terça-feira, 21 de agosto de 2012

Língua da morte


Ontem, acabado de chegar a casa, depois das habituais arrelias provocadas pelo trânsito apertado, suspirei e retomei a leitura da véspera:

- Quem nunca quis ter uma casa de sonhos numa colina com o sol filtrado pelos limbos das plantas do quintal e lá no fundo um lago com patos a nadar? Pois é, no sonho todos podem, aliás diz-se que sonhar está previsto em Constituições de todas os Estados. Sim! Todos têm direito de sonhar! Talvez seja esta obsessão que impele uma minúscula semente a germinar rompendo a terra e erigindo o caule em direcção ao Sol.

“Nossa Vila”, “Nosso Lar” e “Bem morar” deixaram para atrás de si um grande remoinho de frustrações e descontentamento, pois foi um sonho que terminou em pesadelo para a grande maioria dos angolanos. Para quem mesmo perto dos 50 anos, ainda anda às voltas com o espinho da casa própria na garganta, sabe o que isso significa para um chefe de família, que tem sob sua responsabilidade o bem-estar e a auto estima da mulher e dos filhos. Por isso, a corrente de solidariedade para com os burlados no caso Grupo Build Angola. Sabe-se o quanto dói o dinheiro ganho com grande sacrifício e a expectativa frustrada de toda a família que ansiava mudar-se para uma nova casa com quarto para cada criança, cozinha espaçosa, quintal, suites, escritório, enfim uma casa com habitabilidade. Mas tudo isso acabou como um simples sonho enfronhado pela dor. Agora entendes?

Ingressou ao grupo dos sem casa própria, logo após atingir a maior idade. Abandonou o doce lar com a esperança de caminhar com os seus próprios pés. Ao desembarcar em Luanda, morou em casa de aluguer. Primeiro, no bairro Prenda, ali bem perto da Oitava Esquadra. Dia e noite deambulava com outros jovens da sua idade a busca de festas para comer, beber e dançar. Para ir ao trabalho descia à pé ao invés de esperar pelo autocarro. Descia pelo areal, apanhava a estrada da Samba, passava pelo Zamba 2 e seguia tranquilo até à Mutamba. Prenda ainda era Prenda e não tinha esse amontoado de chapas, lixo e blocos!

Aos 23 anos, já com a cônjuge mudou-se para a Ilha de Luanda, ali bem perto do Marítimo e da Loja do Povo onde fazia as compras no tempo do célebre Cartão de Abastecimento. A casa tinha apenas um cómodo para o casal e a filha, a primeira de uma lista que supera os dedos de uma mão! Num canto, estava o fogão da Sonangol, adquirido graças a requisição do patrão da esposa, e do aparelho de TV preto-e-branco atribuído a si por ter sido considerado Destacado na Emulação Socialista. Do outro lado, separado por cortina de pano de Congo, estava a cama e duas malas de chapa com roupas. Um fio unindo as duas paredes do ângulo recto, feito a hipotenusa de um triângulo, servia de cabide. É lá onde pendurava os trajes, na sua maioria roupa usada, e outra adquirida em lojas abastecidas pelos Sábados Vermelhos.

Durante a noite, o delírio de prazer alheio chegava através da abertura deixada pela meia parede que separava o cómodo da do vizinho. E sobressaltados, avisados por uma voz masculina do outro lado, sabiam-no: a neblina cairia dentro de pouco tempo.

Na hora do almoço, voltava para casa, ia e vinha com o autocarro nº 28 que ligava a Ilha do Cabo ao Porto de Luanda. O Panorama ainda era Hotel e sobressaia no Cartão Postal da Ilha da Kianda.

Certo dia, uma contrafé bateu-lhe a porta. A vizinha dos delírios da noite e que se exprimia com sotaque francês reivindicava a outra parte da casa. Os fiscais também percebiam francês e acabaram por se entenderem para a sua desgraça.

Na época, os despejos eram frequentes, pressionados por falta de habitação. Requerimentos com denúncias inundavam a Secretaria de Estado da Habitação. Ainda guarda zeloso a cópia de muitos deles pedindo mui respeitosamente que se dignassem a autorizar a ocupação de um imóvel para morar.

Nada! Com a mulher grávida, seis meses depois de se ter mudado para a Ilha, partia errante por Luanda à busca de um novo paradeiro. Poisou novamente no Bairro Prenda e depois foi para o Cassenda. Sempre em casa de aluguer!

No Cassenda, depois das eleições de 1992, o casal dono do apartamento entra em litígio e decidem vendê-lo. Apanhado de surpresa, demanda-se aflito para o bairro Benfica, levando sempre consigo o sonho da casa própria.

Hoje vive no Zango, conformado com a recusa de um banco em conceder-lhe crédito habitacional, pois apontam a idade como condicionante. Com 50 anos idade, teria de pagar o crédito em apenas 10 anos, o que significaria um esforço financeiro que o seu salário não suportaria. Saiu da agência desiludido. O limite de crédito habitação são os 60 anos de idade. A exigência, atrás da qual se escudam os bancários engravatados, é que aos 60 anos deve-se liquidar todas as dívidas com as instituições bancárias. E os anos restantes que se nos acrescentarem são considerados de compensação e neutralizações.

Pronto, já está-se no Zango! Desde que mudou-se por iniciativa própria para o Zango, nos últimos 4 anos converteu-se, de forma inusitada, num verdadeiro fiscal de obras. Conhece de tudo um pouco, inclusive a data de início e as respectivas empreiteiras a quem as mesmas foram adjudicadas. Ainda lembra-se da alegria pueril com que foi acolhida a boa nova. Troços, traços, pregos, buracos, empreiteiras, vala. As câmaras e as manchetes amplificaram o Projecto ainda em maquete. Viu as obras de alargamento da estrada de Viana e as dificuldades encontradas pelo engenheiro para vencer as águas que nasciam por debaixo do pavimento. Não entendia do assunto, era como um médico querer tratar de ensinar a redacção do lead ao um jornalista decano. Mas há polivalentes por aí que alegam possuir experiência para leccionar todas as disciplinas de um curso. Era leigo, mas já construiu uma casa de raiz, numa altura em que o tijolo dominava o mercado de construção civil. Fazia as misturas de cimento e areia sem obedecer a qualquer proporção. Mais cimento para ficar firme! Será que pode ser considerado engenheiro?

Voltemos aos carris. … Acompanhou animado as várias etapas da obra da estrada da Samba, Benfica-Cabolombo. Os seus olhos viram a poeira, que levantada pelos pneus, pairava sobre os limbos das árvores e do capim das bermas da estrada. As obras da Nova Centralidade, do Estádio 11 de Novembro e os vários projectos habitacionais que foram nascendo ao longo da via, feito cogumelos, atraídos pela perspectiva de se ter um pólo de desenvolvimento por perto. Morar na periferia tem-se essa vantagem de saber-se tudo que se passa fora e dentro da cidade.

