quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MEMÓRIA DOS 35 ANOS DE ANGOLA

Um breve e arrepiado suspiro marca o corte difuso entre o real e sonho. Na minúcia do desdobrar dos óculos para melhor enxergar a palavra escrita, o ultimar do reordenamento das vivências translúcidas nas nervaduras da memória.
Um olhar esticado na picada do tempo e bem lá no fundo está o seu berço, uma aldeia ornamentada pelo verde dos cafezais, banhada pelo rio Mazungue e cercada por montanhas. É lá onde nasceu e cresceu correndo tresloucado atrás de borboletas coloridas.
A notícia sobre o desabrochar dos Cravos da Primavera de Abril de 1974 foi recebida tardia e por poucos, mas não sem alegria. Em grupo, os colonos agora falavam baixinho e olhavam à volta desconfiados! Falavam de um tal Spínola, que usava camuflado e um monóculo para ver o novo mundo em convulsão! Uma nova cena: MFA, Costa Gomes, Mário Soares, Almirante Rosa Coutinho e General Silva Cardoso!
Os nativos, a maioria composta por camponeses e operários humildes, cobriram-se de alguns receios no raiar de um novo dia. - Talvez seja algo efémero! Pois não acreditavam na queda do edifício de Salazar e Caetano. E na sua ignorância secular, antes de adormecer, rezaram e procuraram esquecer a inquietação da véspera. Queriam seguir seu caminho, como o rio Mazungue faz conformado o seu trajecto.
Mas o amanhecer cobriu os olhos de surpresa. Nas paredes da cidade, em letras vermelhas, encontraram escrito: Viva o MPLA! Abaixo o Colonialismo! A Luta Continua! A Vitória é Certa”. Semana seguinte, vieram os cartazes e panfletos: Agostinho Neto, o de boné e óculos, Savimbi, o de barbas, Holden Roberto, o de óculos escuros. A partir dos posters pregados nas paredes, os seus olhos seguiam os transeuntes.
As bandeiras e os comícios e a euforia geral. A delegação do MPLA - UM SÓ POVO! UMA SÓ NAÇÃO - instalou-se no bairro da Aricanga, numa casa cercada de cafezeiros.
A UNITA - KWACHA ANGOLA - instalou-se defronte à antiga oficina de automóveis do Amboim e ao lado do Bar Estrela, no Bairro Cateco, a uns metros do quartel do exército português. A FNLA - ANGOLA OYÉÉ – Liberdade e Terra! Primeiramente, escolheu a pedra da cadeia e depois as instalações do quartel colonial. Tempos de resgate da auto-estima, tempos de sonhos e de liberdade! Cada um escolhera o seu. Cada um o seu critério.
Alguns jovens ingressaram nas FAPLA (MPLA) e foram receber treino no CIR “Sangue do Povo”, no Assango. Queriam ser kwembas, SOLDADOS, mas os treinos eram duros. O alinhamento da formatura era feito com tiros. Era preciso coragem! As canções militares mobilizavam as aldeias! “Quero, quero ser soldado ai-iáiá…quero ser soldado! Com esta farda, aprender a marchar e com as armas lutaremos contra a opressão!”
Os programas radiofónicos conquistam audiência. “De longe ouvi aquele nome inesquecível dos filhos de Angola...Valódia, Valódia tombou em defesa do povo angolano...” assim cantava Santocas. Morre também o comandante Nelito Soares! A dor desce país adentro. A morte do Russo, o homem das motos da Gabela, comove a população local. Russo foi atropelado intencionalmente por um colono, quando estava estacionado. Aiué, Pedro Benje!
E finalmente o que muitos temiam, o tiroteio. Arma G3 e a cartucheira cobrindo a cintura, a Pepechá (arma de disco) e as Sterlings. E as explosões das bazukas! E as correrias!
Na guerra da Gabela, do lado do MPLA, falava-se da presença do Comandante “Incansável”, Sidónio, António Paulino, Urbano de Castro, David Zé e Sabata. Os heróis usavam farda castanha e chapéu à cowboy. As crianças já não eram meninos, viraram pió e imitavam os adultos.
