sábado, 23 de agosto de 2008

Quem aceita Jesus?

Nossa Senhora Aparecida, no Estado de Minas Gerais, Brasil, era um bairro de gente simples com muitos brancos, negros e mestiços. Funcionários, operários de construção civil, vendedores e empregados. Algumas ruas eram asfaltadas e outras calçadas de pedra. A casa onde morávamos ficava no término dos autocarros daquela linha. A cerca de 20 metros havia duas cantinas e um orelhão (telefone público). O bairro Nossa Senhora Aparecida fazia fronteira com o bairro Santa Rita, Santa Cândida e Nossa Senhora de Lourdes. Era muita Santa à nossa volta.No anexo com o Sangueve, também vivia um capitão da Força Aérea Angolana chamado António. Um luandense do Bairro Rangel. Mais tarde viemos a saber que era apenas tenente. Estamos zerados, dizia o Sangueve. Estamos é zebrados! Sorríamos. Sorríamos... Na primeira semana, peguei, a título de empréstimo, em 100 dólares e dei-os a cada um deles. A alegria havia retornado. Dois dias depois, voltaram a pedir mais 100 dólares. Acedi. Semana seguinte pediram mais 100 dólares. Recusei. Dei-lhes apenas 50. Entretanto, os gastos eram compreensíveis, pois os meus companheiros tentavam atenuar a dívida do aluguer, melhorar a dieta alimentar, comprar roupa e diminuir o cansaço andando de autocarro.Do frango havíamos passado para carne, sobretudo de fígado de vaca. Voltamos a gargalhar ao lembrar os esqueletos de frango.Mas no mealheiro o nível de segurança baixava. Em menos de um mês estava apenas com 300 dólares. O ponteiro estava no vermelho. Para quem não sabia quando receber reforço de verba, a situação era realmente aflitiva.Como o quadro degradava-se a cada dia, decidi manter um encontro com os companheiros de caserna para a revisão da situação. Camaradas! Nós somos militares e temos que buscar soluções. Mas que soluções? Somos comandos desembarcados na profundidade do inimigo. A nossa missão é de alto risco.Não temos como receber apoio da retaguarda, devemos contar com os nossos próprios meios e capacidade de sobrevivência. Temos de aprender a pescar!O Sangueve acendeu um cigarro com indisfarçável insatisfação pelo diálogo que para si até aí era incompreensível. Esperei alguns segundos até a conclusão da primeira baforada e prossegui com maior acutilância. Como vos disse, a guerra em Angola não deixa espaço para vislumbrarmos um futuro de paz dentro de pouco tempo. As tropas do Governo desdobram-se no terreno para rechaçar o inimigo, mas a situação vai durar algum tempo.Sabem que o inimigo está bem municiado. Caxito, Catete... são zonas de guerra! Não temos como receber o dinheiro da bolsa dentro de pouco tempo. Temos de resistir. Todo esforço vai ser canalizado para a guerra. Esta é a verdade.A impaciência dos interlocutores empurrou-me precipitadamente para a parte principal do plano. Vamos procurar uma igreja. O falso capitão, sorriu numa alta gargalhada, levantou-se, abriu a porta e saiu, fechando-a atrás de si com alguma violência. A porta fechou-se e no caminho que nos unia apareceram pedras que cresceram e chegaram a pedregulhos. Para ele, eu era um doido, um exibicionista! Quem olha em várias direcções não avança! Concentrei o fogo no Sangueve. Queria convencê-lo. Fica calmo, nós vamos conseguir manobrar. Os chineses dizem que a arte da guerra é a arte da manobra. Vamos à igreja! Meu companheiro Sangueve manifestava-se relutante, argumentando que era católico desde os tempos de criança no município do Bailundo e não protestante. E eu contra-atacava. Quando a vida está em perigo, as soluções devem ter em conta primeiro a sobrevivência. Lá vais seguir todos os movimentos de levantar, fechar os olhos, assentar e ajoelhar. Fica calmo! Mas porquê que você não quer ir na Católica? ... Até fui baptizado pela Católica, mas ainda era criancinha, apenas tinha 2 anos. Então, vamos lá! Nem pensar! A última vez que pus os meus pés numa igreja Católica foi em 1993. Nem imaginas! O quê? Fomos corridos pelo padre! ... Hum, fizeram quê! Sabes que depois de 1975, após a proclamação da independência quase todos os jovens aderiram ao ateísmo científico. Aliás, era condição para ser-se militante do MPLA, mais tarde transformado em Partido do Trabalho. Todos queriam ser comunistas! Então, em 1991, familiares de um militar falecido queriam que se realizasse uma missa em sua memória na Igreja Sagrada Família. A plateia era composta maioritariamente por militares garbosamente fardados exibindo braços musculosos. Eram dos debraços!... Quando começou a missa foi uma desgraça. O diabo desceu? Não, nenhum deles sabia rezar o Pai Nosso e nem Ave-Maria . Nem ninguém sabia cantar as canções. O Padre sentiu-se solitário perante o cadáver. E enfurecido começou a amaldiçoar os presentes: O que é que vieram fazer aqui? São vocês que quando vivos não se preocupam em ir à igreja e fazem-no apenas na hora da morte. Vocês são oportunistas. Igreja não é loja onde se compra a fé. De nada adianta pedir a Deus que receba a alma de alguém que em vida foi carrasco do Senhor. Sem terminar a missa, pegamos no caixão e saímos apressados.O padre tinha razão. As pessoas só procuram a igreja quando têm problemas. Quando estão encravados. Eu não vou mudar de igreja agora. Epá Sangueve, então vai me fazer companhia para eu não ir sozinho. Vou pensar no teu caso...Apesar da dificuldade, consegui convencê-lo. Contribuíram para o facto, acredito, vários factores, entre quais o ser-se da mesma arma: a Marinha. Subimos paralelo ao rio Paraibuna em direcção ao Bairro Benfica, passando pelo Jóquei Clube, Parque de Exposições e admirámos os canhões expostos no Batalhão de Artilharia de Campanha.Conversávamos tranquilamente ora em português ora em Umbundo. Nessa última língua era apenas em ocasiões, quando era preciso rematar ou colocar ênfase no discurso. Chegamos ao destino por volta das 17 horas. Parámos perto do jardim do Benfica e encaminhámo-nos em direcção à Igreja Baptista. Mas o culto começaria apenas às 19 horas.Fizemos um raid de reconhecimento e buscámos um esconderijo por perto. Numa distância capaz de controlar todos os movimentos de entrada e saída do templo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Viva a paz! Viva a Democracia!