Angustiado também viu os vários acidentes que passaram a ocorrer com maior frequência à medida que o pavimento era melhorado. Não entendia de engenharia mas tinha uma opinião, mas que raros escutavam. Dizia: Atenção às línguas da morte que existem espalhadas pela cidade. Os retornos vieram substituir as rotundas, tudo devido o aumento do trânsito rodoviário. Mas uma coisa o intriga: Sempre que se realizam campanhas de prevenção rodoviária, às culpas pelo alto grau de sinistralidade é imputada aos motoristas e peões. Alegando excesso de velocidade, imprudência, consumo de álcool etc.

Das línguas da morte nada se falava. Uma boa parte dos acidentes na estrada de Viana e Samba ocorre nos retornos. Aliás, na via da Samba por altura do Morro da Luz, depois de variadíssimos acidentes e vítimas, a empreiteira retornou ao local para reduzir a língua de betão. A noite, as ruas estão escuras e esta língua traiçoeira facilmente se confunde com o escuro. Ao menos que fossem devidamente sinalizadas com reflectores, caso contrário, ainda teremos mais vítimas nesta noite.

Cuidado com a língua da morte, seu beijo pode ser fatal!

Pensamento flutuante


Os pensamentos roubavam-lhe o sono. Acordava cedo e procurava ocupar-se com algo que lhe ajudasse a matar o tempo. E num dia igual aos outros e imbuído de sentimentos que eram a sua rotina, apanhou o autocarro com destino à baixa de Luanda. Eram 10 horas.

No bairro Morro Bento, subiu uma jovem que veio sentar-se ao seu lado. Que sorte! Chamava-se Miquilina Ngueve, natural do Bié, e vivia sozinha num dos bairros de Luanda. E trabalhas? Sim, sou PISCÓLOGA. Sorriu descontraída. Wandalika aceitou com relutância a profissão. PISCÓLOGA! Pelo traje bem poderia ser confundida com uma vendedora ambulante do mercado existente por de trás dos antigos Armazéns Gajajeiras, vulgo Arreiou-Arreiou. Lá o negócio é feito no meio de lama, facto que obriga os clientes a calçarem sacos para não sujarem os sapatos. Mas aceitou, era preciso fazer fluir o diálogo. Vive sozinha por quê? Tio, essa é uma grande história, não vais ter tempo para me escutar. A viagem está quase a terminar. Vais até aonde? Vou à Mutamba. Vou ter tempo, conta!

Wandalika insistiu até que ela decidiu desfazer o novelo da sua história: Eu sou natural do Bié. Lembra do tempo da guerra? … Pois, eu e o meu irmão Catraio viemos para Luanda para fugir a guerra. E os teus pais? Eles ficaram lá. Como? Eles só nos colocaram no avião. Não havia mais lugar, toda a cidade queria vir para Luanda. Eles ficaram e nós viemos! Quantos anos tinham na altura? Eu tinha 13 anos e o meu irmão, nove. Vocês já conheciam Luanda? Não! E como é que foi ao chegarem aqui? Viemos só. Chegamos no aeroporto, descemos e depois fomos andando... Ficamos uma semana naquelas barracas do aeroporto. Durante o dia, ajudava as senhoras a lavar a loiça e à noite ia passear ali perto no Cassequel do Lourenço, depois no Mártires do Kifangondo, no Cassenda e na baixa. E dormiam onde? Dormíamos em qualquer sítio. Ou na barraca ou nas sucatas ou ainda na rua.

Wandalika ficava cada vez mais intrigado. Mas você é formada, podia arranjar um emprego como psicóloga! Ela sorriu numa longa gargalhada. Desconfiado, Wandalika avançou com mais cautela. Aquele sorriso era uma máscara que escondia algo importante. Então você não é formada em Psicologia? Mais ou menos. Como assim? Eu trabalho com pessoas! Pessoas? Sim, pessoas que precisam de ajuda. Ajuda PISCOLÓGICA! Ah, tá! E tens muitos clientes? Muitos doutores, grandes chefes, bosses de verdade, funcionários, kabolas e tudo. Basta ter dinheiro! E quanto ganhas por dia? Depende! Depende do dia! Aos fins-de-semana ganha-se mais, mas uma pessoa fica partida. Mas em que clínica trabalha? Por conta própria! Então você é empreendedora? Mais ou menos. E quais são os teus planos para o futuro? Quero arranjar dinheiro para viajar. P’ra onde? Para ir ver os meus pais. E o teu irmão? Ela baixou a cabeça e entre soluços disse: ele morreu. Lhe mataram num senhor. Por quê?! Ele lavava carro no aeroporto. um boss lhe mandou lavar o carro dele. Eu até lhe vi, quando lhe deram o trabalho. Era já mesmo cliente dele. Todos dia ele lavava e recebia dinheiro à tarde. Certo dia, quando o boss veio encontrou os espelhos não estavam, roubaram. Falou que meu irmão é que roubou. Aí começou a lhe bater, lhe bater, lhe bater. Ele começou a dizer que não era ele, mas o boss continuou a lhe bater. Só lhe deixou quando ele começou a vomitar sangue. Dois dias depois morreu. Não levaram ao Hospital? Fomos até na Maria Pia, lhe deram uma pica e lhe mandaram voltar. Dia seguinte, morreu. A polícia levou o corpo na molga. Como não tinha nenhum documento, assim lhe enterraram na vala! Eu também não tinha condições para lhe enterrar! É muito triste! Sim, agora estou sozinha. Por isso quero ir me m’bora no Kuito. Mas o dinheiro não chega. E não aconteceu nada ao boss? Nada, anda aí! Não está preso? Quem vai lhe prender? Pobre não prende rico! O tio não está ver mesmo a situação?

Os seus olhares se cruzaram. E essa cicatriz na testa? Um tio é que me bateu. Depois de eu lhe atender não queria mi pagar. Eu lhe segui até no carro. E te deu o dinheiro? Não, mas também lhe deixei estrago! Que estrago? Quando ele tentou fugir, eu queria abrir a porta. Ele começou a ofender a minha mãe, eu entrei na janela e lhe segurei no pescoço e começamos a lutar. Na atrapalhação o carro acelerou e foi bater numa pedra. Aonde é que foi isso? Na Ilha…O carro partiu o vidro e começou a sair água quente. Que tipo de carro era? Era preto, desse tipo dos boss. E ele? Heheheheh! Deixou o carro na estrada, só tirou a pasta dele e a chapa de matrícula, depois se meteu na floresta da Ilha. Bem feito! Ele pensa que nós não sofremos! Nosso serviço é chofrimento! Depois há com cada cliente!... E ainda temos de pagar a casa de processo! Com essa doença que anda aí, tamos mal!... E descarregou todo desgosto que carregava num suspiro. É a vida!...

