domingo, 14 de março de 2010

Silêncio!



Uma criança
Na esquina
Sem amparo
Adultos passam
Sem pejo
MEDO baila
Nas ruelas escuras

sábado, 6 de março de 2010

Última Primavera!



Ainda era menino quando procurava decorar as quatro estações do ano. Na minha aldeia, depois do Verão, na inocência da idade corria eufórico atrás das folhas amarelas e dos frutos do Outono. No inverno, era o Presépio que mexia a rotina da criançada, que procurava na sua pobreza aconchegar o Menino Jesus que havia nascido para salvar o mundo do Pecado!
Depois, veio o vendaval e acabou com o Verão, Outono, Inverno e Primavera! As estações encolheram-se: tempo Seco e Chuvoso. Mas na reminiscência, as folhas ainda cobrem o chão atapetado de amarelo.
Com esses pensamentos, desembarquei na Avenida Marquês Pombal e caminhei até ao destino! Chovia, num Inverno que os europeus consideram o mais rigoroso dos últimos seis anos. E os estragos da Madeira são eloquentes!
Cheguei ao destino às 6H30 e na fila, entre sotaques de africanos, europeus do leste, asiáticos e sul-americanos, olhava com enleio a chuva que cai de mansinho.
Naquele dia, acordei cedo, nem deixei o despertador disparar. Aliás, a ligação da esposa e a mensagem da filha desejando parabéns pelo aniversário, foram madrugadoras. Que bom! Precisava chegar primeiro para a renovação do Visto de Residência em Portugal. Era Estrangeiro.
Enquanto aguardava, divertia-me em descobrir a nacionalidade de cada um deles. Ouvia e olhava, olhava! Perscrutava sobretudo a língua e o sotaque! A tarefa não foi difícil para a maioria deles. Chineses, ucranianos, senegaleses, guinienses, malianos se exprimiam na sua língua de origem. Português era apenas a ponte para unir falantes de outras línguas. Eu era o 4º na fila. Havia decifrado a origem de quase todos eles. Onde tivesse dúvida procurava confirmar!
- Desculpa, o senhor é mesmo da onde?
Chegou uma senhora. Aproximava-se das 8 horas. Esperei que ela falasse. De onde era ela? Angola? Moçambique? Cabo-Verde e Guiné-Bissau, não!
Esperei! Quando ela quis saber o lugar que ocupava na fila, consegui ver a silhueta da realidade cultural que o véu do silêncio escondia. Mas era insuficiente! Solução.
- A senhora é de Angola?
– Não, sou de S. Tomé.
Sorri contrariado! Perdi o jogo. Para o alívio, a porta se abriu e os estrangeiros em Portugal alinharam-se para a renovação dos papéis que garantia-lhes a permanência legal no espaço europeu.
Trinta minutos depois, estava tudo resolvido e parti apressado para o Instituto, onde cheguei antes do início do primeiro tempo. Mas no fim da aula, ocorre o inusitado! A primavera desabrocha, explode com as suas pétalas, seus coloridos, perfumes e borboletas.
A Turma ergue-se e canta parabéns a você! Todos os gestos e olhares absorvem-me. Saio da penumbra: era o dia do meu aniversário! Longe da pátria, eu estava radiante pela surpresa! No convés da Fragata desenhada sobre o bolo, os abraços, os beijos e desejos firmados de longos anos de vida!
Como eles descobriram a data do meu nascimento? E não tive dúvidas! Inconfidência! A vizinha de carteira, Lénia Godinho era a cúmplice de um momento sublime que se retém no altar da memória. Eu já não era mais estrangeiro, era apenas um cidadão de Angola, que em cada esquina de Portugal tinha alguém com quem partilhar lembranças, cultura, história e futuro.
Ainda caminhava nas nuvens, quando hoje o telefone toca. Era um amigo português de nome Augusto, que convidava-me para o almoço em sua casa. E cai para trás, quando ao entrar na sala, vi a mesa ornamentada tendo no centro um bolo com a Bandeira de Angola, Nosso Orgulho Maior!
Viva as primaveras da vida!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Esqueçam São Tomé!

