, apesar da fome, poucos aceitavam essa empreitada, saltando antes de ser declarado comilão.

Dezembro de 1973. Ainda fervilhava a saudade do paladar dos pratos feitos com folhas de mandioqueira, de abóbora e rama de batata. Na fome, as folhas de gindungo e mamoeiro viravam também alimento.

Foi na busca da sobrevivência, que meu pai acordou cedinho, aprontou a sua moto vermelha de marca Floret e partiu. Passou na Boa-Entrada, desceu o morro da Giraul e passou pelas salinas com destino às Cachoeiras da Binga, ali perto do Novo Redondo (actual Sumbe). Na bagagem amarrada no suporte com fitas de borracha, levava sal para a carne de prováveis presas. Ao chegar, com a sua arma de bala 375 embrenhou-se na profundidade da mata dominada por gordos embondeiros e cactos altos.

Semanas depois, vimos uma carrinha a aproximar-se da nossa casa. Na carroçaria, estava sob a lona, a perna e o braço de uma pacaça. Perfilados, esperamos sobressaltados. O condutor era-nos estranho. Mal o carro parou, abriu-se com vigor a porta do pendura. Era o meu pai!

Contrariamente ao que era normal, todos ficaram assustados, pois ele trazia a cabeça envolta em ligaduras ensanguentadas. Tremi. Minha mãe, correu com os braços abertos na sua direcção. Abraçou-o e preocupadíssima quis saber logo o que havia ocorrido ao seu amor. Sorrateiro, olhou-nos com carinho e a mornes do sorriso que trazia no rosto, amainou a tortura da espera.

Com certeza, pensou-se logo em acidente de motorizada, mas não. Na ausência dos telemóveis de hoje, a notícia tardava a chegar ao destinatário. E se ele jamais tivesse voltado a casa?

Diante da impaciência da curiosidade, depois de beber a água de jatona (lata de um litro transformada em copo), contou animado as suas peripécias.

Numa tarde, depois de ter perseguido uma manada por mais de dez quilómetros, num vale, avistou uma pacaça solitária a pastar. Mastigava calmamente. Parou e olhou à volta desconfiada. A brisa farfalhava a vegetação. O caçador, com respiração suspensa, rastejou sobre o capim verde. Acomodou a coronha no ombro direito e fez a pontaria. Premiu o gatilho calmamente e a agulha percutora veloz atingiu o cartucho. A explosão cortou o silêncio da floresta, despertando bichos adormecidos ou interrompendo as carícias que a embriaguez do entardecer propiciava.

O animal surpreendido pelo disparo, correu desnorteado. Rapidamente, o caçador se levantou e aproximou-se de um embondeiro. Afastou a folhagem com o cano e pé-ante-pé, aproximou-se do local, onde antes se encontrara o animal a tomar a sua última refeição. No rasto, apenas as marcas dos cascos, na hora do arranque precipitado em prol da vida.

Cinco metros depois do local, confirmou a sua pontaria sempre infalível. A pacaça havia sido atingida, mas teve ainda força para fugir.

Com atenção redobrada e a arma desengatilhada, continuou minuciosamente a perseguição. Depois de 20 metros, o rasto inverteu para a esquerda descrevendo a letra U. Com o coração aos pulos, parou e olhou desconfiado para os lados, foi exactamente naquele instante que a pacaça ferida partiu para a desforra, atirando os seus mais de 500 quilogramas contra o caçador.

Este instintivamente saltou feito uma mola antes comprimida e agarrou-se ao ramo de um arbusto. O chifre do animal atingiu as suas nádegas, na sequência o corpo foi projectado para cima e a cabeça atingiu os espinhos do ramo do pau-ferro.

Há cinco metros, a pacaça, ofegante, preparava um novo assalto, quando o caçador, depois de apanhar a arma fez um novo disparo, atingindo a testa do animal.