Já perto da Assembleia Nacional, Miquilina perguntou, enquanto se preparava para levantar-se. Gostei muito do tio, tens um sotaque tipo brasileiro. E o tio faz mesmo o quê? Sou desempregado. Hum, mata cassumuna? Afinal era só lata! Com essa roupa, eu já pensei m’bora …! Mas kunanga, não acredito ou és da investigação ou da Igreja Universal?!... Kunanga de primeira!

No Cine 1º de Maio, desceu e num salto desapareceu na multidão de passageiros que desembarcava. Wandalika também desceu do autocarro e, ao caminhar em direcção à Mutamba, lembrou-se do cheiro exalado pelo corpo de Miquilina. Era do perfume barato comprado no mercado Roque Santeiro, adicionado ao cheiro de noites partilhadas na busca de prazeres carnais. Suspirou pensativo. É a vida!

As tentativas de rever a Miquilina foram infrutíferas. Então desacelerou o passo e indolente prosseguiu a marcha sem pressa como se não quisesse chegar ao destino. Estava desempregado e até já chegou a pensar no suicídio, mas o drama de Miquilina impressionava-o. Afinal há gente que está pior do que eu! Quis ir saber do seu curriculum, mas desistiu. Se estivessem interessados o chamariam! Aliás, no dia do contacto a funcionária já o havia alertado. Há poucas hipóteses, pois o Gabinete de Comunicação está em reestruturação. São sempre assim!

Passou atrás do Cine Teatro Nacional e ao tentar atravessar a Rua de Portugal quase foi atropelado por um táxi. Correu, mas ainda foi a tempo de ouvir os palavrões do condutor. Não ligou. Querem me matar aqui! Nem pensar! Malandros!

Incrivelmente mais animado, acelerou o passo e entrou num bar para urinar. Naquela hora, trabalhadores e vagabundos confundiam-se no cenário. Pediu um cigarro e um fino, enquanto bebia reflectia sobre a sua vida. Pediu mais outro e os restantes ficaram por conta de um amigo de ocasião. Ao sabor do diálogo e da cerveja, não viu o tempo passar.

Às 15 horas, agradeceu a gentileza do amigo e encaminhou-se até a Marginal de Luanda. No calçadão, não acreditou nos seus olhos. Como a Marginal está bonita! E ao sabor da tarde, deixou os seus pensamentos a flutuar nas águas da Baía.


Vidas sem fronhas


No cimo do seu orgulho muangolê, sorri: Kupapata, Kuduro, Kaenche, Quinguila, Quilápi…! E admira a força e a facilidade com que o popular consegue introduzir novos termos linguísticos, ou seja neologismos, no vernáculo oficial. Queda-se na empatia de heróis do guetto, como “Nagrelha”, “Dadão” e outros, que transformaram rapidamente o país num gigante e afinado grupo coral:  Moré, moré Moré, moré … Corré, corré, corré, cooooorré!

Espirra e olha de soslaio as pedras e blocos colocados sobre as chapas para segurarem o tecto das tempestades. Todo candidato a Governador de Luanda devia sobrevoar a cidade durante várias horas, antes de aceitar a proposta!

Suspira. Liga o reprodutor e a música suave do octogenário Nga Petelo afaga a alma e dá um outro colorido à sua manhã. O músico, aos 80 anos, prepara a apresentação do seu primeiro disco. É como se a vida começasse aos 80. Bem-haja, antes tarde!

Emerge relutante do sublime! Naquele instante, trava bruscamente para superar um buraco no pavimento e esboça um sorriso ao avistar um outro carro com vidros todos fumados. Essa aí vai passar despercebida. Investe num “noivo mecânico”, ou para passar invisível, como uma ilustre desconhecida.

Afastou esses pensamentos e prosseguiu calmo e indiferente às traquinices dos taxistas, à arrogância dos automobilistas e ao desmazelo dos ambulantes, que fechavam a via com os seus embrulhos.

Desceu paciente até à baixa luandense. Era importante manter a serenidade, pois sabia o que o esperava no guiché da empresa que era obrigado a contactar naquele dia. Era cliente antigo e perdera o número de vezes que fora atendido sempre por aquelas duas funcionárias. Ela eram as donas do espaço. Conheceu-as ainda jovens e esbeltas! Ah, como o tempo foi daninho para aquelas duas criaturas!

Sabia as suas vidas de cor e salteado. Quanta inconfidência! Se ela viajou para o Dubai com o marido, as compras que fez, o hotel onde se hospedou. Toda a empresa e a restante clientela sabiam o que trazia na bagagem para revender à quilápi a todos que desejassem. Os pedidos de noivados e os casamentos em que participara, o cabelo da noiva, a roupa do noivo, o buffet e as censuras sobre a cor do batom, do vestido ou dos sapatos femininas das convivais. Toda a vida andava às claras no guiché, esventrada pela má-língua, sem quaisquer fronhas. 

Aquelas duas há muito eram colegas numa empresa pública na baixa de Luanda. As amicíssimas eram parecidas pelo volume dos pneus na região do abdómen, pela cor da peruca e na lentidão como se locomoviam durante o atendimento. Nunca tinham pressa e eram imunes às reclamações: Aqui não é casa da mãe Joana! O senhor não manda aqui! Se quiser vai passear! Incrível, uma delas chamava-se exactamente Joana!

Não adiantava reclamar, talvez elas tivessem os seus corpos envoltos em colectes protectores contra qualquer perfurante! Nunca se sabe, quem fala assim não é gago! Por isso, a prudência recomendava sobretudo ponderação! Seguro morreu de velho ou de medo?

Quem nunca ouviu falar delas, que também eram conhecidas pela rabugice no atendimento e por isso acumulavam sacos de censuras do público por ficarem a conversar, enquanto deviam trabalhar? Este e outros comportamentos semelhantes que levaram muitas empresas a caíram na falência e, na curva, algumas entregues de quiabo para a outra gestão.

A chegada dos telemóveis agravou ainda mais o sofrimento de quem procura os serviços daquela instituição. Ontem a conversa versava sobre o cônjuge da Joana. Comentavam: Mas um homem que é homem de verdade nem casa própria tem? Uh, a fulana, ela sim, é que se casou de verdade. Tem casa própria e carro novo na garagem. Agora nós, é só esfrega!

Há tanto tempo que estamos a construir a casa mas as obras não acabam. Parece obra de igreja! Quando começamos, eu estava grávida da minha primeira filha! É? Quantos anos tem o seu marido? … JÁ DEU CACHO. Nesta idade ainda vive na casa de renda! É VERGONHOSO! Estou cansada de mudar de bairro todos os anos. A família até pensa que estás a fugir das dívidas. Olha, melhor assim, também há família do marido que é um verdadeiro horror. Só falta uma declaração de guerra. É verdade! Hoje estás aqui, amanhã estás não sei lá aonde! De tanto mudar de casa ainda acabas por chorar óbito sozinha. Pelo menos, não te vão expulsar da casa! Cambadas de ambiciosos, quando trabalhamos eramos só os dois na vida até que a morte nos separasse, mas depois aparecem outros figurões! É verdade, pelo menos nunca vão saber para onde te mudastes. Se não fosse os telemóveis estávamos perdidos no meio urbano! Somos embora ciganos!