“A mudança produz imprevisibilidade e surpresa. Isso significa que sempre que pressionamos para que haja mudanças – e eu defendo que precisamos de ainda mais mudanças do que temos hoje -, temos de nos preparar para o facto de muito do que vamos obter ser imprevisível. Esta instabilidade inerente tem de mudar a forma como elaborámos a política da nossa nação as nossas vidas…”.
Essas palavras são do jornalista americano Joshua Cooper Ramo, apresentadas no seu livro “A era do Imprevisível”. Fui busca-las depois do e-mail que recebi reagindo ao meu texto, onde defendia a necessidade de todos os angolanos erguerem-se em prol da luta contra a corrupção desencadeada pelo Governo de Angola.
Num mundo globalizado que muda de forma veloz, há que alterar a maneira como olhamos para a realidade. Há modelos do passado que não servem para compreender os desafios actuais.
Segundo dizia o referido e-mail - já estamos envelhecidos com as promessas por um futuro melhor e prefiro ser como São Tomé, ver para crer!
Estranho! Num momento tão importante para a história do país em que é preciso arregaçar as mangas para o verdadeiro movimento contra a corrupção que como cancro definha o organismo social, alguém prefere esperar para ver!
Vivemos um momento histórico, mas o cepticismo não conduzir-nos-á a lado nenhum. O correcto é cada cidadão fazer a sua parte, participando activamente na luta. Quer esperar para ver e depois colher o fruto da seara alheia?
Esqueçam São Tomé! Contrariamente ao que se diz, como sendo um homem titubeante e céptico, ele foi um dos discípulos mais corajosos de Cristo, que deixando tudo para trás seguiu o Salvador nas peripécias por que passou na terra. Tinha fé em Cristo a apoiava-o.
Ontem, quando o país estava em guerra gritávamos: “Cada cidadão é e deve sentir-se necessariamente um soldado”. Hoje devemos dizer:
- Cada angolano é e deve sentir-se necessariamente um combatente na luta contra a corrupção!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Uma Nova História

O país entra numa nova era! A aprovação da Nova Constituição da República de Angola e a consequente nomeação do novo elenco governamental, guardadas as devidas particularidades, tem para o país o mesmo significado que teve para o Mundo a queda do Muro de Berlim em 1989, dando lugar a alteração de paradigmas que regiam as relações internacionais durante Guerra Fria. Jamais o mundo foi o mesmo. Aquele acontecimento inaugurou uma Nova Ordem unipolar, não só com o fim do Sistema Socialista Mundial e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mas porque surge na cena mundial um novo jogar, os actores não-estatais.
Foi um acontecimento marcante, crucial, mas poucos haviam dado por isso, nem mesmo muitos estudiosos de Relações Internacionais conseguiram perceber o alcance e a profundidade das mudanças que se anunciavam.
Ao nos atermos aos últimos pronunciamentos de Sua Excelência o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, antes e depois da Aprovação da Constituição da República, pondo fim ao longo processo de transição, percebe-se uma acentuada preocupação com a estabilidade política, o desenvolvimento económico e a segurança nacional.
Nada mais será como antes! Haverá, segundo as palavras do Presidente, um “corte” vertical com o passado, apostando afincadamente no trabalho, na transparência, na disciplina e na organização e no melhoramento do bem-estar das populações.
Destaca ainda a importância no melhoramento da gestão das finanças públicas e a criação de condições para a moralização da sociedade através da criação da Lei sobre probidade administrativa, que “No senso comum, quer dizer honestidade, honradez e integridade de carácter”. Sublinhando que a probidade administrativa define os deveres e a responsabilidade e obrigações dos servidores públicos na sua actividade quotidiana, de forma a assegurar-se a moralidade, a imparcialidade e a honestidade administrativa.
Portanto, há claramente um virar de página, sendo todos os angolanos, sem distinção de qualquer espécie, chamados a participar com dedicação e espírito de sacrifício. Pois cada um tem de fazer a sua parte na construção do bem-estar comum. E só juntos poderemos alcançar as metas anunciadas pelo Presidente da República. Cada um deve assumir essa meta como sua trabalhando mais e melhor!
Para a moralização da sociedade, os meios de comunicação sociais terão com certeza um papel inquestionável nessa empreitada. E ela terá de assumi-lo com responsabilidade, profissionalismo e acima de tudo com honestidade, ajudando a sociedade no processo de monitoramento da gestão da coisa pública.
Conforme vários estudos à respeito: - Administração Pública não exerce suas actividades e direitos com a mesma autonomia e liberdade com que os cidadãos particulares exercem os seus. Enquanto a actuação dos cidadãos particulares baseia-se no princípio da autonomia da vontade, a actuação do Poder Público é orientada por princípios como o da legalidade, da supremacia do interesse público sobre o privado e da indisponibilidade dos interesses públicos.
A clara distinção entre o público e o privado evita a promiscuidade a que o Presidente José Eduardo dos Santos se referiu em anos anteriores. É com este princípio que cada gestor ou seja servidor público deve proceder no exercício das suas tarefas, para que as perspectivas que se avizinham para o país venham a ser concretizadas de facto.
“O Fim da História”, é assim que o americano Francis Fukuyama considerou a queda do Muro de Berlim. Para os angolanos, com a nova Constituição inicia-se uma Nova História! Quem não acordar, será jogado com a água do banho!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