Em Setembro de 1992, era a primeira vez que iria votar. Tinha 29 anos! A ansiedade tomava conta das horas vespertinas. O sono foi coberto por várias pulgas. Muitas coisas estavam em jogo. Os Programas eleitorais haviam (des) vendado alguns pontos obscuros. A propaganda ajudava, mas também atrapalhava.
A guerra, com suas dores e horrores, havia terminado há pouco tempo, há 18 meses. E os eleitores eram chamados para escolher quem os iria governar. Era como se os antigos contendores haviam repassado para o eleitorado o que não foi decidido no teatro operacional.
Aguentei a fila várias horas. Vi o sorriso com que saiam os que haviam exercido o seu direito de cidadania na Angola Independente e animei-me!
Já passava da hora do almoço, mas nem dei pelo ruído da fome. Quando chegou a minha vez, rezei para que tudo corresse bem, pois de algures já partiam mensagens de inquietações.
Caminhei sobre o gume da navalha até a mesa de voto. E trémulo, procurei o partido e o candidato da minha preferência. Sem titubear, Xis num e Xis no outro!
Quando depositei-o na urna ainda me questionava se não me havia enganado na hora do voto, tamanha era a responsabilidade e a tensão que pesava no ombro de cada eleitor.
Dezasseis anos depois, volto às urnas mas mais tranquilo, calmo. Acabou o medo e as incertezas!

Viva a paz! Viva a Democracia!

Mazungue é meu e ponto

Mazungue, o rio Gabelense que corre entre pedras, troncos e angústias. Adoptei-o como meu pseudónimo, aliás nunca tive outro. E os questionamentos surgiram: -
- Por quê Mazungue?
- É o rio da minha infância!
Pois todos têm um rio correndo dentro de si. Muitos já o viram ao relento, mas poucos ouviram enternecidos a melodia das suas águas entre rochas. Ademais a cidade é sempre ruidosa e degradante. Passando por debaixo da cidade da Gabela, transporta as gorduras da modernidade e só lá mais em baixo se purifica e sorri. Não sei onde fica a sua nascente nem a sua foz. Dizem nascer na Donga - região a norte do Amboim, perto da Gabela e desaguar no rio Chilo, que por sua vez desagua no rio Keve, na região da Binga, desaguando este no Oceano Atlântico.
Sei apenas que ele ornamentou as nossas brincadeiras e arrefeceu-nos do calor das correrias no capim das margens. É dele os bagres e cacussos que ajudavam a vencer a rotina pesada da cozinha feita de funge com feijão.
O mergulho no rio virou desporto para gente ribeirinha como as do Pange e Londa. Suas águas irrigavam no cacimbo as hortas fertilizadas com excrementos de cabras e excitava na memória das lavadeiras o sabor do canto da última farra.
Ouviu e guardou lamúrias de amores desavindos, paixões proibidas, traições e declarações de enamorados.
O Mazungue é o confidente, amigo, camarada!

