Augusto Alfredo, angolano nascido no município do Amboim, província do Kwanza Sul, é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil.
domingo, 20 de julho de 2008
Aventura em terras de Minas!
Após a chegada à cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, procurei montar o quarto. Como sobrava pouco dinheiro, pesquisei móveis mais baratos. Sozinho peguei num táxi no Bairro Manuel Honório para ir até ao Calçadão trocar duas notas de cem dólares. O motorista entrou pela avenida Rio Branco, atravessou a Rua dos Andradas, subiu a Barão de Cataguases e pegou a Olegário Maciel. Não conhecia nada, por isso não desconfiei. Desceu a Padre Café, a Avenida Independência e só depois chegamos à Rua Halfeld, vulgo Calçadão. Foram mais de 30 minutos de viagem, num circuito que gastaria apenas cinco. O taxista prolongou a viagem para amealhar mais uns trocados, pois havia descoberto, eu era estrangeiro. Troquei os 200 dólares, um dólar valia um real. Calmamente, parando aqui e acolá para admirar as vitrines, caminhei em direcção ao Mergulhão, uma passagem inferior em cima da qual estava a linha do comboio. Perto do Largo Riachuelo, agarraram o meu braço e fui cercado por quatro mulheres de meia-idade. Preparei as unhas e os dentes para a luta. Uma delas, a mais novinha, sorriu para mim e afagou a minha mão esquerda. Desarmei. Eram ciganas. Leram a minha mão. Disseram que eu não era da cidade. Certo! E que havia uma mulher que me amava muito. Talvez! Ouvi desconfiado e de cara franzida. Queria logo sair daí e correr. Mas correr para onde?
Sempre com sorriso, a cigana sem soltar a minha mão, prometeu fazer uma oração para dar-me sorte, mas antes pediu que retirasse tudo que tinha no bolso. Assim me livraria do fardo que transportava. Ingénuo! Tirei o que tinha no bolso direito já que ela segurava o braço esquerdo. Sorte minha! Num gesto rápido, ela pegou o conteúdo retirado do bolso. Entrei em pânico. Eram os cinquenta Reais! Avancei em posição de ataque. Ela juntaram-se num cacho e uma dela simulou gritar por um agente da polícia. Sem saber se gritava ou chorava ou as duas coisas simultaneamente, fiquei a olhar impotente o movimento da urbe mineira. Dia seguinte, na companhia do Sangueve, com o dinheiro que sobrara, comprei a cama, o colchão e o cobertor, tudo no bazar da Pechincha. Fui atendido por uma moça negra chamada Maria José. Você é nigeriano? Não, angolano. Ah, tá! Vão ficar aqui muito tempo? Sim. Ok. Tá morando onde?... E deu seu número de telefone. No estabelecimento havia de tudo: aparelhos de rádios e TV, móveis, vasos, pratos, roupas, enfim. Uma infinidade de objectos quinquilharia para todos bolsos e gostos. Fiquei feliz com o preço. O Sangueve foi buscar uma carroça puxada a cavalo. Meu amigo parecia um artista de cinema de pé sobre a carroça. Como se estivesse a inspecciona-lo, admirei o cavalo grande e castanho. Batia os pés no asfalto e agitava a cauda preta afugentado os insectos. As viseiras chamaram a minha atenção. Para quê serviam? Para o bicho não mudar de direcção atoa. Explicou o proprietário. Se olhar em várias direcções ele não caminha directo, não avança. Fiquei pensando nas suas últimas palavras, enquanto subíamos lentos o morro com os móveis em direcção a casa. Quando se olha em várias direcções não se avança! Tive pena do animal. Tinha o rosto triste. Quando é que uma mula sorri? Talvez quando se vinga dos homens sujando a cidade de asfalto com as suas fezes esverdeadas. Ou então, quando consegue jogar o seu algoz para o chão. Pois vida sem riso é dor!
Montamos a cama e aguardei a noite chegar. É sempre boa a estreia. A noite chegou, mas não acreditei. Fiquei sem dormir. Foi uma noite longa, porque as pulgas e percevejos não deixaram. Sem dinheiro para as novas compras tive de aprender a conviver com elas durante quase um ano. Uma coexistência penosa. Dois dias depois, a Maria José ligou para o telefone público. Queria falar com um dos angolanos que moravam ali perto. Foram logo chamar-nos. Todos saímos a correr. Primeiro, o António, a seguir, o Sangueve e eu no fim da fila. Estão chamando por um cara angolano! Será o António? O mensageiro branco mostrou-se indeciso. Sangueve? Não! Respondeu com convicção! Augusto? Isso, é ele mesmo. Meu coração tremeu. Quem seria? De Angola, não é possível!... Peguei o auscultador com cuidado como se ele mordesse ao mínimo gesto. Alô, é Augusto!.... Siiim! O coração trabalhava assustado. Aqui é Maria José, do Bazar da Pechincha! Ah, sim! Você não ligou até hoje!... ...Hum! Vamos passear um pouquinho hoje a noite? Hoje a noite? A que horas? Oito da noite! O quê? Às oito horas vou estar na Faculdade! Dezoito, dezanove e vinte. Vinte horas! Entendeu? Yá. Beijo. Tchau. Nunca recebera tanto beijo, pena que era só ao telefone. No encontro, ela já traçava planos para o futuro. Quando é que teu dinheiro vem? Fingi que não tinha ouvido. Ela com esperteza prosseguiu sem se importar com o meu silêncio. Sabia que atacaria no flanco. Eu estou muito apaixonada por você, rapaz! Vou te fazer feliz. Você não tem filhos? Eu nunca tive marido nem filhos. Você é um cara legal, atencioso... Sempre sonhei ter um cara assim… dentes lindos!... Hum!... Vamos arranjar a nossa casa, comprar mobília como aquela. E apontava para uma montra.