Mas o problema é que a mobília não dura por causa das mudanças frequentes. O meu sofá que comprei na última viagem, você nem acredita como ele ficou depois do Coqueiros. Está todo rasgado. Também, do jeito que seguram as coisas, aquilo até parece que estão com inveja. Esses raboteiros sabem o que é boa mobília?

E a outra sorriu. Roboteiro. Raboteiro? Vem de quê, de rabo?... Nem sei. Talvez de robô. Ya, meu marido também disse que vinha da palavra russa rabota, que quer dizer. Trabalha! Imagino os russos a gritarem para o angolanos: Rabota! Rabota! Rabota! Sorriram longamente e fecharam com o gesto de bater as mãos  abertas uma na outra. Hum, até já virei gira-bairro, disse a outra, enquanto colocava os óculos para atender um cliente que lhe havia aproximado a ficha até bem perto do rosto.

Não precisa esfregar-me o tal papel na cara. Eu não sou cega!... O homem ficou calmo, olhou-lhe nos olhos e estendeu-lhe a mão fechada com o punho virado para baixo. E a tempestade evaporou-se numa onde de espumas. Sabia o remédio certo. Ele continuou calmo. Não queria estragar a promessa de não se irritar naquele dia. Aguentou como pôde e finalmente suspirou de alívio quando se viu livre daquelas duas. Mas o seu diálogo sobre a casa de aluguel o perseguiu.

Interessante! Numa cidade em que tem-se dificuldade de se indicar o endereço, porque anualmente mudamos de casa, num verdadeiro nomadismo urbano. Interessante, conhece-se novos lugares, novos vizinhos com seus bons-raros hábitos e maus-copiosos-vícios. Arrastam o saco de lixo escada a baixo, estaciona enviusado fechando as outras viaturas, e quando chamado, manda passeia a buala toda, buzina à meia-noite para abrirem a porta do apartamento no 9º andar. Pára para conversar com o outro automobilista seu amigo e esquece os restantes, rabujando ao ser incomodado. Depois dizem que gente que nasceu na esteira no quimbo é que se comporta assim.

Há mais 30 anos, ou melhor desde os 18 anos que se está na procura angustiada de uma casa condigna para se morar. O fim de cada ano, renova-se a esperança no ano seguinte. E o caso habitação perpetuou-se na agenda das prioridades. Angustia-se, sobretudo para quem aos 50 anos, depois de tantos programas quinquenais, ainda tenha a casa do sonho pendurada no plano.

Casa de aluguel é um fenómeno urbano, porque nas aldeias, quem quer habitação construía com os materiais locais. Tudo que se necessitava estava aí à mão de semear: terra, paus, pedras e capim.

 A conjuntura, marcada pelo êxodo das populações das províncias para Luanda, fruto do conflito, propiciou o aumento vertiginoso da procura por habitações. Assim a década 80 e 90 do século passado foram os mais marcantes no que diz respeito aos despejos administrativos, por falta de documento que legalizavam a posse de determinada habitação.

Inexistem dados estatísticos para fiabilizar essa afirmação, mas há realidades que se constatam sem a frieza dos números. Para quem viveu aquela época na cidade de Luanda, mesmo sem óculos, chegaria à presente conclusão.  A desonestidade ganhou novos e fortes adeptos! 

Certo dia com a ajuda de um amigo obteve informações fidedignas de que o apartamento estava sem qualquer proprietário. Pois o inquilino, vendo-se incapaz de liquidar o aluguel atrasado de vários anos de inadimplência, numa noite saiu sorrateiramente depois de construir a sua casa no bairro da Petrangol. 

O caminho estava aberto. Dia seguinte, fez deslocar uma patrulha. Elaborou-se o requerimento dirigido ao Comissário Provincial de Luanda. Naquela altura, bastava vigiar um apartamento durante uma ou duas semanas, caso não se notasse qualquer presença humana, para que se pudesse despoletar o competente processo de denúncia e consequentemente de despejo.

É assim que a bananeira deu cacho, imbondeiro sumo e gelado, mas ele ficou a espera. E como cigano continua a cantar:

 Hoje tô aqui/amanhã ali/Benfica, Cacuaco/ não tenho endereço/não Zango não/se quiser espera/na porta do Camama! Viva sem fronhas/Nem amortecedores

Viva os ciganos urbanos!

FIM DO MITO


Era sempre assim. Seguíamos tranquilos a rotina das nossas vidas humildes, como o rio Mazungue faz o seu percurso, descendo silencioso o mesmo leito de antigamente.

Lá em casa, a mesa farta se enchia de algazarra nas horas das refeições, mas quando a estiagem minguava a colheita, o prato de funge e de feijão tornavam-se comuns para toda a miudagem. Era a melhor forma para distribuir o pouco que se tinha na dispensa. Os adultos vigiavam cada colherada, sendo a desonestidade no encher a colher ou no comer apressado entulhando a boca de alimentos, punidas com censura ou com a suspensão temporária de voltar ao prato até que os demais recuperassem o atraso. Quem fosse último, lavaria os pratos, porém, apesar da fome, poucos aceitavam essa empreitada, saltando antes de ser declarado comilão.

Dezembro de 1973. Ainda fervilhava a saudade do paladar dos pratos feitos com folhas de mandioqueira, de abóbora e rama de batata. Na fome, as folhas de gindungo e mamoeiro viravam também alimento.

Foi na busca da sobrevivência, que meu pai acordou cedinho, aprontou a sua moto vermelha de marca Floret e partiu. Passou na Boa-Entrada, desceu o morro da Giraul e passou pelas salinas com destino às Cachoeiras da Binga, ali perto do Novo Redondo (actual Sumbe). Na bagagem amarrada no suporte com fitas de borracha, levava sal para a carne de prováveis presas. Ao chegar, com a sua arma de bala 375 embrenhou-se na profundidade da mata dominada por gordos embondeiros e cactos altos.

Semanas depois, vimos uma carrinha a aproximar-se da nossa casa. Na carroçaria, estava sob a lona, a perna e o braço de uma pacaça. Perfilados, esperamos sobressaltados. O condutor era-nos estranho. Mal o carro parou, abriu-se com vigor a porta do pendura. Era o meu pai!

Contrariamente ao que era normal, todos ficaram assustados, pois ele trazia a cabeça envolta em ligaduras ensanguentadas. Tremi. Minha mãe, correu com os braços abertos na sua direcção. Abraçou-o e preocupadíssima quis saber logo o que havia ocorrido ao seu amor. Sorrateiro, olhou-nos com carinho e a mornes do sorriso que trazia no rosto, amainou a tortura da espera.