O Mazungue é meu não o partilho com mais ninguém. Me desculpem, mas ser fã tem esse quinhão possessivo. E ponto!

domingo, 20 de julho de 2008

Aventura em terras de Minas!


Após a chegada à cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, procurei montar o quarto. Como sobrava pouco dinheiro, pesquisei móveis mais baratos. Sozinho peguei num táxi no Bairro Manuel Honório para ir até ao Calçadão trocar duas notas de cem dólares. O motorista entrou pela avenida Rio Branco, atravessou a Rua dos Andradas, subiu a Barão de Cataguases e pegou a Olegário Maciel. Não conhecia nada, por isso não desconfiei. Desceu a Padre Café, a Avenida Independência e só depois chegamos à Rua Halfeld, vulgo Calçadão. Foram mais de 30 minutos de viagem, num circuito que gastaria apenas cinco. O taxista prolongou a viagem para amealhar mais uns trocados, pois havia descoberto, eu era estrangeiro. Troquei os 200 dólares, um dólar valia um real. Calmamente, parando aqui e acolá para admirar as vitrines, caminhei em direcção ao Mergulhão, uma passagem inferior em cima da qual estava a linha do comboio. Perto do Largo Riachuelo, agarraram o meu braço e fui cercado por quatro mulheres de meia-idade. Preparei as unhas e os dentes para a luta. Uma delas, a mais novinha, sorriu para mim e afagou a minha mão esquerda. Desarmei. Eram ciganas. Leram a minha mão. Disseram que eu não era da cidade. Certo! E que havia uma mulher que me amava muito. Talvez! Ouvi desconfiado e de cara franzida. Queria logo sair daí e correr. Mas correr para onde?
Sempre com sorriso, a cigana sem soltar a minha mão, prometeu fazer uma oração para dar-me sorte, mas antes pediu que retirasse tudo que tinha no bolso. Assim me livraria do fardo que transportava. Ingénuo! Tirei o que tinha no bolso direito já que ela segurava o braço esquerdo. Sorte minha! Num gesto rápido, ela pegou o conteúdo retirado do bolso. Entrei em pânico. Eram os cinquenta Reais! Avancei em posição de ataque. Ela juntaram-se num cacho e uma dela simulou gritar por um agente da polícia. Sem saber se gritava ou chorava ou as duas coisas simultaneamente, fiquei a olhar impotente o movimento da urbe mineira. Dia seguinte, na companhia do Sangueve, com o dinheiro que sobrara, comprei a cama, o colchão e o cobertor, tudo no bazar da Pechincha. Fui atendido por uma moça negra chamada Maria José. Você é nigeriano? Não, angolano. Ah, tá! Vão ficar aqui muito tempo? Sim. Ok. Tá morando onde?... E deu seu número de telefone. No estabelecimento havia de tudo: aparelhos de rádios e TV, móveis, vasos, pratos, roupas, enfim. Uma infinidade de objectos quinquilharia para todos bolsos e gostos. Fiquei feliz com o preço. O Sangueve foi buscar uma carroça puxada a cavalo. Meu amigo parecia um artista de cinema de pé sobre a carroça. Como se estivesse a inspecciona-lo, admirei o cavalo grande e castanho. Batia os pés no asfalto e agitava a cauda preta afugentado os insectos. As viseiras chamaram a minha atenção. Para quê serviam? Para o bicho não mudar de direcção atoa. Explicou o proprietário. Se olhar em várias direcções ele não caminha directo, não avança. Fiquei pensando nas suas últimas palavras, enquanto subíamos lentos o morro com os móveis em direcção a casa. Quando se olha em várias direcções não se avança! Tive pena do animal. Tinha o rosto triste. Quando é que uma mula sorri? Talvez quando se vinga dos homens sujando a cidade de asfalto com as suas fezes esverdeadas. Ou então, quando consegue jogar o seu algoz para o chão. Pois vida sem riso é dor!
Montamos a cama e aguardei a noite chegar. É sempre boa a estreia. A noite chegou, mas não acreditei. Fiquei sem dormir. Foi uma noite longa, porque as pulgas e percevejos não deixaram. Sem dinheiro para as novas compras tive de aprender a conviver com elas durante quase um ano. Uma coexistência penosa. Dois dias depois, a Maria José ligou para o telefone público. Queria falar com um dos angolanos que moravam ali perto. Foram logo chamar-nos. Todos saímos a correr. Primeiro, o António, a seguir, o Sangueve e eu no fim da fila. Estão chamando por um cara angolano! Será o António? O mensageiro branco mostrou-se indeciso. Sangueve? Não! Respondeu com convicção! Augusto? Isso, é ele mesmo. Meu coração tremeu. Quem seria? De Angola, não é possível!... Peguei o auscultador com cuidado como se ele mordesse ao mínimo gesto. Alô, é Augusto!.... Siiim! O coração trabalhava assustado. Aqui é Maria José, do Bazar da Pechincha! Ah, sim! Você não ligou até hoje!... ...Hum! Vamos passear um pouquinho hoje a