– Arrastou comandó, bate o pé esquerdo! Uma travagem!...
A moda era montar comités e ter mutimbas, armas de madeira, para defender a aldeia. E os acidentes não faltaram. Tomás, um adolescente de 15 anos, feriu-se gravemente na omoplata direita, depois de ter feito um disparo com a sua arma artesanal. A velocidade do percutor perfurou o cartucho e os gases da pólvora fizeram explodir a câmara de combustão. Um estilhaço da chapa atingiu o adolescente. Chovia, mas o sangue salpicou o capim do caminho. Os acidentes multiplicaram-se e enlutaram famílias. Um jovem achou uma granada F1, quando regressava da lavra. Posto em casa, reuniu a criançada no seu quarto, para desmontarem o objecto estranho. Ele e algumas crianças morrem na explosão. Sangue e tecidos humanos salpicaram as paredes caiadas do quarto. A dor estendeu-se a bairros como Culembe, Manda-fama, Pange, Munguco, Nova-Ereira e Londa. Era prenúncio da guerra generalizada que faria jorrar ainda muito mais sangue de irmãos angolanos. Os portugueses, a maioria partiu desesperada deixando tudo para trás! Depois um novo medo chega do Sul. Os sul-africanos invadem o território nacional e traçam Luanda como meta. Passam pela Huíla, Benguela, Lobito e Novo Redondo! As populações recuam aflitas na esperança de salvar a vida! Os invasores atingem as margens do rio Keve ou Kuvo e sentem pela primeira vez o sabor acre de ser alvo da pontaria alheia.
Era Outubro de 1975. Faltavam escassos dias para o 11 de Novembro, o dia da proclamação da independência! Subia a intensidade dos bombardeamentos! Mas os canhões de 88 milímetros dos blindados AML-90 não conseguiram dobrar a defesa da outra margem do rio e às zero horas de 11 de Novembro, as populações do Pange reuniram-se todas defronte ao Comité de Acção para hastear a bandeira Nacional. Era preciso esticar um fio feito antena para melhorar a recepção do sinal da Rádio Nacional.
Aguardaram ansiosos sob o descompasso do coração, até ouvirem entre os ruídos o Hino de Angola Independente. No Norte, a FNLA fez a sua festa. No Planalto, a Unita também! Cada um cantara o seu hino. Não era o “Heróis do Mar!”
No Amboim, era o “Angola Avante!” E a bandeira vermelha e preta foi subindo. A emoção seguia a mesma frequência! Ambos foram subindo, subindo até atingirem o ponto mais alto do mastro de bambu. Abraços, gritos e lágrimas. Tiros feitos foguetes riscaram a noite nebulosa e a alegria perpassou Angola de norte a sul! Estamos independentes! Viva a Dipanda ! Viva a liberdade!
Ao amanhecer, olhos sonolentos insistiam em não dormir e a voz rouca esforçava-se em gritar mais alto ainda, talvez quisesse buscar no grito a bênção dos deuses ancestrais pela tamanha proeza: a independência tão sonhada, tão desejada, tão sofrida e tão esperada por gerações sucessivas de angolanos!
Tinha 12 anos, o seu pé pequeno calçava botas nº 42 e um uniforme verde cobria o corpo franzino. Empunhava uma arma de madeira e guardava um sonho: o de ser um dia militar e poder defender a pátria independente! 11 de Novembro de 2010! Trinta e cinco anos depois, eis-nos aqui corporalizando o devaneio de infância numa Angola que ser quer em paz e reconciliada! E ao percorrer o país, o perfume da paisagem faz gerar novos sonhos! E um sorriso morno banha o rosto: Angola é um país lindo! Vamos caminhar de mãos dadas para construir a nossa felicidade. O horizonte é o espelho de novos desafios!
- Valeu a pena a independência?
- Sim! Quem duvida, desconhece o sabor da palavra Dignidade!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Fucik, prémios e jornalistas!