O coração agora tremia. Olhei indiferente para as montras, esperando a hora da despedida. Não é aqui no tal Brasil que andam falar, hum?!... Perto do Supermercado Bretas, parámos antes de atravessar para o lado do Shopping Santa Cruz. Passou um autocarro do Bairro São Pedro. No parque, vultos se movimentavam no ambiente semi-escuro. Isso aí é uma zona. Zona? Sim. Você em Angola não tem zona, não? Temos. Pensei longe. Lá cada um tem a sua zona. É mesmo? Eu também tenho a minha, onde nasci... Como assim?! Desconfiada e surpreendida. Ué, você nasceu numa zona? Sim. Chama-se Gabela. Quibela? Não, Gabela. Quibela. Estava perder a paciência. Zona é terra onde a gente nasce. Cada um tem sua aldeia. Respirou de alívio e abraçou-me. Pensei que fosse... Fosse o quê? Zona p’ra gente é lugar onde ficam as quengas. Quengas? Sim, mulheres da vida. Ah, as putas? Sorriu, sorriu. Afagando-me a cabeça com ternura. Com indícios de nervos ainda mal disfarçados na voz, perguntei: E aqueles homens que estão com elas? São clientes ou então gigolôs. Acompanhante, protector. Aié? Mas tem também homens trabalhando. Tem mulheres e homens da vida. Trabalhando a esta hora? Esta é a hora que tem mais clientes. Clientes? É, a esta hora a zona fica, assim! A mensagem foi codificada com os dedos da mão esquerda abrindo e fechando em cacho. Tem gente que não gosta de mulher. Na África também tem bichas? Tem sim! Com o socialismo, surgiram muitas bichas à entrada de supermercados e restaurantes. É mesmo?! As pessoas chegavam à madrugada e só saiam de lá no dia seguinte. Que isso, cara?! Como nem todos os dias são santos, muitos regressavam sem conseguir nada. Sei, tem isso também… Aqui, me diga uma coisa. O socialismo é bom? É, tem algumas coisas boas, mas o terrível é enfrentar as bichas. Na luta, algumas vezes se quebravam os vidros da montra. Muita gente ficava ferida. Nossa, tudo por causa das bichas? Tudo. Que isso, rapaz?! Na África também tem lâminas. Hein?... Gente que é lâmina! Comecei a ficar com medo. Lembrei-me de um filme onde uma mulher degolava as suas vítimas com uma lâmina que escondia por debaixo da língua. Não tem nada a ver! Lâmina é homem que gosta de mulher e também de homem. E lâmina porquê? Porque corta dos dois lados, bobo. Ah!... Não gostei da última palavra, mas escondi a minha insatisfação numa gargalhada. Baby, você só gosta de mulher, né?!... Desmanchei-me num sorri. Mas o volume das carícias e o andar sempre abraçado me sufocavam. Me senti amarrado sem espaço para o voo. Vamos embora! E sempre me abraçando, junto do Directório Académico, subimos no autocarro Santa Rita e na brisa fria da noite o meu pensamento ancorou na “zona”. Já viu alguém nascer numa zona? Cheguei a casa a sorrir. Dia seguinte, um homem negro que prestava serviço no Bazar alertou-me do perigo que corria. Oh negão, esta muher tem homem. Ela tem uma fiha com um cara de um metro e oitenta. Não pisa na bola com o cara. Vai te fazer bagaço, negão. Bagaço?! Azar. Corri e busquei refúgio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida. Cheguei ofegante. É o quê mais? Não é nada, é só correr mesmo. Corpo são, mente sã! Ah, pensei que te correram. Eu? Nem pensar! Estais me estranhando! Não ouviste hoje de manhã no programa do Márcio Augusto, da Rádio Solar AM. Disseram o quê? Hoje não é um bom dia para o teu signo. Como assim? Peixe, deves estar atento com as coisas ao seu redor e ser muito prudente, porque algo de horrível poderá acontecer na sua vida. Sangueve, se ficares a ouvir estes gajos, nunca serás feliz. É mesmo! Se ficares atento vais ver que o signo de Peixes nunca tem uma previsão boa. Ora porque cuidado com dinheiro, ora porque o seu astral está em baixa. Eh, estamos mal! Também, vamos cuidar de dinheiro que não temos!... Aquário é prisão de peixes e gaiola de pássaros.
O assobio de Teta Lando
Aos primeiros acordes, o silêncio desce sobre o relvado do Estádio da Cidadela e logo depois explode em estonteantes aplausos, que ensurdecem a plateia. Na sinfonia, a voz suave brota calmamente entre os instrumentos e hipnotiza a audiência.«Domingo vou fazer um funge,Como fazia aquele velho na SanzalaA sombra da mulemba vai ser a sala na sanzala…»O sol se escondia no horizonte com seus lilases e alongava a sombra dos edifícios sobre o cenário. Sob o dedilhar dos fios do violão, o coração estremece de amor convertido em canção.«Eu vou fazer um Semba para dedicar à LembaVai ter Ungo e QuissangeVai ter Marimba de MalangePara encontrar a harmonia…»Era Alberto Teta Lando! As lágrimas e os apalusos salpicaram toda a sua actuação no Fenacult. Estávamos no ano de 1989. Jamais me esqueci daquele momento!Emocionado, apertei contra o peito a arma AKM que transportava e chorei. A Cidadela estava engalanada. Não havia espaços vazios nem pausas na torrente de emoção. Tudo era cor e alegria. Era um ambiente transcendêncial.Como aluno da Escola Político-Militar Comandante Jika, em Luanda, havia acabado de participar na apresentação de quadros humanos. Foram três meses de ensaios orientados por uma instrutora coreana. Ainda me lembro!...O Fenacult ocorre meses depois do fracassado Acordo de Gbadolite, que teve lugar em Junho de 1989, na República do Zaire, sob mediação do presidente Mobutu Sese Seko.A guerra fratricida voltava a traçar o seu rasto de dor e sofrimento! A alegria vespertina havia se transformado em tragédia. Em cada coração o sabor acre da desilusão.Feito arauto, Teta Lando chega exactamente nesse momento em que a nação, cansada de anos de conflitos, se esforçava para estender a ponte para a paz e a concórdia entre os irmãos desavindos.Portanto, era simplesmente irresistível a mensagem que Teta Lando trazia no seu regresso ao País, depois de vários anos de exílio em França. Ele chegou na hora certa e abriu-se para o amplexo abraço.«Vamos falar da terra,Vamos esquecer a guerra,Vamos ter uma só voz,Vamos ficar entre nós,No meu funge de Domingo,Avó Marica vai gostarAvó Ximinha até vai chora,Por nos ver juntos a conversar…Os nossos velhos vão gostar, vão gostar…
As nossas mulheres vão deixar de chorar
As nossas crianças vão gostar, vão sorrir…
Os nossos mortos vão compreender então,
Porque morreram afinal…
A esperança vai voltar»A canção entrou pelos ouvidos e inundou os corações, animando a cadência da nossa marcha. E a profecia de Teta Lando se concretizava dois anos depois em Bicesse, Portugal.Ele cantou a saudade e prometeu voltar. E voltou para dar seu quinhão na reconstrução do país! Porque tinha a consciência de que todos éramos poucos para as tarefas ingentes de se criar o bem-estar social dos angolanos. As dificuldades de reconstruir um país dilacerado profundamente pelo conflito são imensas, mas é preciso arregaçar as mangas para a luta de todos os dias.«Angolano segue em frente o seu caminho é só um.Esse caminho é difícil, mas trar-te-á a liberdade»Para vencer as agruras do caminho, é preciso caminhar com amor, daí a necessidade de cada angolano amar o seu irmão. O amor supera qualquer dificuldade.No caminho para a modernidade, a identidade africana deve ser tida sempre como factor crucial que dá suporte ao projecto de desenvolvimento de qualquer nação. A cultura funciona como os faróis para a navegação. É a referência na assumpção da nossa verdadeira personalidade enquanto africanos. «Você é africana tem beleza natural, vai mostrar para todo mundo que essa tua carapinha é o acabamento de uma obra sem igual».Teta Lando deixa-nos a poucos dias da realização das segundas eleições legislativas marcadas para 5 de Setembro de 2008. Com certeza, o assobio de Teta Lando vai marcar o nosso compasso no labor de fazer de Angola um país melhor para ser viver!Por isso, mais do que chorar a dor da ausência, guardemos pois as lições que ele nos legou.«Angolano ame o seu irmão!A palavra de ordem é união»
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Redacções frias, jornalismo virtual
Prólogo: Cresci a caçar ratos no Amboim, hoje sobrevivo a agarrar o mouse. Sou o mesmo, pois!