noite? Hoje a noite? A que horas? Oito da noite! O quê? Às oito horas vou estar na Faculdade! Dezoito, dezanove e vinte. Vinte horas! Entendeu? Yá. Beijo. Tchau. Nunca recebera tanto beijo, pena que era só ao telefone. No encontro, ela já traçava planos para o futuro. Quando é que teu dinheiro vem? Fingi que não tinha ouvido. Ela com esperteza prosseguiu sem se importar com o meu silêncio. Sabia que atacaria no flanco. Eu estou muito apaixonada por você, rapaz! Vou te fazer feliz. Você não tem filhos? Eu nunca tive marido nem filhos. Você é um cara legal, atencioso... Sempre sonhei ter um cara assim… dentes lindos!... Hum!... Vamos arranjar a nossa casa, comprar mobília como aquela. E apontava para uma montra.
O coração agora tremia. Olhei indiferente para as montras, esperando a hora da despedida. Não é aqui no tal Brasil que andam falar, hum?!... Perto do Supermercado Bretas, parámos antes de atravessar para o lado do Shopping Santa Cruz. Passou um autocarro do Bairro São Pedro. No parque, vultos se movimentavam no ambiente semi-escuro. Isso aí é uma zona. Zona? Sim. Você em Angola não tem zona, não? Temos. Pensei longe. Lá cada um tem a sua zona. É mesmo? Eu também tenho a minha, onde nasci... Como assim?! Desconfiada e surpreendida. Ué, você nasceu numa zona? Sim. Chama-se Gabela. Quibela? Não, Gabela. Quibela. Estava perder a paciência. Zona é terra onde a gente nasce. Cada um tem sua aldeia. Respirou de alívio e abraçou-me. Pensei que fosse... Fosse o quê? Zona p’ra gente é lugar onde ficam as quengas. Quengas? Sim, mulheres da vida. Ah, as putas? Sorriu, sorriu. Afagando-me a cabeça com ternura. Com indícios de nervos ainda mal disfarçados na voz, perguntei: E aqueles homens que estão com elas? São clientes ou então gigolôs. Acompanhante, protector. Aié? Mas tem também homens trabalhando. Tem mulheres e homens da vida. Trabalhando a esta hora? Esta é a hora que tem mais clientes. Clientes? É, a esta hora a zona fica, assim! A mensagem foi codificada com os dedos da mão esquerda abrindo e fechando em cacho. Tem gente que não gosta de mulher. Na África também tem bichas? Tem sim! Com o socialismo, surgiram muitas bichas à entrada de supermercados e restaurantes. É mesmo?! As pessoas chegavam à madrugada e só saiam de lá no dia seguinte. Que isso, cara?! Como nem todos os dias são santos, muitos regressavam sem conseguir nada. Sei, tem isso também… Aqui, me diga uma coisa. O socialismo é bom? É, tem algumas coisas boas, mas o terrível é enfrentar as bichas. Na luta, algumas vezes se quebravam os vidros da montra. Muita gente ficava ferida. Nossa, tudo por causa das bichas? Tudo. Que isso, rapaz?! Na África também tem lâminas. Hein?... Gente que é lâmina! Comecei a ficar com medo. Lembrei-me de um filme onde uma mulher degolava as suas vítimas com uma lâmina que escondia por debaixo da língua. Não tem nada a ver! Lâmina é homem que gosta de mulher e também de homem. E lâmina porquê? Porque corta dos dois lados, bobo. Ah!... Não gostei da última palavra, mas escondi a minha insatisfação numa gargalhada. Baby, você só gosta de mulher, né?!... Desmanchei-me num sorri. Mas o volume das carícias e o andar sempre abraçado me sufocavam. Me senti amarrado sem espaço para o voo. Vamos embora! E sempre me abraçando, junto do Directório Académico, subimos no autocarro Santa Rita e na brisa fria da noite o meu pensamento ancorou na “zona”. Já viu alguém nascer numa zona? Cheguei a casa a sorrir. Dia seguinte, um homem negro que prestava serviço no Bazar alertou-me do perigo que corria. Oh negão, esta muher tem homem. Ela tem uma fiha com um cara de um metro e oitenta. Não pisa na bola com o cara. Vai te fazer bagaço, negão. Bagaço?! Azar. Corri e busquei refúgio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida. Cheguei ofegante. É o quê mais? Não é nada, é só correr mesmo. Corpo são, mente sã! Ah, pensei que te correram. Eu? Nem pensar! Estais me estranhando! Não ouviste hoje de manhã no programa do Márcio Augusto, da Rádio Solar AM. Disseram o quê? Hoje não é um bom dia para o teu signo. Como assim? Peixe, deves estar atento com as coisas ao seu redor e ser muito prudente, porque algo de horrível poderá acontecer na sua vida. Sangueve, se ficares a ouvir estes gajos, nunca serás feliz. É mesmo! Se ficares atento vais ver que o signo de Peixes nunca tem uma previsão boa. Ora porque cuidado com dinheiro, ora porque o seu astral está em baixa. Eh, estamos mal! Também, vamos cuidar de dinheiro que não temos!... Aquário é prisão de peixes e gaiola de pássaros.