Prólogo: Jornalista debate-se no pântano, quando mais se mexe mais se afunda!

LARGO JULIUS FUCIK! Na baixa luandense, irreverentes e frondosas mulembeiras recusam a conformidade da esquadria humana e caminham para o meio do asfalto. Não temem sequer os automóveis endiabrados. De dia, sob a sombra, muita gente afaga seu próprio destino. A noite, morcegos disputam frutos e humanos paixões. O vento da noite vence a força de gravidade e dissemina o sentimento de liberdade mundo afora. O raiar do sol vence as trevas!
PRAGA! Era uma primavera incomum, a de 1943. “Cem vezes fui aqui espectador do meu próprio filme, mil vezes lhe segui os pormenores. Agora vou tentar explica-lo. E se o nó corredio da forca me apertar o pescoço antes de terminar, ainda ficarão milhões de homens para o completarem com um happy end”. Assim escreveu Fucik antes da sua morte aos 8 de Setembro de 1943.
Sob o silêncio da sua voz, outras vozes se ergueram entoando revigoradas as mesmas canções!
Conterrâneo de Franz Kafka, Fucik nasceu a 23 de Fevereiro de 1903. Filiado ao partido comunista checoslovaco, foi preso no dia 24 de Abril de 1942 e condenado à morte por um tribunal de Berlim.
Chileno Pablo Neruda em sua memória disse estarmos a viver uma época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples ...Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade, mas de um construtor da liberdade e da paz...»(10).
O marxismo, que desmascarou o capitalismo e previu seu velório sob responsabilidade do proletariado disciplinado e organizado, ruiu. O movimento operário comunista internacional entrou em colapso. Mas perenes continuam os ideias de liberdade e de justiça social. E são esses ideais que, como utopias de Saint Simon, mobilizaram milhares de cidadãos na luta contra a opressão e o despotismo. Milhares tombaram na luta renhida pela defesa da vida.
Como Che, para a maioria da juventude, Fucik continua vivo entre os que, no mundo inteiro, fizeram do jornalismo a profissão da sua grande paixão! Seu último trabalho, a “REPORTAGEM SOB A FORCA”, sobreviveu às masmorras. Nela, Julius narra passo a passo as intempéries passadas na prisão. A tortura e a morte! “Com certeza já não vou ter possibilidade de escrever. Fica aqui, portanto, o meu último testemunho”.
E o seu testemunho feita reportagem, continua nas vitrinas do mundo inteiro. Tem maior gratificação que isso?...
Rituais, fazem emergir a lembrança do feito heróico. Concursos e prémios sustentam a existência na necessidade de distinguir os que se salientam dentre os demais: Galardão aos jornalistas (...) Azulai, Candembo, Luísa Fançony, Ismael e Sanhanga. O prémio Maboque anima a classe. Acaba sendo o pico mais alto nas celebrações do dia internacional dos jornalistas.
Por isso a expectativa é grande! À partida todos os profissionais dos órgãos de comunicação nacionais são candidatos ao galardão. O sinal que indicia, na véspera, o facto de estar na lista dos seleccionados, é o convite para a Gala. Se estiver convidado, o cheiro do prémio está por perto. A possibilidade de vencer, faz desenterrar velhos projectos, alguns há muito adiados. Trinta mil dólares fazem bem a qualquer um, sobretudo quando se é jornalista. Enquanto se aguarda pelo dinheiro investido em jogos que se tornaram moda em Luanda, como o Pentágono! Apesar do dinheiro, sei-o que o melhor prémio mesmo, é saber que o seu trabalho está sendo seguido e seu esforço reconhecido.
Cada Nação tem seus heróis, cada disputa um vencedor! Os prémios não garantem excelência, mas rejuvenescem vontades! Valeu a pena!
Mas a cada edição do Prémio, algumas vozes discordantes se fazem ouvir! Um dos aspectos questionados está nos critérios. Um prémio único de jornalismo é incapaz de atender a peculiaridade de órgãos de todos os órgãos de comunicação. Julgar uma reportagem em TV e outra feita em jornal ou rádio é algo muito difícil. Pois, cada um dos órgãos tem a sua especificidade. Jornal é escrita, Rádio voz e Tv imagem. Julgar um diário de cobertura nacional e internacional com um Semanário deve ser algo penoso. E as novas Revistas? Tudo é joio? Como julgar, por exemplo, o feito de um jornal diário que conseguiu neste ano ser publicado em Luanda e na Europa simultaneamente. Critérios, critérios.
O prémio Pulitzer de jornalismo, um dos maiores do mundo desde 1917 é um exemplo. Administrado pela Universidade de Columbia, é outorgado anualmente para trabalhos em 21 categorias nos campos de jornalismo, fotografia, reportagem, literatura, música e teatro.
Para o nosso caso, é chegado o momento de procurar apoios para a criação de um prémio nacional. Aliás, o Ministério da Comunicação e o Sindicato de Jornalistas devem coordenar acções nesse sentido. Assim teríamos um prémio que entre outras categorias teria de contemplar:
- Categoria de impressos (Jornais e revistas)
- Categoria Rádio (reportagem)
- Categoria Televisão (reportagem, edição e imagem)
- Categoria Fotojornalismo (imagem)
- Categoria Jornalismo Político
- Categoria Jornalismo Económico
Assim, os riscos de misturar alhos e bugalhos seriam bem reduzidos!