Com certeza, pensou-se logo em acidente de motorizada, mas não. Na ausência dos telemóveis de hoje, a notícia tardava a chegar ao destinatário. E se ele jamais tivesse voltado a casa?

Diante da impaciência da curiosidade, depois de beber a água de jatona (lata de um litro transformada em copo), contou animado as suas peripécias.

Numa tarde, depois de ter perseguido uma manada por mais de dez quilómetros, num vale, avistou uma pacaça solitária a pastar. Mastigava calmamente. Parou e olhou à volta desconfiada. A brisa farfalhava a vegetação. O caçador, com respiração suspensa, rastejou sobre o capim verde. Acomodou a coronha no ombro direito e fez a pontaria. Premiu o gatilho calmamente e a agulha percutora veloz atingiu o cartucho. A explosão cortou o silêncio da floresta, despertando bichos adormecidos ou interrompendo as carícias que a embriaguez do entardecer propiciava.

O animal surpreendido pelo disparo, correu desnorteado. Rapidamente, o caçador se levantou e aproximou-se de um embondeiro. Afastou a folhagem com o cano e pé-ante-pé, aproximou-se do local, onde antes se encontrara o animal a tomar a sua última refeição. No rasto, apenas as marcas dos cascos, na hora do arranque precipitado em prol da vida.

Cinco metros depois do local, confirmou a sua pontaria sempre infalível. A pacaça havia sido atingida, mas teve ainda força para fugir.

Com atenção redobrada e a arma desengatilhada, continuou minuciosamente a perseguição. Depois de 20 metros, o rasto inverteu para a esquerda descrevendo a letra U. Com o coração aos pulos, parou e olhou desconfiado para os lados, foi exactamente naquele instante que a pacaça ferida partiu para a desforra, atirando os seus mais de 500 quilogramas contra o caçador.

Este instintivamente saltou feito uma mola antes comprimida e agarrou-se ao ramo de um arbusto. O chifre do animal atingiu as suas nádegas, na sequência o corpo foi projectado para cima e a cabeça atingiu os espinhos do ramo do pau-ferro.

Há cinco metros, a pacaça, ofegante, preparava um novo assalto, quando o caçador, depois de apanhar a arma fez um novo disparo, atingindo a testa do animal.

Meu pai era um grande herói. Era a imagem de um homem forte, corajoso e valente diante do qual nada era impossível. Mesmo ferido gravemente na cabeça, ainda sorria.

Cresci com essa imagem masculina depositada no subconsciente até que em 1976, ao entardecer, ele recebeu a notícia sobre algo que havia ocorrido com a sua mãe, Lemba Zongo. Papá, está chorar por quê?

A avó havia morrido de repente na localidade da Gangula, quando regressa da lavra. Meu pai e minha mãe choraram juntos. Ela enxugava as lágrimas com o pano. Mamã, é quê? Não respondeu, mas perguntou-me entre lágrimas: tens fome?... Eu disse que não, mas mesmo assim ela fez o funge, serviu para mim e continuou a chorar.

Então, desamparado, também comecei a gritar acelerando as minhas lágrimas. Assim, ficou abandonado pela primeira vez o almoço. A refeição é agradável, quando tomada em boa companhia.

Eu na minha inocência apenas chorava, mas não entendia, o motivo pelo qual estava aquele homem, que era meu ídolo, com os olhos cheios de lágrimas.

Então se desfez o mito segundo o qual os homens nunca choravam. No berço, se inaugurava um ciclo de lágrimas que apenas terminava com o apagar da luz da vida. Ao nascer, com o primeiro suspiro, uma criança normal chora, caso contrário os adultos solícitos com palmadinhas nas nádegas obrigar-lhe-iam a fazê-lo. E se mesmo assim o recém-nascido se mantivesse em silêncio, um mundo de preocupações invadiriam os pais e os demais adultos.

Para a criança com a sua angélica fragilidade, o choro é importante, pois passa a funcionar como um sinal de alarme estridente que alerta os pais de alguma anormalidade. O grito desesperado da fome pelo leite ou mesmo a reclamação pela humidade das fraldas descartáveis, cuja promessa da impermeabilidade para as 24 horas consecutivas são apenas publicidade. Essa que desde a ágora vende ilusões.

Aos 12 anos, termina a infância e é desse período de que tenho mais saudade, talvez porque tinha mais tempo para brincar e sonhar. Quando se é criança até as lágrimas possuem sabor que a língua interceptava no seu trajecto descendente.

Eis a lição das crianças que fica para os adultos: bebé que não chora não mama. Mas se não houver leite e não tiver dentes, o melhor é comer matete, para enganar fome.

Os adultos também choram, por mais variados motivos. Eu, no dia 31 de Agosto de 2012, quero chorar. Quero chorar de amor por Angola. Quero chorar de alegria, pois com o meu voto quero contribuir decisiva e definitivamente para a paz, para o aprofundamento da reconciliação nacional e para a construção de uma sociedade desenvolvida assente na solidariedade social e na justiça. Com a urna nunca se brinca!