O assobio de Teta Lando

Aos primeiros acordes, o silêncio desce sobre o relvado do Estádio da Cidadela e logo depois explode em estonteantes aplausos, que ensurdecem a plateia. Na sinfonia, a voz suave brota calmamente entre os instrumentos e hipnotiza a audiência.«Domingo vou fazer um funge,Como fazia aquele velho na SanzalaA sombra da mulemba vai ser a sala na sanzala…»O sol se escondia no horizonte com seus lilases e alongava a sombra dos edifícios sobre o cenário. Sob o dedilhar dos fios do violão, o coração estremece de amor convertido em canção.«Eu vou fazer um Semba para dedicar à LembaVai ter Ungo e QuissangeVai ter Marimba de MalangePara encontrar a harmonia…»Era Alberto Teta Lando! As lágrimas e os apalusos salpicaram toda a sua actuação no Fenacult. Estávamos no ano de 1989. Jamais me esqueci daquele momento!Emocionado, apertei contra o peito a arma AKM que transportava e chorei. A Cidadela estava engalanada. Não havia espaços vazios nem pausas na torrente de emoção. Tudo era cor e alegria. Era um ambiente transcendêncial.Como aluno da Escola Político-Militar Comandante Jika, em Luanda, havia acabado de participar na apresentação de quadros humanos. Foram três meses de ensaios orientados por uma instrutora coreana. Ainda me lembro!...O Fenacult ocorre meses depois do fracassado Acordo de Gbadolite, que teve lugar em Junho de 1989, na República do Zaire, sob mediação do presidente Mobutu Sese Seko.A guerra fratricida voltava a traçar o seu rasto de dor e sofrimento! A alegria vespertina havia se transformado em tragédia. Em cada coração o sabor acre da desilusão.Feito arauto, Teta Lando chega exactamente nesse momento em que a nação, cansada de anos de conflitos, se esforçava para estender a ponte para a paz e a concórdia entre os irmãos desavindos.Portanto, era simplesmente irresistível a mensagem que Teta Lando trazia no seu regresso ao País, depois de vários anos de exílio em França. Ele chegou na hora certa e abriu-se para o amplexo abraço.«Vamos falar da terra,Vamos esquecer a guerra,Vamos ter uma só voz,Vamos ficar entre nós,No meu funge de Domingo,Avó Marica vai gostarAvó Ximinha até vai chora,Por nos ver juntos a conversar…
Os nossos velhos vão gostar, vão gostar…
As nossas mulheres vão deixar de chorar
As nossas crianças vão gostar, vão sorrir…
Os nossos mortos vão compreender então,
Porque morreram afinal…
A esperança vai voltar»A canção entrou pelos ouvidos e inundou os corações, animando a cadência da nossa marcha. E a profecia de Teta Lando se concretizava dois anos depois em Bicesse, Portugal.Ele cantou a saudade e prometeu voltar. E voltou para dar seu quinhão na reconstrução do país! Porque tinha a consciência de que todos éramos poucos para as tarefas ingentes de se criar o bem-estar social dos angolanos. As dificuldades de reconstruir um país dilacerado profundamente pelo conflito são imensas, mas é preciso arregaçar as mangas para a luta de todos os dias.«Angolano segue em frente o seu caminho é só um.Esse caminho é difícil, mas trar-te-á a liberdade»Para vencer as agruras do caminho, é preciso caminhar com amor, daí a necessidade de cada angolano amar o seu irmão. O amor supera qualquer dificuldade.No caminho para a modernidade, a identidade africana deve ser tida sempre como factor crucial que dá suporte ao projecto de desenvolvimento de qualquer nação. A cultura funciona como os faróis para a navegação. É a referência na assumpção da nossa verdadeira personalidade enquanto africanos. «Você é africana tem beleza natural, vai mostrar para todo mundo que essa tua carapinha é o acabamento de uma obra sem igual».Teta Lando deixa-nos a poucos dias da realização das segundas eleições legislativas marcadas para 5 de Setembro de 2008. Com certeza, o assobio de Teta Lando vai marcar o nosso compasso no labor de fazer de Angola um país melhor para ser viver!Por isso, mais do que chorar a dor da ausência, guardemos pois as lições que ele nos legou.«Angolano ame o seu irmão!A palavra de ordem é união»