OBS: Texto publicado em 2005 no Jornal de Angola sob a rubrica "Atalhos da Utopia"

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DE VOLTA À BOA-ENTRADA

A Associação dos Naturais e Amigos da Boa-Entrada (C.A.D.A) realiza entre os dias 13 e 15 de Agosto de 2010 a 3ª Excursão à aquela localidade situada no município do Amboim província do Kwanza-Sul.
Com partida prevista para às 8 horas de sexta-feira, 13, a concentração dos excursionistas será no Bairro Benfica, em Luanda, nas imediações do Supermercado Nosso Super. Durante a estadia na antiga sede da Fazenda Boa-Entrada, os naturais e amigos irão realizar a Assembleia para eleição do Presidente e dos demais órgãos da Associação e participarão de actividades culturais e desportivas.

MEMÓRIA - Em tempos áureos, a Companhia Angolana de Agricultura (CADA) tinha uma área de 14 mil 944 hectares de café. Era conhecida como "A CADA das mil produções". A dinâmica de trabalho que ali se desenvolvia deu à antiga fazenda o papel de pivot no desenvolvimento da economia angolana. As províncias do Kwanza-Norte, Kwanza-Sul, Uíje e Bengo juntas ainda não ultrapassam hoje as cifras de produção cafeícola apresentadas pela CADA nos seus velhos tempos.

A semente da construção da CADA foi lançada em 30 de Junho de 1919, data em que se constituiu a Companhia Fabril e Pastoril de Benguela Velha.
O proprietário, Bernardino Alves Correia, a partir de Porto Amboim foi tirando terras aos nativos para construir a 11 de Novembro de 1920 a Companhia do Amboim, que mais tarde se viria a chamar Companhia Angolana de Agricultura (CADA). Porém, Bernardino Correia, que exportava café para os EUA, Inglaterra e Alemanha, vê-se num repente impossibilitado de vender o café, o que lhe causou graves problemas financeiros.
Em 1927, Bernardo Correia, ante as dificuldades de tesouraria, decide então vender a Companhia Angolana de Agricultura a um grupo de belgas da empresa Alé e à Société Financier de Cachot. Em 1939, início da II Guerra Mundial na Europa, a Bélgica é ocupada militarmente pela Alemanha e toda a actividade política, administrativa, económica e financeira fica paralisada, o que afecta as propriedades dos belgas na CADA.
Os novos proprietários passaram a controlar e a construir a Boa Entrada/CADA, expandindo a produção do café e suas actividades.
Estes proprietários decidem, cinco anos depois, isto é, em 1944, vender a propriedade, altura em que se conclui a ponte das cachoeiras.
O governo português faz uma publicação para a venda da empresa, comprada pelo Banco Espírito Santo e pela editora Guedes de Portugal.
A partir de 1949 tornam-se donos de toda a extensão agrícola da CADA e a produção de café em 1950 aumenta para cerca de sete mil e quinhentas toneladas.