Eram 21 horas do dia internacionalmente consagrado à liberdade de Imprensa. Dois jornalistas, um fumador e o outro não-fumador, reivindicavam cada o seu direito. “Aqui é proibido fumar!”... A tensão subia e ameaçava transbordar. Este artigo nasceu, naquele dia, entre a ameaça e a fumaça.
O fumador iniciava o seu texto, quiçá, abordando o silêncio dos profissionais e dos órgãos de imprensa em relação à data. De facto, é paradoxo propalar falta de liberdade de imprensa, quando no devido dia há apenas bocas soltas, nem debates, nem palestras em locais de trabalho e mercados, nem mesas redondas, etc.
O não-fumador procurava entre os poucos textos disponíveis, o ideal para fechar a edição do dia. Talvez não consiga “vender” uma chamada de capa ao chefe de redacção. “Hoje não há nada. A edição está fraca!” Diz-se como se nada de importante tivesse ocorrido no dia. O fecho reúne em si a tensão, a azáfama e a angústia. Chicotadas psicológicas, Ismael Kurts[1] que não ganha a nenhum adversário, mas, com certeza, recebe o seu salário inteirinho com correcção monetária e tudo. O contribuinte-adepto espera resignado por golos, que ficam nos dribles do labirinto do pensamento. Dirigentes que claudicam com os cortes que rejuvenescem quarentões? A alternativa é fuçar na Net.
Segui a briga a uma distância que permitia não perder detalhes da cena, nem me envolver nela. A briga acabou, tal como os cigarros terminam na borda do cinzeiro: sem fumo, apenas cinza, capaz no entanto de aquecer larvas de furacões adormecidos.
Foi assim, que, de repente, me vi percorrer outros atalhos. Tempos em que as redacções eram campo de batalha, onde fervilhavam ideias, discussões, críticas, humor, anedotas e gargalhadas sob o metralhar das máquinas de escrever. Tempo do jornalismo boémio e romântico, de escritores, advogados e outros sonhadores politicamente engajados. Autodidactas ávidos e devoradores de livros.
«Naquelas redacções de mesa única soava o estribilho monótono:” O jornalista nasce, não se faz”. Não havia computadores. O fumo e o calor faziam parte do cenário. Não havia escola de jornalismo. Como manual de cabeceira era recomendado o livro de um bom escritor (como Balzac) acoplado à imaginação e à criatividade no manejo da língua e à rapidez do dedilhar na azert.»
“Há uns cinquenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo[2]. Aprendia-se nas redacções, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O Jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação, no qual a moral era conservada no seu lugar. Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo o mundo fazia pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redacção para tomar café. Era uma tertúlia aberta, em que se discutia a quente os temas de cada secção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na verdade não o eram[3]”. “Prevalecia então o elemento humano sobre a técnica” (Piedrahita, pág. 89).
Hoje, os tempos são outros. O metralhar das máquinas de escrever é lembrança vaga. O pipocar do teclado dos computadores assenhorou-se do ambiente. As redacções tornaram-se menos barulhentas, não só pela ausência das “Olímpias”, mas também porque o perfil dos profissionais foi alterado. Longe vai a década de 60, caracterizada pelo ideal revolucionário. Che e Marx eram estandarte! Hoje, as discussões gravitam em torno do desporto, personagens de novelas, modelos de automóveis...! De política? “FECHE A PORTA! AR CONDICIONADO”!
Hoje, à entrada de todas redacções do mundo encontramos esse aviso. É o mais recente e vem juntar-se ao mais antigo: “PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS ESTRANHAS!”. O mais cassule deles é o “PROIBIDO FUMAR!” Até parece que as redacções de hoje se transformaram em espaço de proibições. Só falta “SILÊNCIO, ESTAMOS A NAVEGAR”. Então, jornalismo não é o contacto com a vida palpitante da rua?!
Já não se fazem profissionais como antes. O consumismo superou o desejo de perseguir a verdade e mudar o mundo. Acabou a utopia. O repórter chega à redacção e esboça satisfação ao confirmar na agenda a ausência do seu nome. E não reclama se não for agendado durante toda uma semana. Fica feliz com isso. Encaminha-se para um computador, consulta o seu correio electrónico. Acessa o MSN e convoca a sua turma para o habitual bate-papo. Tem amigo(a)s e namorado(a)s virtuais e é com estes que ele se empenha em comunicar.
O contacto com o colega real é feito de forma indiferente. O aperto de mão é frio, assim como o olhar. Parece angustiado!
Quando chamado pela reportagem, o repórter recebe a missão. Não faz perguntas, não tem curiosidade sobre o assunto que vai reportar. Não procura por background. Pega na bolsa e embarca na viatura. Ao longo do trajecto, diverte-se a ouvir música e a ver o trânsito caótico da cidade. Nem repara nos buracos que vão surgindo na estrada, no lixo amontoado em cada esquina ou nas brigas comuns de criancinhas por um pedaço de pão. Resultado: chega ao local sem pensar sequer na pauta, que não raras vezes nem lhe foi proporcionada. Vêm depois as perguntas disparatadas: “Como é que a viúva se sente?” “Como o senhor se chama mesmo?” Ou então fica-se pelo evidente ou pelo despropositado: “Está feliz por ter recebido esse prémio?”
Não sabe tirar notas e morre de amor pelo gravador. As apurações ficam barrigudas[4]. Contenta-se com pouco. Não é persistente e não tem ambição. Erra o nome do entrevistado ou da empresa. De volta à redacção, nem sequer consegue dizer ao editor o assunto que cobriu. Enquanto escreve a reportagem, bate papo no MSN, lê, responde e encaminha emails... é incrível a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente. Há quem ainda consiga jogar e atender o telemóvel!!!
Os manuais ensinam que o lead deve ser atraente e capaz de captar a curiosidade do leitor, do primeiro ao último momento. Nada de parágrafos intermináveis. Frases curtas. Ordem directa e voz activa. Como falar em proximidade, se anda a milhas? Agressividade e repercussões nem pensar, isso é coisa doutro tempo. Está relaxado. Começa a matéria de forma frouxa e termina desgraçadamente. Não há sugestão de título! A auto-censura logo o converte em especialista da press house. Galanteia a fonte e o leitor que se dane! – “Graças a Deus, o público não engole qualquer coisa!”