Meu pai era um grande herói. Era a imagem de um homem forte, corajoso e valente diante do qual nada era impossível. Mesmo ferido gravemente na cabeça, ainda sorria.

Cresci com essa imagem masculina depositada no subconsciente até que em 1976, ao entardecer, ele recebeu a notícia sobre algo que havia ocorrido com a sua mãe, Lemba Zongo. Papá, está chorar por quê?

A avó havia morrido de repente na localidade da Gangula, quando regressa da lavra. Meu pai e minha mãe choraram juntos. Ela enxugava as lágrimas com o pano. Mamã, é quê? Não respondeu, mas perguntou-me entre lágrimas: tens fome?... Eu disse que não, mas mesmo assim ela fez o funge, serviu para mim e continuou a chorar.

Então, desamparado, também comecei a gritar acelerando as minhas lágrimas. Assim, ficou abandonado pela primeira vez o almoço. A refeição é agradável, quando tomada em boa companhia.

Eu na minha inocência apenas chorava, mas não entendia, o motivo pelo qual estava aquele homem, que era meu ídolo, com os olhos cheios de lágrimas.

Então se desfez o mito segundo o qual os homens nunca choravam. No berço, se inaugurava um ciclo de lágrimas que apenas terminava com o apagar da luz da vida. Ao nascer, com o primeiro suspiro, uma criança normal chora, caso contrário os adultos solícitos com palmadinhas nas nádegas obrigar-lhe-iam a fazê-lo. E se mesmo assim o recém-nascido se mantivesse em silêncio, um mundo de preocupações invadiriam os pais e os demais adultos.

Para a criança com a sua angélica fragilidade, o choro é importante, pois passa a funcionar como um sinal de alarme estridente que alerta os pais de alguma anormalidade. O grito desesperado da fome pelo leite ou mesmo a reclamação pela humidade das fraldas descartáveis, cuja promessa da impermeabilidade para as 24 horas consecutivas são apenas publicidade. Essa que desde a ágora vende ilusões.

Aos 12 anos, termina a infância e é desse período de que tenho mais saudade, talvez porque tinha mais tempo para brincar e sonhar. Quando se é criança até as lágrimas possuem sabor que a língua interceptava no seu trajecto descendente.

Eis a lição das crianças que fica para os adultos: bebé que não chora não mama. Mas se não houver leite e não tiver dentes, o melhor é comer matete, para enganar fome.

Os adultos também choram, por mais variados motivos. Eu, no dia 31 de Agosto de 2012, quero chorar. Quero chorar de amor por Angola. Quero chorar de alegria, pois com o meu voto quero contribuir decisiva e definitivamente para a paz, para o aprofundamento da reconciliação nacional e para a construção de uma sociedade desenvolvida assente na solidariedade social e na justiça. Com a urna nunca se brinca!