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Redacções frias, jornalismo virtual

Prólogo: Cresci a caçar ratos no Amboim, hoje sobrevivo a agarrar o mouse. Sou o mesmo, pois!

Eram 21 horas do dia internacionalmente consagrado à liberdade de Imprensa. Dois jornalistas, um fumador e o outro não-fumador, reivindicavam cada o seu direito. “Aqui é proibido fumar!”... A tensão subia e ameaçava transbordar. Este artigo nasceu, naquele dia, entre a ameaça e a fumaça.
O fumador iniciava o seu texto, quiçá, abordando o silêncio dos profissionais e dos órgãos de imprensa em relação à data. De facto, é paradoxo propalar falta de liberdade de imprensa, quando no devido dia há apenas bocas soltas, nem debates, nem palestras em locais de trabalho e mercados, nem mesas redondas, etc.
O não-fumador procurava entre os poucos textos disponíveis, o ideal para fechar a edição do dia. Talvez não consiga “vender” uma chamada de capa ao chefe de redacção. “Hoje não há nada. A edição está fraca!” Diz-se como se nada de importante tivesse ocorrido no dia. O fecho reúne em si a tensão, a azáfama e a angústia. Chicotadas psicológicas, Ismael Kurts[1] que não ganha a nenhum adversário, mas, com certeza, recebe o seu salário inteirinho com correcção monetária e tudo. O contribuinte-adepto espera resignado por golos, que ficam nos dribles do labirinto do pensamento. Dirigentes que claudicam com os cortes que rejuvenescem quarentões? A alternativa é fuçar na Net.
Segui a briga a uma distância que permitia não perder detalhes da cena, nem me envolver nela. A briga acabou, tal como os cigarros terminam na borda do cinzeiro: sem fumo, apenas cinza, capaz no entanto de aquecer larvas de furacões adormecidos.
Foi assim, que, de repente, me vi percorrer outros atalhos. Tempos em que as redacções eram campo de batalha, onde fervilhavam ideias, discussões, críticas, humor, anedotas e gargalhadas sob o metralhar das máquinas de escrever. Tempo do jornalismo boémio e romântico, de escritores, advogados e outros sonhadores politicamente engajados. Autodidactas ávidos e devoradores de livros.
«Naquelas redacções de mesa única soava o estribilho monótono:” O jornalista nasce, não se faz”. Não havia computadores. O fumo e o calor faziam parte do cenário. Não havia escola de jornalismo. Como manual de cabeceira era recomendado o livro de um bom escritor (como Balzac) acoplado à imaginação e à criatividade no manejo da língua e à rapidez do dedilhar na azert.»
“Há uns cinquenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo[2]. Aprendia-se nas redacções, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O Jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação, no qual a moral era conservada no seu lugar. Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo o mundo fazia pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redacção para tomar café. Era uma tertúlia aberta, em que se discutia a quente os temas de cada secção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na verdade não o eram[3]”. “Prevalecia então o elemento humano sobre a técnica” (Piedrahita, pág. 89).
Hoje, os tempos são outros. O metralhar das máquinas de escrever é lembrança vaga. O pipocar do teclado dos computadores assenhorou-se do ambiente. As redacções tornaram-se menos barulhentas, não só pela ausência das “Olímpias”, mas também porque o perfil dos profissionais foi alterado. Longe vai a década de 60, caracterizada pelo ideal revolucionário. Che e Marx eram estandarte! Hoje, as discussões gravitam em torno do desporto, personagens de novelas, modelos de automóveis...! De política? “FECHE A PORTA! AR CONDICIONADO”!
Hoje, à entrada de todas redacções do mundo encontramos esse aviso. É o mais recente e vem juntar-se ao mais antigo: “PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS ESTRANHAS!”. O mais cassule deles é o “PROIBIDO FUMAR!” Até parece que as redacções de hoje se transformaram em espaço de proibições. Só falta “SILÊNCIO, ESTAMOS A NAVEGAR”. Então, jornalismo não é o contacto com a vida palpitante da rua?!