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domingo, 18 de julho de 2010

Cavaco medi-a-dor!

Cavaco Silva desembarcou ontem em Luanda. A cidade acordou calma na expectativa do encontro da lusofonia. Os espinhos da descontinuidade são polifonias de uma realidade que se procuram ajustar e harmonizar.
Edifícios e guindastes cobrem a linha do horizonte. Cidade está agitada no esforço de reconstrução. É o recuperar do tempo perdido em conflito entre irmãos desavindos. A casa está em obras e lentamente regressa à normalidade.
Cavaco Silva e Durão Barroso! Eram mais jovens! Vejo-os nos idos anos 80 a chegarem e a partirem com a esperança para o fim da guerra entre a Unita e o Governo. Na ângutia das esperas, confundiram-se com a própria esperança. E a confiança no mediador foi expressa a 31 de Maio de 1991 em Portugal com a rubrica do Acordo de Bicesse.
Cavaco é amigo de Angola! Cavaco MEDI-A-DOR!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Adeus ao Danquá no último Comboio de Caxias!



Nos dias de aulas eu, Chume, Danquá e Serafina desembarcávamos em Alcântara e subíamos a Calçada das Necessidades. Sonhávamos e tecíamos o rumo futuro das nossas carreiras e países. Ao subir o morro, da minha Angola a visão sempre assente no consenso de que é preciso trabalhar cada vez mais afincadamente para aprofundar a reconciliação e a democracia, a paz e a construção de infraestruturas. Incentivar o exercício livre da opinião como factor geoestratégico. A ruptura com o ciclo de unanimidades e conformismos como fórmulas do determinismo do destino de nações africanas pobres e sem um futuro. - Temos de andar rápidos por razões de sobrevivência! Uns diziam sim e outros diziam não. Era preciso a aprender a estar de acordo, como nos ensinou Brechet.
Ao chegar ao Instituto, juntávamo-nos aos demais colegas do Curso. Cada um tinha o seu país, mas o sonho era comum: aproveitar o conhecimento disponibilizado pelo Instituto de Defesa Nacional de Lisboa para ajudar a concretização do sonho de felicidade de milhares de compatriotas.
O triste é saber que morreu, na Quinta-feira passada, em São Tomé e Príncipe o amigo e colega Fernando Danquá. Deixou pela metade o seu sonho! É um momento de muita dor e consternação. Calou-se o nosso sorriso, emudeceram as nossas conversas, uma cratera de dor se abriu no caminho.
Sua voz se sobrepõe ao ruído da velocidade do comboio de Caxias sobre os carris e as calemas entoarão sua sinfonia de enleio feito trilha sonora das nossas esperanças.
Acabou o Verão.O inverno permanecerá em nossas almas e as lágrimas expressarão a dor, o inconformismo e a impotência! É penoso perceber que parte de nós se foi com a morte do amigo Danquá, mas permanecerá insepulto o nosso sonho e as nossas boas lembranças!
Que Deus o tenha!


LEGENDA DA IMAGEM: Foto de Fernando Danquá, auditor do IDN e ex-ministro da Defesa de São Tomé e Príncipe, tirada na Ilha dos Açores em Abril de 2010 durante a deslocação do CDN10.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

NOSSO BEM, NOSSO MAR!

