sábado, 26 de dezembro de 2009

Tempero!

Funge, peixe, carne e feijão preto eram os pratos preferidos pelos dois, mas
quem os confeccionava com maior frequência era o Cativa. Cada um tinha a
sua especialidade. Wandalika dedicava-se em confeccionar arroz com bife e
salada, peixe grelhado com macarrão. Era criativo que chegou a fazer kizaca
com o liquidificador e funge de bombó a partir da farinha de mandioca não
torrada. Aos sábados, quando houvesse dinheiro, fazia geralmente compras no
supermercado do Bairro São Mateus, antevendo o fim-de-semana. Quando na
cozinha, até usava avental e o tempero inundava a casa. À noite, temperava o
peixe ou carne, colocava em via de alho e no dia seguinte, em fogo brando,
confeccionava o almoço.
E durante a refeição, Cativa não poupava elogios. Pai, aprendeste cozinhar
assim aonde? Aprendi com a minha dama, mas ela diz que eu não sei
cozinhar. Hum! Talvez não goste de concorrência! Talvez! Cozinhas tipo dama!
Tens mãos de fada! Eh rapaz, cuidado! Yá, outro dia até fizeste calulú! Aquilo
era uma delícia, até bizei! Onde é que compraste a rama de batata? Encontrei-
a na quinta do meu colega. Eles aqui não comem rama nem folhas de
mandioca! Não sabem o que estão a perder! Aquilo é a pura vitamina. Olha,
durante a Festa dos Africanos, fizemos um prato de Angola, que os brasileiros
não resistiram! Kizaca com muamba! Até estavam a lamber os dedos. Outros
diziam que era medicamento. Têm razão, p’ra nós que bebemos, aquilo ajuda a
manter a forma.
Agora estes frangos que nascem num dia e crescem na noite seguinte, é só
doenças para o corpo. Ah porque colesterol! No kimbo nunca ouvi falar disto.
Falando em colesterol, tens de ter cuidado com o uso de gorduras. Você põe
muito óleo na comida. Ah, agora estás a controlar até o óleo? Estou mal! Não é
controlar o óleo, é controlar a saúde, …Basta ver a maneira como abres a lata.
Deves fazer dois furos, um pequeno e o outro um pouquinho maior. Não
precisa estuprar a lata! Eh, aquilo são buracões! Isso é coisa de pobre. O pobre
é sempre muito exagerado no uso das coisas. Já tem pouco, mas usam sem
parcimónia. Depois dia seguinte, está com a caneca na porta do vizinho!
Wandalika, falando em vizinha. Tive uma no bairro São Pedro da Barra que de
manhã, mandava o filho pedir fósforo, açúcar e chá. No almoço, sal, gindungo
e óleo. Um dia reclamei, sabe o que ela disse? Aquela senhora é bruxa, yá!
Que estão a se achar, mas quando morrerem vão deixar tudo para o velório!
Um dia destes, bebi uns copos, quase lhe dei uma surra, a sorte é que ela
fugiu! Você vai querer bater uma mulher? Yá, ela estava a brincar… Nunca
viste? Mulher tem muito jeito. Ainda vai manipular a informação e quando o
marido dela ouvir!... Epá, se eu estou a ver que o marido dela tem músculos,
não vou perder tempo. Pego logo no ferro, antes que não me passam uma
bassúlas e cabeçadas. Há gajos que batem à sério. Eu lhe furo e vou lhe
cumprir... Também, já viram um tropa a levar purrada na mão de um civil… Em
Luanda, ninguém te acode e ainda por cima começam a agitar: lhe dá mesmo!
Yá, lhe pega, Uááá! Palmas e assobio e tudo! Olha, falando em purrada. No
Bairro Golfe, um 2º tenente estava a conduzir o seu carrito, quando ao travar
para deixar passar um peão foi atingido na parte traseira por um turismo. O
gajo estava distraído! Yá, ouve então! O tenente desce para ir saber o que
aconteceu. Assim que se abaixou para ver os danos, o condutor que havia
batido, também desce e dá-lhe duas galhetas daquelas, pai! O tropa cai! Todo mundo só a olhar. Era hora do engarrafamento. O tenente levantou-se
calmamente, puxou na pistola e disparou no joelho do cara. Todo mundo
começou a gritar: Matou! Matou!…UÁUÉÉ Outros puseram as mãos na
cabeça! Uaéé… O militar subiu no carrito dele e bazou.
As moças que vinham no carro que havia batido, fugiram todas deixando o
condutor deitado no chão. A boca já bem seca! Fala mais! Aquilo tudo é só
ilusão, por causa das catorzinhas… Essas pequenas o que fazem!!! Lhe saiu!
Acho que o militar depois foi julgado, mas ganhou razão. Yá, bater no tropa é
teu azar que estás a procurar! Isto até é porque a guerra acabou, no tempo da
quitota quem é que levantava o coiso!!!... A paz é fixe! Todos estamos
misturados no engarrafamento!.... Desencartados, gatunos, malucos,
assassinos…chefe, subordinado, general, soldado. É como na Internet! É
democracia global, yá! O general está se esticar com o jeep Toyota Prado
novinho, você aqui do lado com o teu Starlet a deitar bué de fumo no escape,
também a fazer banga! É o quê? Isso é Angola! Estamos sempre a subir!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal com palavras