Já não se fazem profissionais como antes. O consumismo superou o desejo de perseguir a verdade e mudar o mundo. Acabou a utopia. O repórter chega à redacção e esboça satisfação ao confirmar na agenda a ausência do seu nome. E não reclama se não for agendado durante toda uma semana. Fica feliz com isso. Encaminha-se para um computador, consulta o seu correio electrónico. Acessa o MSN e convoca a sua turma para o habitual bate-papo. Tem amigo(a)s e namorado(a)s virtuais e é com estes que ele se empenha em comunicar.
O contacto com o colega real é feito de forma indiferente. O aperto de mão é frio, assim como o olhar. Parece angustiado!
Quando chamado pela reportagem, o repórter recebe a missão. Não faz perguntas, não tem curiosidade sobre o assunto que vai reportar. Não procura por background. Pega na bolsa e embarca na viatura. Ao longo do trajecto, diverte-se a ouvir música e a ver o trânsito caótico da cidade. Nem repara nos buracos que vão surgindo na estrada, no lixo amontoado em cada esquina ou nas brigas comuns de criancinhas por um pedaço de pão. Resultado: chega ao local sem pensar sequer na pauta, que não raras vezes nem lhe foi proporcionada. Vêm depois as perguntas disparatadas: “Como é que a viúva se sente?” “Como o senhor se chama mesmo?” Ou então fica-se pelo evidente ou pelo despropositado: “Está feliz por ter recebido esse prémio?”
Não sabe tirar notas e morre de amor pelo gravador. As apurações ficam barrigudas[4]. Contenta-se com pouco. Não é persistente e não tem ambição. Erra o nome do entrevistado ou da empresa. De volta à redacção, nem sequer consegue dizer ao editor o assunto que cobriu. Enquanto escreve a reportagem, bate papo no MSN, lê, responde e encaminha emails... é incrível a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente. Há quem ainda consiga jogar e atender o telemóvel!!!
Os manuais ensinam que o lead deve ser atraente e capaz de captar a curiosidade do leitor, do primeiro ao último momento. Nada de parágrafos intermináveis. Frases curtas. Ordem directa e voz activa. Como falar em proximidade, se anda a milhas? Agressividade e repercussões nem pensar, isso é coisa doutro tempo. Está relaxado. Começa a matéria de forma frouxa e termina desgraçadamente. Não há sugestão de título! A auto-censura logo o converte em especialista da press house. Galanteia a fonte e o leitor que se dane! – “Graças a Deus, o público não engole qualquer coisa!”
Depois entrega a matéria ao editor e sai. Não quer saber da edição. Dorme descansado com a convicção de ter assinado o seu melhor texto. No dia seguinte vem a surpresa. A matéria não foi publicada. Ou mudou-se o lead ou então o editor preferiu o texto da agência de notícias. Sente-se injustiçado, perseguido. O bolor nasce sobre as relações. “O editor não gosta de mim!”
E outro? É ainda estagiário, mas já anda de ego inflamado, como se fosse um veterano coleccionador de títulos e prémios. O editor queima pestanas a “desminar” a sua matéria. Das 100 sugeridas, aproveita apenas 30 linhas. E faz a “tradução” do texto para português. No dia seguinte, ele diz para o editor que no seu texto apenas foi alterado o título (...).
Chega o mês de Junho. O frio vai aumentar. Agora é que vai hibernar mesmo! O público espera. Como pode o leitor ter notícias sobre o bairro, a cidade e o país, se quem está mandatado para o informar, desconhece até o que se passa do outro lado da rua? Se está mais preocupado em ver fantasmas onde eles não existem? Ou se considera que, por ser jornalista, os demais seres humanos gravitam à sua volta? Prenda ao diploma, a intrepidez dos antigos profissionais, meu caro! Olhe a sua volta! Não há tréguas em jornalismo!
- Chamem o técnico, a Internet caiu!
[1] Treinador brasileiro que esteve ao serviço da selecção angolana de futebol, em 2003. Durante a vigência do seu contrato, a selecção raramente venceu até adversários reconhecidamente mais fracos.
[2] A primeira escola de jornalismo foi fundada em 1908, na Universidade de Missouri. Não obstante, a que alcançou maior fama foi a Garduate School of Journalism da Universidade de Colúmbia, cuja ideia se deve a Pulitzer. Parabéns ISPRA por tornar realidade o sonho de muitos jornalistas angolanos.


[3] MÁRQUES, Gabriel Garcia. Jornalismo: a melhor profissão do mundo.Disponível em http:/www.google.com.br.Acesso em 30 de Abr.2002
[4] Matéria mal apurada

Eu amo Angola!