Curiosidades do meu caçula


Naquele tempo, por essa altura, um grupo de contratados caminhava curvado sob o peso do saco de café cereja. Alguns cantavam entre murmúrios uma canção na língua do planalto, para disfarçar o esforço, enquanto outros transportavam numa das mãos a catana ou um aparelho de rádio de marca Philips. Nos altifalantes destes aparelhos feitos de madeira ou plástico, aos borbotões, saia música da Rádio Lobito com seu Joaquim Viola. O sol, na hora da saudade, espreitava entre folhas e galhos de gigantes mulembeiras. Seria um cenário lindíssimo, paradisíaco, se não contasse com personagens nativas muito tristes, sofridas.
Uma vez ao voltar da escola, com os livros e a bata no saco de plástico, encontrei um colono baixo, gordo e barrigudo cercado por vários contratados esfarrapados e com olhares terrosos. O ngueta gritava e gesticulava sem parar: Cambadas de calcinhas e vadios!
Negueta? Não, Ngueta, o branco! Creio, que o patrão estava muito chateado com algo que tinha corrido mal. Por isso vociferava contra aquela gente humilde que refugiava o olhar pesaroso para o solo coberto de poeira vermelha. Passei medroso, mas ainda vi o patrão a esbofetear um dos contratados antes de subir na carrinha de marca Peugeot de cor cinzenta. E partiu deixando poeira sobre o pobre coitado estendido na berma da estrada. Se desfez em lamúrias a roda de companheiros que antes o cerca. Alguém apanhou e mastigou folhas de goiabeira e colocou a pasta sobre a ferida aberta por uma pedra. E toda a aldeia lamentou a violência do patrão, mas ao anoitecer fechou a porta de medo para evitar que o sono fosse cortado por qualquer imprevisto.
Aos ouvidos da aldeia chegavam boatas segundo os quais os colonos cortavam as cabeças dos negros para depois as utilizarem nas máquinas de descasque de café. E muita gente acreditava ao ponto de decifrar vozes humanas entre os ruídos do motor.
Mas por que razão tanta gente não dava uma queda naquele patrão? Se fosse nós agora!...Tens razão, meu filho! Com certeza, eram muitos contratados, eram muitos braços e pernas, mas tinham nas várias cabeças o medo da reacção da administração portuguesa. O colono estava sozinho aí naquele lugar, mas tinha atrás de si toda uma máquina de repressão treinada para combater qualquer desobediência. Muitos tentaram no auge do desespero, jogar-se contra o patrão, mas também muitos morreram na sequência. Por isso, eis no doce pôr-do-sol, aquela tela de humilhação e subserviência. Daí a razão do 4 de Janeiro, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março de 1961.
Li outro dia um poema que falava dos contratados, eles sofriam muitos. Basta ler Sagrada Esperança, ou os poemas de António Jacinto como “Monangambé” ou ainda  de outros escritores como Jofre Rocha no livro “Assim se fez Madrugada”, para nos apercebemos do sofrimento pelo qual passaram os nossos antepassados. Aliás, até bem recentemente havia um filme que retractava a realidade dos negros com muito realismo. Mandingo! Era um filme sobre a exploração da mão-de-obra escrava nas américas. Passou na televisão nos anos oitenta e, nos cinemas, ficou muito tempo em cartaz. Também ali no Tivoli, quando ainda os filmes eram a grande atracção para os casais de namorados nas tardes de domingo. Muita gente não conseguia acabar de ver o filme, pois ficava revoltada ao rever o sofrimento de um ser humano só pelo facto de ter uma cor de pele diferente. Os espectadores se identificavam com o personagem negra, no caso o Mandingo, que depois de espancado violentamente era assassinado. Era uma cena horripilante. Não eram só os filmes, também muitas telenovelas mostravam exactamente o quanto os negros sofreram e sofrem ainda hoje no mundo por causa da discriminação racial.
Um homem só por ser branco dava-se o direito de assassinar uma outra negra. O homem é mesmo lobo do próprio homem. O homem é o único ser que mata o seu semelhante. O leão não come leão igual. Veado não come veado. Mas homem come homem! É verdade, mata e come! Agora já podes perceber quanto risco corre a vida. Não é pura ficção, é realidade ficcionada. "Lupus est homo homini non homo", como escreveu Plauto. Foi essa dura realidade que fez nascer Zumbi dos Palmares, Mandume, Luther King, Agostinho Neto, Mandela, Paiva Domingos da Silva e tantos outros.
É a vida. Mas saiba que vidas fragilizadas pela pobreza se tornam muito mais vulneráveis? Mas falas sempre da pobreza. O que é ser pobre? Depende da perspectiva, mas no essencial a pobreza significa incapacidade de alguém obter o fundamental para si e sua família puder viver feliz. Alguém que passe fome por não ter alimento, que não tenha emprego que lhe proporcione uma renda que o sustente, que esteja desprovido de uma casa condigna para morar, que tenha falta de assistência médica, falta de acesso à educação de qualidade. Alguém que não consuma água potável e energia eléctrica é mais do que pobre, é miserável! Por isso o Governo criou um Programa de luta contra a pobreza.
A tua aldeia é sempre referida com tanta saudade como se fosse o melhor lugar do mundo. O avô era rico, tinha dinheiro e boa casa? O meu pai e a minha mãe trabalhavam a terra de onde retiravam o sustento para toda a família. Cultivavam milho e feijão que constituíam a base da alimentação da família. Também cultivavam café, palmeira de dendê e algodão para aumentar as receitas que serviam para comprar roupa, pagar propinas na escola, medicamentos e outros bens essências. A nossa casa era enorme e feita de adobes e coberta de chapa de zingo. Tinha uma sala grande com uma mesa cercada por muitas cadeiras, pois nós eramos muitos irmãos. Ainda viviam connosco alguns sobrinhos. Aquilo era um quartel com várias casernas. Os rapazes tinham o seu quarto e as meninas também. E um armazém onde se guardava tudo. Desde milho, mandioca, ferramentas, balanças, café e tudo o necessário. Esta era a área de logística da nossa casa. A casa continua lá abandonada no meio do capim. A cozinha era separada da casa principal. O edifício da cozinha tinha três divisões. Um era para arrecadação de material de apoio, como pilão, catanas, canguichi, ou seja pau que é utilizado para socar ou pisar o milho e a kizaka, e outros materiais afins. Num outro lado, era o quarto da avó Lemba. Nossa casa não tinha luz nem água. A luz era de candeeiro a petróleo e a água nós íamos buscar na nascente com sangas e canecos (recipientes feitos de chapa pelo serralheiros da época). Era água pura. Não tínhamos casa de banho. As necessidades eram feitas no capim. Que isso, papá? Cavávamos com a enxada e depois tapávamos. Ah, pensei! Depois fez-se uma latrina.
Falas tanto dela. Quem era a avó Lemba? Avó Lemba era a mãe do meu pai. Sabes que o meu pai era o primeiro filho da Avó Lemba. Avó Lemba era de meia altura e tinha a pele muito clara. Se fosse hoje com essa febre das cores… Mas não, era negra como nós e trabalhava no campo. Ao cair da tarde, regressava com a sua enxada amarrada às costas e fumava o seu cachimbo. Ainda vejo-a a contar histórias do seu tempo. Contava que certo dia os colonos vieram com aviação para matar todos os negros por serem bandidos. Toda a aldeia ficou apavorada. Ela não falava em datas. Eu perguntava, mas ela apenas contava o medo que sentia ao ver as armas dos brancos. 
Não consigo imaginar a vossa vida, sem água, sem luz e sem canal Panda. O pai diz que por essa altura terminava o ano lectivo. Nas férias as crianças faziam o quê? Muita coisa, meu filho! Pai, não tem fotografia de quando eras criança? Não consigo te imaginar criança! Nem eu! Havia umas fotos a preto e branco, onde nem eu mesmo me reconhecia de tão magro feio que era.
Eu cresci desconhecendo a existência real da televisão. Num dos livros de leitura vinha uma ilustração que diziam ser de um televisor. Era um aparelho enorme suportado por quatro pernas. Rádio só chegou lá em casa na véspera da independência. Não sentíamos necessidade. Tínhamos outras preocupações. Se frequentássemos à escola no período da manhã, à tarde, ao chegar a casa, depois do almoço, tínhamos que pegar a catana ou a enxada para ajudar os nossos pais na lavoura. À noite, fazíamos os trabalhos escolares e depois ficávamos à volta da fogueira a ouvir estórias dos adultos. Dormir depois do almoço, nem pensar! Tínhamos tempo para brincar, construir brinquedos, jogar futebol, tomar banho no rio e sonhar.
Sonhar? Sim! Sonhar de olhos abertos com um mundo onde as crianças corriam atrás de borboletas de várias cores em jardins com muitas flores.
Queria aprender a fazer carros de lata! Há muita lata jogada na cidade. Boa ideia!...  A luz veio! Papá, quero ver Panda!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MEMÓRIA DOS 35 ANOS DE ANGOLA