No Natal, estamos em comunhão, mas é um dia incomum, porque rompe com o ciclo de rotinas moldadas no fazer da vida um lugar de vencer distâncias e derrubar obstáculos. É momento de pausa para um olhar desarmado, ainda que de soslaio, para o mundo que se estende além do ego de cada um.
Apreciar a beleza e o significado da obra que erguemos e as relações que estabelecemos e mantemos com a esposa, com os filhos, com os outros membros da família, com os colegas e amigos, com Deus e a Pátria!
Com certeza, para muitos, no fim, ao voltar o olhar para o horizonte, a retina guardará um tapete colorido de flores, cujo perfume agradará às redondezas. E outros, amaldiçoarão a sua sorte, quando se aperceberem que, a seus pés, das sementes germinaram apenas espinhos. Permanecerá todo o sentido da parábola segundo a qual quem semeia ventos colherá tempestades. E a festa que se fizer, ajustar-se-ia ao devido tamanho e à qualidade da colheita no fecho da safra. Se calhar, muitos teriam poucas razões para festejar.
Haverá outros, para quem as sementes não germinaram. Chorarão, mas a porta não se fechou! Não amaldiçoe nem culpabilize os demais. Reveja os seus próprios métodos e técnicas que usou no amanho da terra. Verificai a fertilidade do solo e a qualidade da semente!
O semeador sofrerá, chorará e suará, mas, se tudo for feito com amor resultará numa safra de muita fartura em paz e alegria. O amor brilha e é comum confundi-lo com o de muitos cascalhos que abundam na natureza. Muitos caíram em desgraça por o terem confundido.
Saúde, dinheiro, carros, felicidade. – “A felicidade, todos nós queremos”, cantou Sebem! A todos existe a chance de encontrá-la, mas ela pode estar por detrás de um simples gesto de amizade, de amor, de carinho, de camaradagem e de solidariedade.
E ontem, por razões que transcendem a imodéstia, foi um dia daqueles que ganham lugar cativo no arquivo da memória e coroam a vida com o sublime dos presentes.
- Ainda guardo uma foto daquele tempo antes da independência. Nela estou eu e outras crianças da minha idade. As crianças brancas, de que faço parte, estavam bem apresentadas e naturalmente sorridentes, enquanto as negras mal vestidas e tristes. Hoje, os meus olhos vêm coesas que não viam naquele tempo. Se naquela altura não fosse assim, o nosso futuro teria sido diferente!
Essas são palavras de um ex-estudante da Escola Primária nº66 Augusto Gil, na Gabela. Hoje, ele tem 46 anos e vive no Porto, Portugal.
Uma dessas crianças negras de que se refere, e que levavam banana cozida com dendém e lavavam os pés empoeirados pela marcha no riacho antes de entrar na cidade de asfalto, sou eu! E o meu Natal era diferente do dele, mas tinha presépio e menino Jesus!
Na conversa mantida através do MSN, ele contou a saudade que sente dos antigos colegas e amigos e de Angola. E ficámos remoendo nossas lembranças, costurando sob o frio do inverno os nossos sonhos num amanhã radiante, que enterre para sempre as tristezas que amargaram a vida!
Ao terminar, ele clicou num bolo e eu num presente! E ficou a promessa de vermo-nos em 2010, em Angola! Que Deus nos abençoe!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Parabéns Proletário

É Dezembro, estamos em clima de festa. E não podia ter sido escolhida uma data diferente para o lançamento do primeiro CD do músico Proletário. No cenário musical desde 1970, Proletário consegue gravar o seu disco 39 anos depois. Parabéns pela perseverança! Foram vários anos de lutas e esperas, mas finalmente o sonho se concretiza. É uma vitória para o músico e para todos os amantes da sua arte, que de Scania 111 passaram em Sanguiguenda, Kapelequeze, Makumba e até Kimbonbeia. As 13 faixas editadas representam ínfima parte do reportório do cantor, mas para começar, valeu! Coragem! É uma Caminhada!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector


OBSERVAÇÃO: Essa foi a última carta de Edna, antes da sua morte por atropelamento em Maio de 1998. Se estivesse viva faria dia 25 de Dezembro de 2009, 21 anos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

REFAZER VIDAS! HARMONIZAR DESEJOS!