A vida, na sincronia com a história e a cultura, é feita de eventos carregados de simbolismo, que se tornam correias de uma cadeia de transmissão que interlaçam o passado, presente e o devir de gerações inteiras.
Os mitos se reactualizam e permanecem prenhes de sentido modelando atitudes e comportamentos de indivíduos e sociedades, graças ao papel semiótico dos rituais na sua revalorização e actualização diante de metamorfoses e desafios. Sem estes, aqueles se desvaneciam no percurso sinuoso do tempo e apagar-se-iam da memória das geraçãos depositárias que, assim não poderão transmitir os conhecimentos acumulados aos seus sucessores.
Através de cerimónias, danças, celebrações, orações, sacrifícios, os mitos perpassam as relações interpessoais, familiares e institucionais.
O 10 de Julho se inscreve na memória colectiva como a data da criação da Marinha de Guerra Angolana, enquanto Ramo das Forças Armadas. Foi o dia em que um punhado de jovens imberbes concluiu o primeiro curso de formação que os habilitou a integrar as primeiras tripulações dos Navios de patrulha herdados da Armada Portuguesa.
Eram parcos os conhecimentos científicos sobre a Arte Naval. Eram quase impíricos os gestos no manuseamento dos equipamento de bordo.
Na lição do provérbio segundo o qual o seguro morreu de velho, no mar a navegação era quase sempre costeira. Sem sonda acústica operacional, incaucos encalhariam em dunas e rochas submersas que povoam o mar misterioso.
Mas foram tempos de muita euforia e entrega, marcados por um contexto revolucionário que mobilizava e animava a sociadade para a defesa armada da pátria.
Mais tarde com quadros bem treinados, a Marinha foi equipada com as lanchas torpedeiras, lanchas de desemparque e as porta-mísseis.
Todos se entregavam de corpo e alma para um projecto comum, o de patrulhar as águas nacionais contra a infiltração do inimigo, a pirataria, a pesca, o narcotráfico, o tráfico de seres humanos, o contrabando e a imigração ilegal. Era preciso garantir a segurança da navegabilidade e o exercíco da actividade económica e a soberania do Estado angolano no mar e rios. Não se olhava ameios. Não se olhava a sacrifícios, não se mediam os esforços no remar a barca. Até se esqueciam o esticar das horas e a dor da fadigae da distância.
O amor amaina qualquer tempestade! O amor por Angola. O Amor pela Pátria. O amor pelo povo. O Amor à Marinha!
E no remoinho do percurso da memória centenas de marinheiros deixaram as suas marcas no projecto que cresceu ao sabor das estações. A todos eles, a nossa sentida homengem e gratidão por terem feito parte desse desafio e deixado com sacrifício a sua pedra no grande edifício. Trinta e quatro anos depois, eis-nos aqui, reunidos numa enorme família de mãos dadas para o engrandecimento do projecto iniciados a 10 de Julho de 1976.
E nas tensões das cordas que nos amarram ao cais do projecto de uma Marinha forte, gritemos em uníssono:
Viva o 10 de Julho!
Com mais trabalho, disciplina e amor, reedifiquemos a Marinha de Guerra Angolana!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cristóvão deixa um rasto de boas lembranças