Um breve e arrepiado suspiro marca o corte difuso entre o real e sonho. Na minúcia do desdobrar dos óculos para melhor enxergar a palavra escrita, o ultimar do reordenamento das vivências translúcidas nas nervaduras da memória.
Um olhar esticado na picada do tempo e bem lá no fundo está o seu berço, uma aldeia ornamentada pelo verde dos cafezais, banhada pelo rio Mazungue e cercada por montanhas. É lá onde nasceu e cresceu correndo tresloucado atrás de borboletas coloridas.
A notícia sobre o desabrochar dos Cravos da Primavera de Abril de 1974 foi recebida tardia e por poucos, mas não sem alegria. Em grupo, os colonos agora falavam baixinho e olhavam à volta desconfiados! Falavam de um tal Spínola, que usava camuflado e um monóculo para ver o novo mundo em convulsão! Uma nova cena: MFA, Costa Gomes, Mário Soares, Almirante Rosa Coutinho e General Silva Cardoso!
Os nativos, a maioria composta por camponeses e operários humildes, cobriram-se de alguns receios no raiar de um novo dia. - Talvez seja algo efémero! Pois não acreditavam na queda do edifício de Salazar e Caetano. E na sua ignorância secular, antes de adormecer, rezaram e procuraram esquecer a inquietação da véspera. Queriam seguir seu caminho, como o rio Mazungue faz conformado o seu trajecto.
Mas o amanhecer cobriu os olhos de surpresa. Nas paredes da cidade, em letras vermelhas, encontraram escrito: Viva o MPLA! Abaixo o Colonialismo! A Luta Continua! A Vitória é Certa”. Semana seguinte, vieram os cartazes e panfletos: Agostinho Neto, o de boné e óculos, Savimbi, o de barbas, Holden Roberto, o de óculos escuros. A partir dos posters pregados nas paredes, os seus olhos seguiam os transeuntes.
As bandeiras e os comícios e a euforia geral. A delegação do MPLA - UM SÓ POVO! UMA SÓ NAÇÃO - instalou-se no bairro da Aricanga, numa casa cercada de cafezeiros.
A UNITA - KWACHA ANGOLA - instalou-se defronte à antiga oficina de automóveis do Amboim e ao lado do Bar Estrela, no Bairro Cateco, a uns metros do quartel do exército português. A FNLA - ANGOLA OYÉÉ – Liberdade e Terra! Primeiramente, escolheu a pedra da cadeia e depois as instalações do quartel colonial. Tempos de resgate da auto-estima, tempos de sonhos e de liberdade! Cada um escolhera o seu. Cada um o seu critério.
Alguns jovens ingressaram nas FAPLA (MPLA) e foram receber treino no CIR “Sangue do Povo”, no Assango. Queriam ser kwembas, SOLDADOS, mas os treinos eram duros. O alinhamento da formatura era feito com tiros. Era preciso coragem! As canções militares mobilizavam as aldeias! “Quero, quero ser soldado ai-iáiá…quero ser soldado! Com esta farda, aprender a marchar e com as armas lutaremos contra a opressão!”
Os programas radiofónicos conquistam audiência. “De longe ouvi aquele nome inesquecível dos filhos de Angola...Valódia, Valódia tombou em defesa do povo angolano...” assim cantava Santocas. Morre também o comandante Nelito Soares! A dor desce país adentro. A morte do Russo, o homem das motos da Gabela, comove a população local. Russo foi atropelado intencionalmente por um colono, quando estava estacionado. Aiué, Pedro Benje!
E finalmente o que muitos temiam, o tiroteio. Arma G3 e a cartucheira cobrindo a cintura, a Pepechá (arma de disco) e as Sterlings. E as explosões das bazukas! E as correrias!
Na guerra da Gabela, do lado do MPLA, falava-se da presença do Comandante “Incansável”, Sidónio, António Paulino, Urbano de Castro, David Zé e Sabata. Os heróis usavam farda castanha e chapéu à cowboy. As crianças já não eram meninos, viraram pió e imitavam os adultos.
– Arrastou comandó, bate o pé esquerdo! Uma travagem!...
A moda era montar comités e ter mutimbas, armas de madeira, para defender a aldeia. E os acidentes não faltaram. Tomás, um adolescente de 15 anos, feriu-se gravemente na omoplata direita, depois de ter feito um disparo com a sua arma artesanal. A velocidade do percutor perfurou o cartucho e os gases da pólvora fizeram explodir a câmara de combustão. Um estilhaço da chapa atingiu o adolescente. Chovia, mas o sangue salpicou o capim do caminho. Os acidentes multiplicaram-se e enlutaram famílias. Um jovem achou uma granada F1, quando regressava da lavra. Posto em casa, reuniu a criançada no seu quarto, para desmontarem o objecto estranho. Ele e algumas crianças morrem na explosão. Sangue e tecidos humanos salpicaram as paredes caiadas do quarto. A dor estendeu-se a bairros como Culembe, Manda-fama, Pange, Munguco, Nova-Ereira e Londa. Era prenúncio da guerra generalizada que faria jorrar ainda muito mais sangue de irmãos angolanos. Os portugueses, a maioria partiu desesperada deixando tudo para trás! Depois um novo medo chega do Sul. Os sul-africanos invadem o território nacional e traçam Luanda como meta. Passam pela Huíla, Benguela, Lobito e Novo Redondo! As populações recuam aflitas na esperança de salvar a vida! Os invasores atingem as margens do rio Keve ou Kuvo e sentem pela primeira vez o sabor acre de ser alvo da pontaria alheia.
Era Outubro de 1975. Faltavam escassos dias para o 11 de Novembro, o dia da proclamação da independência! Subia a intensidade dos bombardeamentos! Mas os canhões de 88 milímetros dos blindados AML-90 não conseguiram dobrar a defesa da outra margem do rio e às zero horas de 11 de Novembro, as populações do Pange reuniram-se todas defronte ao Comité de Acção para hastear a bandeira Nacional. Era preciso esticar um fio feito antena para melhorar a recepção do sinal da Rádio Nacional.
Aguardaram ansiosos sob o descompasso do coração, até ouvirem entre os ruídos o Hino de Angola Independente. No Norte, a FNLA fez a sua festa. No Planalto, a Unita também! Cada um cantara o seu hino. Não era o “Heróis do Mar!”
No Amboim, era o “Angola Avante!” E a bandeira vermelha e preta foi subindo. A emoção seguia a mesma frequência! Ambos foram subindo, subindo até atingirem o ponto mais alto do mastro de bambu. Abraços, gritos e lágrimas. Tiros feitos foguetes riscaram a noite nebulosa e a alegria perpassou Angola de norte a sul! Estamos independentes! Viva a Dipanda ! Viva a liberdade!
Ao amanhecer, olhos sonolentos insistiam em não dormir e a voz rouca esforçava-se em gritar mais alto ainda, talvez quisesse buscar no grito a bênção dos deuses ancestrais pela tamanha proeza: a independência tão sonhada, tão desejada, tão sofrida e tão esperada por gerações sucessivas de angolanos!
Tinha 12 anos, o seu pé pequeno calçava botas nº 42 e um uniforme verde cobria o corpo franzino. Empunhava uma arma de madeira e guardava um sonho: o de ser um dia militar e poder defender a pátria independente! 11 de Novembro de 2010! Trinta e cinco anos depois, eis-nos aqui corporalizando o devaneio de infância numa Angola que ser quer em paz e reconciliada! E ao percorrer o país, o perfume da paisagem faz gerar novos sonhos! E um sorriso morno banha o rosto: Angola é um país lindo! Vamos caminhar de mãos dadas para construir a nossa felicidade. O horizonte é o espelho de novos desafios!
- Valeu a pena a independência?
- Sim! Quem duvida, desconhece o sabor da palavra Dignidade!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Fucik, prémios e jornalistas!