Depois entrega a matéria ao editor e sai. Não quer saber da edição. Dorme descansado com a convicção de ter assinado o seu melhor texto. No dia seguinte vem a surpresa. A matéria não foi publicada. Ou mudou-se o lead ou então o editor preferiu o texto da agência de notícias. Sente-se injustiçado, perseguido. O bolor nasce sobre as relações. “O editor não gosta de mim!”
E outro? É ainda estagiário, mas já anda de ego inflamado, como se fosse um veterano coleccionador de títulos e prémios. O editor queima pestanas a “desminar” a sua matéria. Das 100 sugeridas, aproveita apenas 30 linhas. E faz a “tradução” do texto para português. No dia seguinte, ele diz para o editor que no seu texto apenas foi alterado o título (...).
Chega o mês de Junho. O frio vai aumentar. Agora é que vai hibernar mesmo! O público espera. Como pode o leitor ter notícias sobre o bairro, a cidade e o país, se quem está mandatado para o informar, desconhece até o que se passa do outro lado da rua? Se está mais preocupado em ver fantasmas onde eles não existem? Ou se considera que, por ser jornalista, os demais seres humanos gravitam à sua volta? Prenda ao diploma, a intrepidez dos antigos profissionais, meu caro! Olhe a sua volta! Não há tréguas em jornalismo!
- Chamem o técnico, a Internet caiu!
[1] Treinador brasileiro que esteve ao serviço da selecção angolana de futebol, em 2003. Durante a vigência do seu contrato, a selecção raramente venceu até adversários reconhecidamente mais fracos.
[2] A primeira escola de jornalismo foi fundada em 1908, na Universidade de Missouri. Não obstante, a que alcançou maior fama foi a Garduate School of Journalism da Universidade de Colúmbia, cuja ideia se deve a Pulitzer. Parabéns ISPRA por tornar realidade o sonho de muitos jornalistas angolanos.
[3] MÁRQUES, Gabriel Garcia. Jornalismo: a melhor profissão do mundo.Disponível em http:/www.google.com.br.Acesso em 30 de Abr.2002
[4] Matéria mal apurada
Eram 21 horas do dia internacionalmente consagrado à liberdade de Imprensa. Dois jornalistas, um fumador e o outro não-fumador, reivindicavam cada o seu direito. “Aqui é proibido fumar!”... A tensão subia e ameaçava transbordar. Este artigo nasceu, naquele dia, entre a ameaça e a fumaça.
O fumador iniciava o seu texto, quiçá, abordando o silêncio dos profissionais e dos órgãos de imprensa em relação à data. De facto, é paradoxo propalar falta de liberdade de imprensa, quando no devido dia há apenas bocas soltas, nem debates, nem palestras em locais de trabalho e mercados, nem mesas redondas, etc.
O não-fumador procurava entre os poucos textos disponíveis, o ideal para fechar a edição do dia. Talvez não consiga “vender” uma chamada de capa ao chefe de redacção. “Hoje não há nada. A edição está fraca!” Diz-se como se nada de importante tivesse ocorrido no dia. O fecho reúne em si a tensão, a azáfama e a angústia. Chicotadas psicológicas, Ismael Kurts[1] que não ganha a nenhum adversário, mas, com certeza, recebe o seu salário inteirinho com correcção monetária e tudo. O contribuinte-adepto espera resignado por golos, que ficam nos dribles do labirinto do pensamento. Dirigentes que claudicam com os cortes que rejuvenescem quarentões? A alternativa é fuçar na Net.
Segui a briga a uma distância que permitia não perder detalhes da cena, nem me envolver nela. A briga acabou, tal como os cigarros terminam na borda do cinzeiro: sem fumo, apenas cinza, capaz no entanto de aquecer larvas de furacões adormecidos.
Foi assim, que, de repente, me vi percorrer outros atalhos. Tempos em que as redacções eram campo de batalha, onde fervilhavam ideias, discussões, críticas, humor, anedotas e gargalhadas sob o metralhar das máquinas de escrever. Tempo do jornalismo boémio e romântico, de escritores, advogados e outros sonhadores politicamente engajados. Autodidactas ávidos e devoradores de livros.
«Naquelas redacções de mesa única soava o estribilho monótono:” O jornalista nasce, não se faz”. Não havia computadores. O fumo e o calor faziam parte do cenário. Não havia escola de jornalismo. Como manual de cabeceira era recomendado o livro de um bom escritor (como Balzac) acoplado à imaginação e à criatividade no manejo da língua e à rapidez do dedilhar na azert.»
“Há uns cinquenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo[2]. Aprendia-se nas redacções, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O Jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação, no qual a moral era conservada no seu lugar. Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo o mundo fazia pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redacção para tomar café. Era uma tertúlia aberta, em que se discutia a quente os temas de cada secção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na verdade não o eram[3]”. “Prevalecia então o elemento humano sobre a técnica” (Piedrahita, pág. 89).
Hoje, os tempos são outros. O metralhar das máquinas de escrever é lembrança vaga. O pipocar do teclado dos computadores assenhorou-se do ambiente. As redacções tornaram-se menos barulhentas, não só pela ausência das “Olímpias”, mas também porque o perfil dos profissionais foi alterado. Longe vai a década de 60, caracterizada pelo ideal revolucionário. Che e Marx eram estandarte! Hoje, as discussões gravitam em torno do desporto, personagens de novelas, modelos de automóveis...! De política? “FECHE A PORTA! AR CONDICIONADO”!
Hoje, à entrada de todas redacções do mundo encontramos esse aviso. É o mais recente e vem juntar-se ao mais antigo: “PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS ESTRANHAS!”. O mais cassule deles é o “PROIBIDO FUMAR!” Até parece que as redacções de hoje se transformaram em espaço de proibições. Só falta “SILÊNCIO, ESTAMOS A NAVEGAR”. Então, jornalismo não é o contacto com a vida palpitante da rua?!
Já não se fazem profissionais como antes. O consumismo superou o desejo de perseguir a verdade e mudar o mundo. Acabou a utopia. O repórter chega à redacção e esboça satisfação ao confirmar na agenda a ausência do seu nome. E não reclama se não for agendado durante toda uma semana. Fica feliz com isso. Encaminha-se para um computador, consulta o seu correio electrónico. Acessa o MSN e convoca a sua turma para o habitual bate-papo. Tem amigo(a)s e namorado(a)s virtuais e é com estes que ele se empenha em comunicar.
O contacto com o colega real é feito de forma indiferente. O aperto de mão é frio, assim como o olhar. Parece angustiado!