Ano 2000! O ponteiro das horas, no seu rodopio estonteante, completava as exaustivas 24 voltas do dia, mas os jornalistas, empenhados em dar à estampa a primeira versão do novo projecto do jornal, não relevam o cansaço do esticar da jornada de trabalho. Queriam experimentar a agradável emoção de ver as páginas fresquinhas a circular logo de manhãzinha empurrados pelo pregão de jovens e dinâmicos ardinas luandenses.
A conversa animada salpicada por um humor fino versando sobre as mais variadas questões do quotidiano eram o remédio para descontrair e recarregar os ânimos. Ou descontrair os músculos faciais com suculentas gargalhadas! Não havia censura nem auto censura. E a melodia suavizava as tensões e amainava a alma para o resto do troço sinuoso do fecho, num momento em que o mês atingia o dia 45.
- Se não pagaram hoje, pagam amanhã, se amanhã não pagarem, a única certeza é que irão pagar.
José Cristóvão tinha sempre certezas e humor diante de dificuldades e de incertezas. Até sabia de todos os resultados dos nossos Palancas: A nossa Selecção se não ganhar empata, se não empatar, perde.
Aceitava todos os desafios e enfrentava-os com coragem e valentia. Era um verdadeiro combatente temperado nas fileiras das Forças Armadas de Libertação de Angola.
Na sua humildade indisfarçável, desfiava amor ao jornalismo e amizade e lealdade para com os seus camaradas, a quem aptou chamar por “Granda Vingarista”. Brincava, sorria e circulava em todas a editorias. Seus desabafos eram feitos com sinceridade e apego aos superiores interesses da classe e da Nação. Zeloso, desconhecia espaços proibidos, intrigas, inimigos ou grupinhos. O seu único estandarte era o do Jornal de Angola. Era daqueles que arregaçavam as mangas todos os dias para pensarem o jornal e fazerem funcionar a rotativa. Dialogava, negociava, conciliava, perdoava e reconciliava e consolova.
Atencioso para os jovens jornalistas a quem prestava ajuda ao engatinhar nos leads do jornalismo, sua voz inundava a redacção ao relembrar os grandes nomes da música urbana de Angola: David Zé, Artur Adriano, Urbano de Castro e ultimamente a nova versão da música de Prado Paim “Zezé gui bekelé monami…”.
Com a sua morte, se calou a voz das nossas canções comuns que serviram de trilha sonora no compasso da marcha de todos os dias.
E tudo acabou! Ontem, José Cristóvão foi a enterrar no Cemitério da Santana. Directores, jornalistas, fotógrafos, paginadores, amigos e funcionários do Jornal marcaram presença. O inconformismo e a resignação se revejam num cenário onde o olhar perdido sobre o horizonte coberto de sepulcros, se acha prenhe do vazio difícil de preencher.
A nova campa recebe rosas, dálias, lírios e malmequeres. E ao refazer o caminho do regresso, deixando para trás o corpo inanimado do companheiro e amigo com quem se partilhou momentos agradáveis na Redacção, cada um experimenta um ambiente ainda mais pesaroso.
Enquanto uns partem para a casa do falecido, outros persistem incrédulos e ficam na entrada do cemitério a ruminar agradáveis lembranças. Talvez aguardam em vão pelo regresso do Cristovão-Camarada. Entre os protagonistas destaque para Kizunda, António Paulo, Honorato, Cruz, Tchitata, Cavumbo, Teixeira, Meireles. Salvador, Luisa, Cassoma… E no rescaldo do percurso profissional de José Cristóvão, o reiterar do reconhecimento das suas qualidade humanas e profissionais: Granda Homem!
No dia em que o editor José Cristóvão foi a enterrar eis que um outro infortúnio bate novamente a porta do Jornal: morre o fotógrafo Pedro Salvador. Mais dor, mais lágrimas, mais lembranças! E perto das 13 horas, ocorre a dispersão do grupo. Um longo suspiro antecede a partida. A vida nos reserva muitas surpresas! E a imagem de Cristóvão e a de Salvador ficam congeladas na memória como películas delicadas de um evento inesquecível.
Adeus camaradas! E obrigado pela vossa amizade e generosidade!


LEGENDA DA IMAGEM:
José Cristovão (3º a contar da direita para a esquerda), no município do Wako Kungo, Kwanza Sul, acompanhado pelo brasileiro Raimundo Lima, Augusto Alfredo, um câmara da TPA e quadros de nacionalidade israelita que trabalham no Projecto Aldeia Nova. À foto é do jornalista Cândido Bessa.