Curiosidades do meu caçula


Naquele tempo, por essa altura, um grupo de contratados caminhava curvado sob o peso do saco de café cereja. Alguns cantavam entre murmúrios uma canção na língua do planalto, para disfarçar o esforço, enquanto outros transportavam numa das mãos a catana ou um aparelho de rádio de marca Philips. Nos altifalantes destes aparelhos feitos de madeira ou plástico, aos borbotões, saia música da Rádio Lobito com seu Joaquim Viola. O sol, na hora da saudade, espreitava entre folhas e galhos de gigantes mulembeiras. Seria um cenário lindíssimo, paradisíaco, se não contasse com personagens nativas muito tristes, sofridas.
Uma vez ao voltar da escola, com os livros e a bata no saco de plástico, encontrei um colono baixo, gordo e barrigudo cercado por vários contratados esfarrapados e com olhares terrosos. O ngueta gritava e gesticulava sem parar: Cambadas de calcinhas e vadios!
Negueta? Não, Ngueta, o branco! Creio, que o patrão estava muito chateado com algo que tinha corrido mal. Por isso vociferava contra aquela gente humilde que refugiava o olhar pesaroso para o solo coberto de poeira vermelha. Passei medroso, mas ainda vi o patrão a esbofetear um dos contratados antes de subir na carrinha de marca Peugeot de cor cinzenta. E partiu deixando poeira sobre o pobre coitado estendido na berma da estrada. Se desfez em lamúrias a roda de companheiros que antes o cerca. Alguém apanhou e mastigou folhas de goiabeira e colocou a pasta sobre a ferida aberta por uma pedra. E toda a aldeia lamentou a violência do patrão, mas ao anoitecer fechou a porta de medo para evitar que o sono fosse cortado por qualquer imprevisto.
Aos ouvidos da aldeia chegavam boatas segundo os quais os colonos cortavam as cabeças dos negros para depois as utilizarem nas máquinas de descasque de café. E muita gente acreditava ao ponto de decifrar vozes humanas entre os ruídos do motor.
Mas por que razão tanta gente não dava uma queda naquele patrão? Se fosse nós agora!...Tens razão, meu filho! Com certeza, eram muitos contratados, eram muitos braços e pernas, mas tinham nas várias cabeças o medo da reacção da administração portuguesa. O colono estava sozinho aí naquele lugar, mas tinha atrás de si toda uma máquina de repressão treinada para combater qualquer desobediência. Muitos tentaram no auge do desespero, jogar-se contra o patrão, mas também muitos morreram na sequência. Por isso, eis no doce pôr-do-sol, aquela tela de humilhação e subserviência. Daí a razão do 4 de Janeiro, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março de 1961.
Li outro dia um poema que falava dos contratados, eles sofriam muitos. Basta ler Sagrada Esperança, ou os poemas de António Jacinto como “Monangambé” ou ainda  de outros escritores como Jofre Rocha no livro “Assim se fez Madrugada”, para nos apercebemos do sofrimento pelo qual passaram os nossos antepassados. Aliás, até bem recentemente havia um filme que retractava a realidade dos negros com muito realismo. Mandingo! Era um filme sobre a exploração da mão-de-obra escrava nas américas. Passou na televisão nos anos oitenta e, nos cinemas, ficou muito tempo em cartaz. Também ali no Tivoli, quando ainda os filmes eram a grande atracção para os casais de namorados nas tardes de domingo. Muita gente não conseguia acabar de ver o filme, pois ficava revoltada ao rever o sofrimento de um ser humano só pelo facto de ter uma cor de pele diferente. Os espectadores se identificavam com o personagem negra, no caso o Mandingo, que depois de espancado violentamente era assassinado. Era uma cena horripilante. Não eram só os filmes, também muitas telenovelas mostravam exactamente o quanto os negros sofreram e sofrem ainda hoje no mundo por causa da discriminação racial.
Um homem só por ser branco dava-se o direito de assassinar uma outra negra. O homem é mesmo lobo do próprio homem. O homem é o único ser que mata o seu semelhante. O leão não come leão igual. Veado não come veado. Mas homem come homem! É verdade, mata e come! Agora já podes perceber quanto risco corre a vida. Não é pura ficção, é realidade ficcionada. "Lupus est homo homini non homo", como escreveu Plauto. Foi essa dura realidade que fez nascer Zumbi dos Palmares, Mandume, Luther King, Agostinho Neto, Mandela, Paiva Domingos da Silva e tantos outros.