Quando chamado pela reportagem, o repórter recebe a missão. Não faz perguntas, não tem curiosidade sobre o assunto que vai reportar. Não procura por background. Pega na bolsa e embarca na viatura. Ao longo do trajecto, diverte-se a ouvir música e a ver o trânsito caótico da cidade. Nem repara nos buracos que vão surgindo na estrada, no lixo amontoado em cada esquina ou nas brigas comuns de criancinhas por um pedaço de pão. Resultado: chega ao local sem pensar sequer na pauta, que não raras vezes nem lhe foi proporcionada. Vêm depois as perguntas disparatadas: “Como é que a viúva se sente?” “Como o senhor se chama mesmo?” Ou então fica-se pelo evidente ou pelo despropositado: “Está feliz por ter recebido esse prémio?”
Não sabe tirar notas e morre de amor pelo gravador. As apurações ficam barrigudas[4]. Contenta-se com pouco. Não é persistente e não tem ambição. Erra o nome do entrevistado ou da empresa. De volta à redacção, nem sequer consegue dizer ao editor o assunto que cobriu. Enquanto escreve a reportagem, bate papo no MSN, lê, responde e encaminha emails... é incrível a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente. Há quem ainda consiga jogar e atender o telemóvel!!!
Os manuais ensinam que o lead deve ser atraente e capaz de captar a curiosidade do leitor, do primeiro ao último momento. Nada de parágrafos intermináveis. Frases curtas. Ordem directa e voz activa. Como falar em proximidade, se anda a milhas? Agressividade e repercussões nem pensar, isso é coisa doutro tempo. Está relaxado. Começa a matéria de forma frouxa e termina desgraçadamente. Não há sugestão de título! A auto-censura logo o converte em especialista da press house. Galanteia a fonte e o leitor que se dane! – “Graças a Deus, o público não engole qualquer coisa!”
Depois entrega a matéria ao editor e sai. Não quer saber da edição. Dorme descansado com a convicção de ter assinado o seu melhor texto. No dia seguinte vem a surpresa. A matéria não foi publicada. Ou mudou-se o lead ou então o editor preferiu o texto da agência de notícias. Sente-se injustiçado, perseguido. O bolor nasce sobre as relações. “O editor não gosta de mim!”
E outro? É ainda estagiário, mas já anda de ego inflamado, como se fosse um veterano coleccionador de títulos e prémios. O editor queima pestanas a “desminar” a sua matéria. Das 100 sugeridas, aproveita apenas 30 linhas. E faz a “tradução” do texto para português. No dia seguinte, ele diz para o editor que no seu texto apenas foi alterado o título (...).
Chega o mês de Junho. O frio vai aumentar. Agora é que vai hibernar mesmo! O público espera. Como pode o leitor ter notícias sobre o bairro, a cidade e o país, se quem está mandatado para o informar, desconhece até o que se passa do outro lado da rua? Se está mais preocupado em ver fantasmas onde eles não existem? Ou se considera que, por ser jornalista, os demais seres humanos gravitam à sua volta? Prenda ao diploma, a intrepidez dos antigos profissionais, meu caro! Olhe a sua volta! Não há tréguas em jornalismo!
- Chamem o técnico, a Internet caiu!
[1] Treinador brasileiro que esteve ao serviço da selecção angolana de futebol, em 2003. Durante a vigência do seu contrato, a selecção raramente venceu até adversários reconhecidamente mais fracos.
[2] A primeira escola de jornalismo foi fundada em 1908, na Universidade de Missouri. Não obstante, a que alcançou maior fama foi a Garduate School of Journalism da Universidade de Colúmbia, cuja ideia se deve a Pulitzer. Parabéns ISPRA por tornar realidade o sonho de muitos jornalistas angolanos.
[3] MÁRQUES, Gabriel Garcia. Jornalismo: a melhor profissão do mundo.Disponível em http:/www.google.com.br.Acesso em 30 de Abr.2002
[4] Matéria mal apurada
Eu amo Angola!
Um telefonema inesperado faz reduzir a velocidade do carro e, em escassos segundos, o ponteiro desce de 100 para zero. Eram 15 horas e 30 minutos.
- Tudo bem papai?... Olha papai, eu vou torcer p’ra Angola. Não vou torcer para o Brasil.
Momentaneamente, um remoinho confunde tudo na azáfama do trânsito e seca as águas do Oceano Atlântico, que separam Angola do Brasil. Decanto as ideias, renovo, num longo suspiro, o oxigénio dos pulmões e desligo o rádio.
Era a voz da Anna Júlia que falava a partir do Bairro Benfica, da cidade de Juiz de Fora - Minas Gerais Brasil. Lá bem distante, na cidade do poeta da “Idade do Serrote”, Murilo Mendes, e do presidente Itamar Franco. Não é o Benfica de Luanda, onde coincidentemente eu vivo e que também dista cerca de 30 quilómetros do centro da cidade. O Benfica de Minas fica na Rua Presidente Juscelino Kubicheck.
Os Palancas Negras realizaram jogos amistosos antes do Dia D em que se vão defrontar com a selecção de Portugal. Acompanho os jogos pela Televisão, sofro e no final deixo-me ficar com a bandeira a bailar na mente. Vermelho, o Sangue de nossos Heróis. O Preto, a África, e o Amarelo, as riquezas de Angola.
Foram quatro jogos para a preparação dos Nossos Heróis! Resultado: uma vitória de 5:2 contra um misto de Celle (equipa alemã), 0:2 contra os argentinos, 2:3 contra os turcos e 0:1 contra os americanos. Encolho os ombros e agasalho-me no conformismo.
Mas esse telefonema reacende os ânimos e a tarde se torna colorida muito antes do crepúsculo chegar com os seus lilases. Anna Júlia nasceu no Brasil, tem 6 anos e decide torcer por Angola na Copa, apesar do Brasil também estar lá com todo o seu cordão de estrelas e favoritismo. Anna é filha de pai angolano e mãe brasileira. Ela nunca veio a Luanda, mas sente-se tão angolana, como as meninas que cantam o “ANGOLA AVANTE”.
“Infeliz é a Nação que não tem heróis” escreveu Berlot Brecht na peça Galileu Galileu. Angola tem seus heróis, que encarnam o sentimento mais profundo das suas populações, a sua alegria. Depois de trinta anos de dores e de lágrimas, as feridas abertas pelo conflito no corpo e na alma dos angolanos, ainda não sararam em 4 anos. Só a brisa do tempo encaixará cada partícula no seu lugar e cobrirá as crateras que se abriram na memória. Sabemos que é preciso caminhar, semear amor sobre dor, o bem sobre o mal. Deixemos o bálsamo do amor cicatrizar as nossas chagas.
Ainda se lembram? “Angola é e será por vontade própria…” Essa vontade persiste no sangue de angolanos e de seus descendentes. Angola já não é uma simples nação africana mergulhada numa guerra étnico-tribal, como cansamo-nos de ouvir durante anos.