Prólogo: Jornalista debate-se no pântano, quando mais se mexe mais se afunda!

LARGO JULIUS FUCIK! Na baixa luandense, irreverentes e frondosas mulembeiras recusam a conformidade da esquadria humana e caminham para o meio do asfalto. Não temem sequer os automóveis endiabrados. De dia, sob a sombra, muita gente afaga seu próprio destino. A noite, morcegos disputam frutos e humanos paixões. O vento da noite vence a força de gravidade e dissemina o sentimento de liberdade mundo afora. O raiar do sol vence as trevas!
PRAGA! Era uma primavera incomum, a de 1943. “Cem vezes fui aqui espectador do meu próprio filme, mil vezes lhe segui os pormenores. Agora vou tentar explica-lo. E se o nó corredio da forca me apertar o pescoço antes de terminar, ainda ficarão milhões de homens para o completarem com um happy end”. Assim escreveu Fucik antes da sua morte aos 8 de Setembro de 1943.
Sob o silêncio da sua voz, outras vozes se ergueram entoando revigoradas as mesmas canções!
Conterrâneo de Franz Kafka, Fucik nasceu a 23 de Fevereiro de 1903. Filiado ao partido comunista checoslovaco, foi preso no dia 24 de Abril de 1942 e condenado à morte por um tribunal de Berlim.
Chileno Pablo Neruda em sua memória disse estarmos a viver uma época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples ...Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade, mas de um construtor da liberdade e da paz...»(10).
O marxismo, que desmascarou o capitalismo e previu seu velório sob responsabilidade do proletariado disciplinado e organizado, ruiu. O movimento operário comunista internacional entrou em colapso. Mas perenes continuam os ideias de liberdade e de justiça social. E são esses ideais que, como utopias de Saint Simon, mobilizaram milhares de cidadãos na luta contra a opressão e o despotismo. Milhares tombaram na luta renhida pela defesa da vida.
Como Che, para a maioria da juventude, Fucik continua vivo entre os que, no mundo inteiro, fizeram do jornalismo a profissão da sua grande paixão! Seu último trabalho, a “REPORTAGEM SOB A FORCA”, sobreviveu às masmorras. Nela, Julius narra passo a passo as intempéries passadas na prisão. A tortura e a morte! “Com certeza já não vou ter possibilidade de escrever. Fica aqui, portanto, o meu último testemunho”.
E o seu testemunho feita reportagem, continua nas vitrinas do mundo inteiro. Tem maior gratificação que isso?...
Rituais, fazem emergir a lembrança do feito heróico. Concursos e prémios sustentam a existência na necessidade de distinguir os que se salientam dentre os demais: Galardão aos jornalistas (...) Azulai, Candembo, Luísa Fançony, Ismael e Sanhanga. O prémio Maboque anima a classe. Acaba sendo o pico mais alto nas celebrações do dia internacional dos jornalistas.
Por isso a expectativa é grande! À partida todos os profissionais dos órgãos de comunicação nacionais são candidatos ao galardão. O sinal que indicia, na véspera, o facto de estar na lista dos seleccionados, é o convite para a Gala. Se estiver convidado, o cheiro do prémio está por perto. A possibilidade de vencer, faz desenterrar velhos projectos, alguns há muito adiados. Trinta mil dólares fazem bem a qualquer um, sobretudo quando se é jornalista. Enquanto se aguarda pelo dinheiro investido em jogos que se tornaram moda em Luanda, como o Pentágono! Apesar do dinheiro, sei-o que o melhor prémio mesmo, é saber que o seu trabalho está sendo seguido e seu esforço reconhecido.
Cada Nação tem seus heróis, cada disputa um vencedor! Os prémios não garantem excelência, mas rejuvenescem vontades! Valeu a pena!
Mas a cada edição do Prémio, algumas vozes discordantes se fazem ouvir! Um dos aspectos questionados está nos critérios. Um prémio único de jornalismo é incapaz de atender a peculiaridade de órgãos de todos os órgãos de comunicação. Julgar uma reportagem em TV e outra feita em jornal ou rádio é algo muito difícil. Pois, cada um dos órgãos tem a sua especificidade. Jornal é escrita, Rádio voz e Tv imagem. Julgar um diário de cobertura nacional e internacional com um Semanário deve ser algo penoso. E as novas Revistas? Tudo é joio? Como julgar, por exemplo, o feito de um jornal diário que conseguiu neste ano ser publicado em Luanda e na Europa simultaneamente. Critérios, critérios.
O prémio Pulitzer de jornalismo, um dos maiores do mundo desde 1917 é um exemplo. Administrado pela Universidade de Columbia, é outorgado anualmente para trabalhos em 21 categorias nos campos de jornalismo, fotografia, reportagem, literatura, música e teatro.
Para o nosso caso, é chegado o momento de procurar apoios para a criação de um prémio nacional. Aliás, o Ministério da Comunicação e o Sindicato de Jornalistas devem coordenar acções nesse sentido. Assim teríamos um prémio que entre outras categorias teria de contemplar:
- Categoria de impressos (Jornais e revistas)
- Categoria Rádio (reportagem)
- Categoria Televisão (reportagem, edição e imagem)
- Categoria Fotojornalismo (imagem)
- Categoria Jornalismo Político
- Categoria Jornalismo Económico
Assim, os riscos de misturar alhos e bugalhos seriam bem reduzidos!



OBS: Texto publicado em 2005 no Jornal de Angola sob a rubrica "Atalhos da Utopia"