É a vida. Mas saiba que vidas fragilizadas pela pobreza se tornam muito mais vulneráveis? Mas falas sempre da pobreza. O que é ser pobre? Depende da perspectiva, mas no essencial a pobreza significa incapacidade de alguém obter o fundamental para si e sua família puder viver feliz. Alguém que passe fome por não ter alimento, que não tenha emprego que lhe proporcione uma renda que o sustente, que esteja desprovido de uma casa condigna para morar, que tenha falta de assistência médica, falta de acesso à educação de qualidade. Alguém que não consuma água potável e energia eléctrica é mais do que pobre, é miserável! Por isso o Governo criou um Programa de luta contra a pobreza.
A tua aldeia é sempre referida com tanta saudade como se fosse o melhor lugar do mundo. O avô era rico, tinha dinheiro e boa casa? O meu pai e a minha mãe trabalhavam a terra de onde retiravam o sustento para toda a família. Cultivavam milho e feijão que constituíam a base da alimentação da família. Também cultivavam café, palmeira de dendê e algodão para aumentar as receitas que serviam para comprar roupa, pagar propinas na escola, medicamentos e outros bens essências. A nossa casa era enorme e feita de adobes e coberta de chapa de zingo. Tinha uma sala grande com uma mesa cercada por muitas cadeiras, pois nós eramos muitos irmãos. Ainda viviam connosco alguns sobrinhos. Aquilo era um quartel com várias casernas. Os rapazes tinham o seu quarto e as meninas também. E um armazém onde se guardava tudo. Desde milho, mandioca, ferramentas, balanças, café e tudo o necessário. Esta era a área de logística da nossa casa. A casa continua lá abandonada no meio do capim. A cozinha era separada da casa principal. O edifício da cozinha tinha três divisões. Um era para arrecadação de material de apoio, como pilão, catanas, canguichi, ou seja pau que é utilizado para socar ou pisar o milho e a kizaka, e outros materiais afins. Num outro lado, era o quarto da avó Lemba. Nossa casa não tinha luz nem água. A luz era de candeeiro a petróleo e a água nós íamos buscar na nascente com sangas e canecos (recipientes feitos de chapa pelo serralheiros da época). Era água pura. Não tínhamos casa de banho. As necessidades eram feitas no capim. Que isso, papá? Cavávamos com a enxada e depois tapávamos. Ah, pensei! Depois fez-se uma latrina.
Falas tanto dela. Quem era a avó Lemba? Avó Lemba era a mãe do meu pai. Sabes que o meu pai era o primeiro filho da Avó Lemba. Avó Lemba era de meia altura e tinha a pele muito clara. Se fosse hoje com essa febre das cores… Mas não, era negra como nós e trabalhava no campo. Ao cair da tarde, regressava com a sua enxada amarrada às costas e fumava o seu cachimbo. Ainda vejo-a a contar histórias do seu tempo. Contava que certo dia os colonos vieram com aviação para matar todos os negros por serem bandidos. Toda a aldeia ficou apavorada. Ela não falava em datas. Eu perguntava, mas ela apenas contava o medo que sentia ao ver as armas dos brancos. 
Não consigo imaginar a vossa vida, sem água, sem luz e sem canal Panda. O pai diz que por essa altura terminava o ano lectivo. Nas férias as crianças faziam o quê? Muita coisa, meu filho! Pai, não tem fotografia de quando eras criança? Não consigo te imaginar criança! Nem eu! Havia umas fotos a preto e branco, onde nem eu mesmo me reconhecia de tão magro feio que era.
Eu cresci desconhecendo a existência real da televisão. Num dos livros de leitura vinha uma ilustração que diziam ser de um televisor. Era um aparelho enorme suportado por quatro pernas. Rádio só chegou lá em casa na véspera da independência. Não sentíamos necessidade. Tínhamos outras preocupações. Se frequentássemos à escola no período da manhã, à tarde, ao chegar a casa, depois do almoço, tínhamos que pegar a catana ou a enxada para ajudar os nossos pais na lavoura. À noite, fazíamos os trabalhos escolares e depois ficávamos à volta da fogueira a ouvir estórias dos adultos. Dormir depois do almoço, nem pensar! Tínhamos tempo para brincar, construir brinquedos, jogar futebol, tomar banho no rio e sonhar.
Sonhar? Sim! Sonhar de olhos abertos com um mundo onde as crianças corriam atrás de borboletas de várias cores em jardins com muitas flores.
Queria aprender a fazer carros de lata! Há muita lata jogada na cidade. Boa ideia!...  A luz veio! Papá, quero ver Panda!