Por mérito próprio, Angola está na Alemanha entre as grandes nações do mundo. É incrivelmente, a Copa 2006 decorre na Pátria de um dos maiores dramaturgos do Mundo, Brecht. O autor de “Mãe Coragem”, “O círculo de giz Caucasiano”, “Aquele que diz sim e aqueles que diz não”. O homem do Teatro Didáctico e do Distanciamento.
Angola vai enfrentar adversários potencialmente fortes. Com coragem, humildade e paciência vai conquistar o seu sonho. No campo, manterá o distanciamento do favoritismo dos adversários, pois, os jogos são resolvidos no relvado.
Pela primeira vez, Angola está no mundial, tomo finalmente consciência do tamanho do feito. A ficha cai. Eis a realidade! O país vai estar na vitrine do mundo! Quando o apito soar no Domingo toda a Nação terá o coração suspenso e a respiração entrecortada.
Geradores, rádios, pilhas, televisores e todos os meios que permitem acompanhar o espectáculo estão a ser “engatilhados”, diga-se, preparados para o grande momento. O país inteiro vai parar. Cada molécula do tecido vai contaminar-se com o clima de cada lance.
- Filha, obrigado pelo carinho! Vamos torcer juntos por Angola. Viva Angola! - E do outro lado a mesma convicção e firmeza:
- Eu amo Angola, Papai! … Viva Angola!- Viva! – Calmo, com a mente a oscilar entre a alegria e a saudade, retomo a marcha em direcção ao centro da cidade. Enquanto o carro desliza suave sobre asfalto do bairro da Samba, olho triunfante para as obras e o encanto agarra-se ao sorriso.
Viva Angola!...
- Tudo bem papai?... Olha papai, eu vou torcer p’ra Angola. Não vou torcer para o Brasil.
Momentaneamente, um remoinho confunde tudo na azáfama do trânsito e seca as águas do Oceano Atlântico, que separam Angola do Brasil. Decanto as ideias, renovo, num longo suspiro, o oxigénio dos pulmões e desligo o rádio.
Era a voz da Anna Júlia que falava a partir do Bairro Benfica, da cidade de Juiz de Fora - Minas Gerais Brasil. Lá bem distante, na cidade do poeta da “Idade do Serrote”, Murilo Mendes, e do presidente Itamar Franco. Não é o Benfica de Luanda, onde coincidentemente eu vivo e que também dista cerca de 30 quilómetros do centro da cidade. O Benfica de Minas fica na Rua Presidente Juscelino Kubicheck.
Os Palancas Negras realizaram jogos amistosos antes do Dia D em que se vão defrontar com a selecção de Portugal. Acompanho os jogos pela Televisão, sofro e no final deixo-me ficar com a bandeira a bailar na mente. Vermelho, o Sangue de nossos Heróis. O Preto, a África, e o Amarelo, as riquezas de Angola.
Foram quatro jogos para a preparação dos Nossos Heróis! Resultado: uma vitória de 5:2 contra um misto de Celle (equipa alemã), 0:2 contra os argentinos, 2:3 contra os turcos e 0:1 contra os americanos. Encolho os ombros e agasalho-me no conformismo.
Mas esse telefonema reacende os ânimos e a tarde se torna colorida muito antes do crepúsculo chegar com os seus lilases. Anna Júlia nasceu no Brasil, tem 6 anos e decide torcer por Angola na Copa, apesar do Brasil também estar lá com todo o seu cordão de estrelas e favoritismo. Anna é filha de pai angolano e mãe brasileira. Ela nunca veio a Luanda, mas sente-se tão angolana, como as meninas que cantam o “ANGOLA AVANTE”.
“Infeliz é a Nação que não tem heróis” escreveu Berlot Brecht na peça Galileu Galileu. Angola tem seus heróis, que encarnam o sentimento mais profundo das suas populações, a sua alegria. Depois de trinta anos de dores e de lágrimas, as feridas abertas pelo conflito no corpo e na alma dos angolanos, ainda não sararam em 4 anos. Só a brisa do tempo encaixará cada partícula no seu lugar e cobrirá as crateras que se abriram na memória. Sabemos que é preciso caminhar, semear amor sobre dor, o bem sobre o mal. Deixemos o bálsamo do amor cicatrizar as nossas chagas.
Ainda se lembram? “Angola é e será por vontade própria…” Essa vontade persiste no sangue de angolanos e de seus descendentes. Angola já não é uma simples nação africana mergulhada numa guerra étnico-tribal, como cansamo-nos de ouvir durante anos.
Por mérito próprio, Angola está na Alemanha entre as grandes nações do mundo. É incrivelmente, a Copa 2006 decorre na Pátria de um dos maiores dramaturgos do Mundo, Brecht. O autor de “Mãe Coragem”, “O círculo de giz Caucasiano”, “Aquele que diz sim e aqueles que diz não”. O homem do Teatro Didáctico e do Distanciamento.
Angola vai enfrentar adversários potencialmente fortes. Com coragem, humildade e paciência vai conquistar o seu sonho. No campo, manterá o distanciamento do favoritismo dos adversários, pois, os jogos são resolvidos no relvado.
Pela primeira vez, Angola está no mundial, tomo finalmente consciência do tamanho do feito. A ficha cai. Eis a realidade! O país vai estar na vitrine do mundo! Quando o apito soar no Domingo toda a Nação terá o coração suspenso e a respiração entrecortada.
Geradores, rádios, pilhas, televisores e todos os meios que permitem acompanhar o espectáculo estão a ser “engatilhados”, diga-se, preparados para o grande momento. O país inteiro vai parar. Cada molécula do tecido vai contaminar-se com o clima de cada lance.
- Filha, obrigado pelo carinho! Vamos torcer juntos por Angola. Viva Angola! - E do outro lado a mesma convicção e firmeza:
- Eu amo Angola, Papai! … Viva Angola!- Viva! – Calmo, com a mente a oscilar entre a alegria e a saudade, retomo a marcha em direcção ao centro da cidade. Enquanto o carro desliza suave sobre asfalto do bairro da Samba, olho triunfante para as obras e o encanto agarra-se ao sorriso.
Viva Angola!...
Quase amor!
Esquecidos da dor, caminhava descontraído entre as paredes frias da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora-Minas Gerais Brasil, quando, perto das escadas, cruzei com um grupo de meninas que vinha da Faculdade de Pedagogia. Olhei indiscriminadamente para o cacho de cabeças e cabelos, quando da multidão saltaram olhos que cruzaram com os meus. Parei, acalmei o coração descompassado e olhei de soslaio para as estudantes, que barulhentas gargalharam descontraídas.
Suspirei e retomei a marcha amaldiçoando-me por não ter sido capaz de mandar parar aquele grupo de estudantes e retirado do seu seio a dona daqueles olhos que me encandearam, que me confrontaram. É essa timidez, é essa incerteza, que nos faz perder muitas oportunidades na vida! E quantas? Perde-se quando se tem tudo para ganhar.