Um telefonema inesperado faz reduzir a velocidade do carro e, em escassos segundos, o ponteiro desce de 100 para zero. Eram 15 horas e 30 minutos.
- Tudo bem papai?... Olha papai, eu vou torcer p’ra Angola. Não vou torcer para o Brasil.
Momentaneamente, um remoinho confunde tudo na azáfama do trânsito e seca as águas do Oceano Atlântico, que separam Angola do Brasil. Decanto as ideias, renovo, num longo suspiro, o oxigénio dos pulmões e desligo o rádio.
Era a voz da Anna Júlia que falava a partir do Bairro Benfica, da cidade de Juiz de Fora - Minas Gerais Brasil. Lá bem distante, na cidade do poeta da “Idade do Serrote”, Murilo Mendes, e do presidente Itamar Franco. Não é o Benfica de Luanda, onde coincidentemente eu vivo e que também dista cerca de 30 quilómetros do centro da cidade. O Benfica de Minas fica na Rua Presidente Juscelino Kubicheck.
Os Palancas Negras realizaram jogos amistosos antes do Dia D em que se vão defrontar com a selecção de Portugal. Acompanho os jogos pela Televisão, sofro e no final deixo-me ficar com a bandeira a bailar na mente. Vermelho, o Sangue de nossos Heróis. O Preto, a África, e o Amarelo, as riquezas de Angola.
Foram quatro jogos para a preparação dos Nossos Heróis! Resultado: uma vitória de 5:2 contra um misto de Celle (equipa alemã), 0:2 contra os argentinos, 2:3 contra os turcos e 0:1 contra os americanos. Encolho os ombros e agasalho-me no conformismo.
Mas esse telefonema reacende os ânimos e a tarde se torna colorida muito antes do crepúsculo chegar com os seus lilases. Anna Júlia nasceu no Brasil, tem 6 anos e decide torcer por Angola na Copa, apesar do Brasil também estar lá com todo o seu cordão de estrelas e favoritismo. Anna é filha de pai angolano e mãe brasileira. Ela nunca veio a Luanda, mas sente-se tão angolana, como as meninas que cantam o “ANGOLA AVANTE”.
“Infeliz é a Nação que não tem heróis” escreveu Berlot Brecht na peça Galileu Galileu. Angola tem seus heróis, que encarnam o sentimento mais profundo das suas populações, a sua alegria. Depois de trinta anos de dores e de lágrimas, as feridas abertas pelo conflito no corpo e na alma dos angolanos, ainda não sararam em 4 anos. Só a brisa do tempo encaixará cada partícula no seu lugar e cobrirá as crateras que se abriram na memória. Sabemos que é preciso caminhar, semear amor sobre dor, o bem sobre o mal. Deixemos o bálsamo do amor cicatrizar as nossas chagas.
Ainda se lembram? “Angola é e será por vontade própria…” Essa vontade persiste no sangue de angolanos e de seus descendentes. Angola já não é uma simples nação africana mergulhada numa guerra étnico-tribal, como cansamo-nos de ouvir durante anos.
Por mérito próprio, Angola está na Alemanha entre as grandes nações do mundo. É incrivelmente, a Copa 2006 decorre na Pátria de um dos maiores dramaturgos do Mundo, Brecht. O autor de “Mãe Coragem”, “O círculo de giz Caucasiano”, “Aquele que diz sim e aqueles que diz não”. O homem do Teatro Didáctico e do Distanciamento.
Angola vai enfrentar adversários potencialmente fortes. Com coragem, humildade e paciência vai conquistar o seu sonho. No campo, manterá o distanciamento do favoritismo dos adversários, pois, os jogos são resolvidos no relvado.
Pela primeira vez, Angola está no mundial, tomo finalmente consciência do tamanho do feito. A ficha cai. Eis a realidade! O país vai estar na vitrine do mundo! Quando o apito soar no Domingo toda a Nação terá o coração suspenso e a respiração entrecortada.
Geradores, rádios, pilhas, televisores e todos os meios que permitem acompanhar o espectáculo estão a ser “engatilhados”, diga-se, preparados para o grande momento. O país inteiro vai parar. Cada molécula do tecido vai contaminar-se com o clima de cada lance.
- Filha, obrigado pelo carinho! Vamos torcer juntos por Angola. Viva Angola! - E do outro lado a mesma convicção e firmeza:
- Eu amo Angola, Papai! … Viva Angola!- Viva! – Calmo, com a mente a oscilar entre a alegria e a saudade, retomo a marcha em direcção ao centro da cidade. Enquanto o carro desliza suave sobre asfalto do bairro da Samba, olho triunfante para as obras e o encanto agarra-se ao sorriso.
Viva Angola!...