REVER FEVEREIRO


O silêncio cobre a plateia reunida no auditório do Hotel Sana, em Lisboa. O embaixador Manuel Pedro Pacavira, vindo de Roma a propósito, desfia, na sua fala calma, o rosário das suas lembranças, das dificuldades e dos perigos da clandestinidade. Nas breves pausas, a emoção espreita sorrateira. Ele cita nomes de companheiros tombados e apela aos jovens de hoje ao patriotismo.
– É preciso que vocês assumam o vosso papel na história de Angola, porque nós já passamos. Já estamos velhos.
O quatro de Fevereiro de 1961 ficou distante no tempo, mas a saga heróica prevalece, feito semente de um passado projectado para o futuro. São passados 49 anos desde dia em que angolanos se ergueram com catanas para romper as algemas da colonização e da opressão. Muitos morreram naquele dia, mas o grito de revolta ecoou no mundo inteiro.
Depois foi a vez do Embaixador de Angola em Portugal, Marcos Barrica, falar dos desafios do presente. A aprovação da primeira Constituição Angolana e os projectos sociais em curso. A habitação, a saúde e educação são as grandes prioridades do novo governo. A plateia questionou, queria saber mais do país. A curiosidade foi satisfeita com imagens de vídeo projectadas no telão.
E o almoço recheado de iguarias serviu para a confraternização entre os angolanos residentes em Lisboa, fechando as celebrações do aniversário do 4 de Fevereiro. As conversas e a gastronomia angolana adocicaram o paladar de um país que todos querem rever e ajudar a construir.

sábado, 9 de janeiro de 2010

VIVA O CAN 2010!


Finalmente termina a contagem regressiva! Foram anos, meses, semanas e dias de angústias pelo início da cerimónia de abertura do Campeonato Africano de futebol de 2010.
É hora de todos os angolanos, seja qual for a sua opção política e credo religioso, seja qual for a sua opinião, unir esforços em prol da participação de Angola. É hora de unidade, porque o que nos une é bem mais importante do que aquilo que nos separa!
“Acima de tudo, o importante é aprender a estar de acordo. Muitos dizem que sim, e no entanto ninguém está de acordo. A muitos, nem sequer se pergunta e muitos estão de acordo com coisas erradas. Por isso: acima de tudo, o importante é aprender a estar de acordo.” Como escreveu o dramaturgo alemão Berlot Brecht na sua peça “Aquele que diz sim e aquele que diz não!
É crucial saber que há vários anos, gerações sucessivas de angolanos sonharam com a possibilidade desse momento glorioso, e muitos partiram sem ter experimentado a emoção do país ser anfitrião do futebol de África, mas com certeza bem queriam estar na bancada e torcer ao vivo, vibrar com cada lance, com cada drible e com cada golo. Acendamos o archote e empurremos os Palancas para a vitória.

É preciso aprender a estar de acordo!

Incidente com a selecção togolesa

A notícia sobre o triste episódio, que envolveu a selecção togolesa em Angola, nesta sexta-feira, 8, em Cabinda, mostrou o carácter terrorista dos seus executantes, e por isso deve merecer a nossa veemente condenação. O incidente, segundo o comunicado do Governo angolano, ocorreu no troço rodoviário entre Bicongolo e Chiculu, na província de Cabinda.
A informação veiculada apressadamente em destaque por órgãos portugueses, brasileiros e outros deixa um cordão de reticências quanto as circunstâncias que envolveram o acontecimento.
A selecção do Togo chegou ontem a Angola? Qual o local onde a selecção foi emboscada? A que horas? De onde saiam? Saiam do aeroporto ou vinham da fronteira do Congo? Se vinham do Congo, porque não o fizerem por avião? Essas são algumas questões que não estão claras em nenhum momento nos noticiários, deixando os leitores desprovidos de detalhes importantes para a compreensão da informação divulgada.
Quantos leitores sabem onde fica Bicongolo? E Chiculu? Partindo do pressuposto de que o leitor ignora pormenores do facto, a notícia carece de mais dados, para que possa fazer um correcto julgamento.
Para os meios de comunicação(jornais, TV e imprensa digital), bastava fazer recurso a infografia (mapa com detalhes do local do acontecimento).