Entrei na sala e os meus pensamentos perderam-se na aula sobre literatura brasileira. A professora Marisa Timponi, inspirada, falava sobre o autor da “Idade do serrote”, Murilo Mendes. Depois “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, Jorge Amado... Quando falou de poesia... o meu coração voltou a bater acelerado.
Pensei naquela menina, estreita, cabelos amarrados atrás da nuca, olhos cintilantes e um andar de gazela. Nos primeiros dias, ainda pensava nela, mas com o passar do tempo a menina perdeu-se entre bibliografias, fichamentos, resenhas, pautas, reportagens e edições.
Esquecia-me dos seus olhos, quando, por acaso, voltei a cruzar com ela. Vinha da sua faculdade e se dirigia para a Biblioteca Central. Com a coragem a querer fugir-me entre os dedos, saudei-a. Tudo bem? Tudo. Já está na hora? É, né! Estava aberto o canal da comunicação. Apresentei-me e falámos alguns instantes, depois partiu apressada com o rosto banhado por um sorriso morno.
Ao perde-se no horizonte, conferi, numa das páginas do caderno, o número do telefone. Ela é simpática e bonita. Uff... E rejuvenescido, engrenei a primeira a marcha.
Na tarde do dia seguinte, liguei. Ela não estava. Que desilusão! A inquietação salpicou o sono. Sonhei que eu estava com ela a passear nas margens do rio Paraibuna. Com o seu sorriso mal saído da adolescência, jogava pétalas para a corrente e animava-se em vê-las sendo levadas pela água. Acordei agitado. Não! Não! não leva! Ó pai, mas o quê que se passa? Era o Sangueve, apercebendo-se da minha aflição. Nada, pai! Esta merda está difícil! É preciso coragem, pai. E voltei a adormecer.
Noutro dia, voltei a ligar. Era ela! Trabalhava nas horas vagas numa floricultura e morava no Bairro Benfica. Vivia perfumada entre rosas, lírios, margaridas, campanhias e mal-me-queres.
Ainda me lembro. O primeiro encontro foi na Rua Santa Rita. Caminhámos calmamente e num entroncamento parámos para tomar sorvete. Era a primeira vez que ela tomava sorvete de banana. Falávamos sobre várias coisas, enquanto subíamos a Rua Halfeild, vulgo Calçadão. O relógio da Prefeitura marcava 21 horas e a temperatura era de 18 graus. Sentámo-nos num dos bancos do Parque e sonhámos. Quando a beijei, senti o seu corpo tremendo levemente. E o bálsamo do amor irrigou o cérebro e afastou as dores causadas pelos atrasos da bolsa.
O amor afinal é mágico! E na alcova de apaixonados cantávamos com Sandra de Sá a canção “Sozinho”:
Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
E fico ali sonhando acordada, juntando
O antes, o agora e o depois (...)
terça-feira, 27 de maio de 2008
Gabela, uma paixão insaciável
Na bruma das lembranças, emergem os tempos de aluno na Escola Primária número 66, Augusto Gil, na Gabela. Os colegas e as professoras, quantos deles ainda estarão vivos?
Sei que a amável e dedicada professora Fernanda de Matos morrera anos depois de ter saído de Angola. Da Rosalina, minha paixão de infância, jamais ouvira falar. Tenho a obsessão de pensar que ela anda algures e já não se lembre do meu bilhetinho.
Eu ainda me lembro do Rui, do Marciano, do Augusto Neto, do Carlos, Pedro Acácio e sua irmã Joaquina. Juntos desde o pré-Escolar, separamo-nos apenas em 1975, quando estudávamos a 4ª classe. Tinha eu 11 anos. A maioria foi para Portugal.
Trinta e um anos depois do 25 Abril e 30 desde que deixei de ser cidadão português, finalmente viajo para Lisboa. Incrivelmente esperançoso!... Talvez reencontre um ex-colega por aí... Talvez. São esperanças envelhecidas, saudades humedecidas de um coração amolecido pelo cacimbo dos anos!
Sei que a amável e dedicada professora Fernanda de Matos morrera anos depois de ter saído de Angola. Da Rosalina, minha paixão de infância, jamais ouvira falar. Tenho a obsessão de pensar que ela anda algures e já não se lembre do meu bilhetinho.
Eu ainda me lembro do Rui, do Marciano, do Augusto Neto, do Carlos, Pedro Acácio e sua irmã Joaquina. Juntos desde o pré-Escolar, separamo-nos apenas em 1975, quando estudávamos a 4ª classe. Tinha eu 11 anos. A maioria foi para Portugal.
Trinta e um anos depois do 25 Abril e 30 desde que deixei de ser cidadão português, finalmente viajo para Lisboa. Incrivelmente esperançoso!... Talvez reencontre um ex-colega por aí... Talvez. São esperanças envelhecidas, saudades humedecidas de um coração amolecido pelo cacimbo dos anos!
Desarmar é reforçar a confiança
Qual é o perigo de uma arma cujas balas são feitas de folhas de bananeira mascada? Sim, de bananeira!... Depois de mascada, as pequenas bolas eram introduzidas no cano feito com o caule de um tipo de árvore. Com ajuda de uma espécie de vareta de pau, a “bala” era levada até a outra extremidade do cano com cerca de 30 centímetros de comprimento. E de seguida, introduzia-se a segunda bola. Esta, empurrada pela vareta, aumentava a pressão do ar dentro do cano, expulsando a primeira bola. Como consequência, produzia-se apenas um barulhinho e libertava-se uma espécie de fumo. A bala não alcançava mais de 2 metros e o barulho não era ouvido a mais de 20 metros. Era apenas um brinquedo de crianças pobres, que não constituía perigo nenhum. Mas mesmo assim, era proibido.
Quando foi lançada pelas autoridades governamentais a campanha de entrega voluntárias de armamento na posse dos cidadãos, várias lembranças de incidentes inundaram a minha memória.
Lembro-me que até 1974, muitas pessoas desconheciam a existência de tanto tipo de armamento. Compravam fitas de câmara de ar na recauchutagem para fazerem as suas fisgas. Era com elas que caçavam beija-flores, rolas, guendentes e coles.
Na cidade, admirados, espreitavam na montra de uma loja, que comercializava pistolas e caçadeiras. Queriam ter uma arma apenas para caçar perdizes e veados. Mas uma Pressão de Ar “Diana 28” já bastava para caçar rolas e pombos-verdes lá na fazenda.
Mas tudo isso não passava de sonho, porque para comprar uma arma era preciso muito mais do que o simples desejo de possuí-la. Até simples imitações eram proibidas pelos adultos. Ai se te achassem a fazer algo que pelas características se aproximasse a uma arma verdadeira!...
Só depois de 25 de Abril de 1974, é que as crianças, jovens e adultos do meu tempo tomaram contacto com as novas armas trazidas pelos movimentos de libertação. A atracção era grande e a curiosidade fez muitas vítimas:
1. Um jovem saía da lavra com sua enxada, quando achou na berma da estrada um objecto do tamanho de um abacate. Também era verde! Por volta das 19 horas, reuniu a criançada no seu quarto para desmontarem o engenho. Este explodiu na hora matando mais de 5 pessoas. Afinal era uma granada F-1. Sangue e tecidos humanos salpicaram as paredes caiadas da sanzala da Boa-Lembrança e a dor e o luto espalharam-se em bairros do Amboim, como o da Londa, Pange, Culembe, Munguco, Condé e Boa-Entrada.
2. Certo dia, chovia, quando os jovens Tomás e António faziam uma arma de pau, vulgo “mutimba”. Fizeram a coronha e finalmente montaram o cano feito com um tubo de canalização de água. Estava pronta para o primeiro tiro. Introduziram um cartucho de G3 no cano e da janela, Tomás empunhou a arma, apontou para a montanha e disparou. O eco prolongou-se na serra da Londa. Porém a velocidade da agulha percutora acabou perfurando o cartucho explodindo com o cano. Um pedaço de ferro atingiu o ombro direito do atirador. Em poucos segundos, do lado direito do corpo, a camisa e o calção estavam cheios de sangue. O sangue jorrava como numa torneira. Aflita, a aldeia correu na chuva até ao Posto Médico do Pange. Ainda hoje, Tomás queixa-se de dores na região da omoplata.
A lista de incidentes com armamento é enorme e, com certeza, cada um dos ouvintes tem a sua.
Com a paz alcançada a 4 de Abril de 2002, tornou-se injustificada a existência de indivíduos armados sem que para tal estivessem autorizados. As armas devem ser entregues sem qualquer resistência. Então, não é a paz que todos nós queríamos? A paz não se constrói com armas escondidas atrás do armário ou debaixo da cama, nem andar com uma pistola no assento do carro.
Nem sempre estar armado é sinónimo de estar mais seguro. Certo dia, um militar que gostava de andar sempre armado foi assaltado no portão da sua casa no bairro Benfica. Eram 21 horas. Não conseguiu reagir, pois qualquer gesto seria fatal. Mais tarde, os assaltantes foram detidos pela polícia. Valeu a pena, foi melhor assim!
Por outro lado, a posse de uma arma pelo vizinho levanta sempre suspeitas e desconfianças. Nunca se sabe qual é a verdadeira intenção do outro.
Aliás, não é normal vermos gente armadas em cada esquina do bairro ou da cidade. A presença de uma arma indicia sempre uma situação de anormalidade. Entreguemos as armas e desarmemos as nossas consciências. Não é um país normal que todos os angolanos querem construir? Então, as autoridades é que têm a responsabilidade e a obrigação de garantir segurança dos cidadãos. É por aí! Desarmar reforça o amor, a confiança e a concórdia entre os cidadãos!
Ainda estou a vir!
Quando foi lançada pelas autoridades governamentais a campanha de entrega voluntárias de armamento na posse dos cidadãos, várias lembranças de incidentes inundaram a minha memória.
Lembro-me que até 1974, muitas pessoas desconheciam a existência de tanto tipo de armamento. Compravam fitas de câmara de ar na recauchutagem para fazerem as suas fisgas. Era com elas que caçavam beija-flores, rolas, guendentes e coles.
Na cidade, admirados, espreitavam na montra de uma loja, que comercializava pistolas e caçadeiras. Queriam ter uma arma apenas para caçar perdizes e veados. Mas uma Pressão de Ar “Diana 28” já bastava para caçar rolas e pombos-verdes lá na fazenda.
Mas tudo isso não passava de sonho, porque para comprar uma arma era preciso muito mais do que o simples desejo de possuí-la. Até simples imitações eram proibidas pelos adultos. Ai se te achassem a fazer algo que pelas características se aproximasse a uma arma verdadeira!...
Só depois de 25 de Abril de 1974, é que as crianças, jovens e adultos do meu tempo tomaram contacto com as novas armas trazidas pelos movimentos de libertação. A atracção era grande e a curiosidade fez muitas vítimas:
1. Um jovem saía da lavra com sua enxada, quando achou na berma da estrada um objecto do tamanho de um abacate. Também era verde! Por volta das 19 horas, reuniu a criançada no seu quarto para desmontarem o engenho. Este explodiu na hora matando mais de 5 pessoas. Afinal era uma granada F-1. Sangue e tecidos humanos salpicaram as paredes caiadas da sanzala da Boa-Lembrança e a dor e o luto espalharam-se em bairros do Amboim, como o da Londa, Pange, Culembe, Munguco, Condé e Boa-Entrada.
2. Certo dia, chovia, quando os jovens Tomás e António faziam uma arma de pau, vulgo “mutimba”. Fizeram a coronha e finalmente montaram o cano feito com um tubo de canalização de água. Estava pronta para o primeiro tiro. Introduziram um cartucho de G3 no cano e da janela, Tomás empunhou a arma, apontou para a montanha e disparou. O eco prolongou-se na serra da Londa. Porém a velocidade da agulha percutora acabou perfurando o cartucho explodindo com o cano. Um pedaço de ferro atingiu o ombro direito do atirador. Em poucos segundos, do lado direito do corpo, a camisa e o calção estavam cheios de sangue. O sangue jorrava como numa torneira. Aflita, a aldeia correu na chuva até ao Posto Médico do Pange. Ainda hoje, Tomás queixa-se de dores na região da omoplata.
A lista de incidentes com armamento é enorme e, com certeza, cada um dos ouvintes tem a sua.
Com a paz alcançada a 4 de Abril de 2002, tornou-se injustificada a existência de indivíduos armados sem que para tal estivessem autorizados. As armas devem ser entregues sem qualquer resistência. Então, não é a paz que todos nós queríamos? A paz não se constrói com armas escondidas atrás do armário ou debaixo da cama, nem andar com uma pistola no assento do carro.
Nem sempre estar armado é sinónimo de estar mais seguro. Certo dia, um militar que gostava de andar sempre armado foi assaltado no portão da sua casa no bairro Benfica. Eram 21 horas. Não conseguiu reagir, pois qualquer gesto seria fatal. Mais tarde, os assaltantes foram detidos pela polícia. Valeu a pena, foi melhor assim!
Por outro lado, a posse de uma arma pelo vizinho levanta sempre suspeitas e desconfianças. Nunca se sabe qual é a verdadeira intenção do outro.
Aliás, não é normal vermos gente armadas em cada esquina do bairro ou da cidade. A presença de uma arma indicia sempre uma situação de anormalidade. Entreguemos as armas e desarmemos as nossas consciências. Não é um país normal que todos os angolanos querem construir? Então, as autoridades é que têm a responsabilidade e a obrigação de garantir segurança dos cidadãos. É por aí! Desarmar reforça o amor, a confiança e a concórdia entre os cidadãos!
Ainda estou a vir!
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