A Palanca Negra gigante foi uma das vítimas do conflito angolano, que terminou há sete anos, depois de mais de 30 anos.
A localização do antílope, que é símbolo da Selecção de Futebol e da Companhia Aérea angolana, põe fim à especulações sobre a sua extinção. Depois do fim da guerra, manadas de elefantes e outras espécies estão regressando aos parques e reservas naturais. Todos estão desejosos dereconstruir as suas vidas, a sarar as chagas, a cicatrizar as feridas! Incrível, homens e palancas partilham o mesmo desejo: viver em paz e harmonia!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Patriotismo de jovens angolanas em Lisboa


Eram 13 horas! Acabava de sair da Embaixada angolana, um edifício localizado numa Avenida bem movimentada de Lisboa. Diante da Bandeira Nacional hasteada no edifício, qualquer muangolê experimenta um sentimento sublime de angolanidade. É o sentimento de pertença que nos infla de orgulho.
De manhã, com o medo de errar, perguntei a um senhor de meia-idade se aquele seria o trem para Entre Campos. Ele disse que sim. Subi atrás do homem, que mais tarde começou a pedir esmola aos passageiros. Que susto! Era deficiente visual! Quase explodi ao reprimir uma gargalhada!... Ser novato em cidade desconhecida prega dessas partidas.Cego é quem não quero ver!
Linha Amarela. Linha Verde! Linha Vermelha! E Linha…! No regresso, vinha mais cauteloso, tamanho era o desnorte. Subi no Metro, desconfiado pela incerteza de ser aquele o trajecto, que me levaria directamente ao Rossio, Centro de Lisboa.
Sentei-me e ao meu lado, poisaram suave, para minha surpresa e agrado, duas moças, que mal tinham passado da adolescência, se é que já deixaram na poeira dos anos essa fase de metamorfoses, cobranças, incompreensões, sonhos, contradições e expectativas.
Acostumado a ouvir com maior frequência sotaques de caboverdianos e guinienses, desconfiei e afinei os ouvidos. Na velocidade e no semi-escuro do túnel, desviei a atenção para as sombras deixadas pelos objectos em movimento na imaginação dos passageiros.
- Os outros têm muitas coisas bonitas, fábricas e indústrias e vida melhor, não nos esqueçamos que eles tiveram de batalhar, arregaçar as mangas.
- Batalharam muito! O país precisa de nós. A droga não é a solução, porque ela apenas destrói o nosso sonho, tornando-nos reféns do vício.
- É verdade! Devemos estudar, procurar assimilar o máximo de conhecimentos, para voltarmos para o país.
-Estás a ver! O nosso curso vai ser importante. Aliás, depois de vários anos de guerra…
- O país precisa de quadros competentes e dedicados. E nós podemos ajudar a construir um país melhor.
- Só com trabalho podemos conseguir o que queremos!
Impelido pela curiosidade, desisti de fazer de espelho a janela do Metro e sorrateiramente tentei encarar a moça, que sentava de frente para mim. Ela era clara, usava jeans e um casaco preto. Mas logo os nossos olhos se cruzaram e eu refugiei-me apressado no túnel do eléctrico. A que estava do meu lado, era baixa e fala menos. E o diálogo tornou-se tão interessante, que me emocionei. Fiquei impressionado com a clareza e a convicção com que defendiam as suas ideias:
- Moças, de que país são vocês?
Não tive dúvidas, são angolanas de verdade, como aqueles e aquelas que deram o que tinham de melhor para defender a pátria.
A Stela e a Amélia estudam Serviço Social em Lisboa a expensas da família, pois não têm bolsa de estudo. Nos períodos da tarde, pensam arranjar emprego, para ajudar a suportar a formação.
E foi com lágrimas nos olhos que as vi partir, acenando-me. Elas desceram na Baixa do Chiado e eu desceria no Rossio, mas na distracção errei novamente a paragem, mas não fiz questão, tinha ganho o dia.
Ao desembarcar, limpei com a manga do casaco uma lágrima teimosa. Não são lágrimas da idade ou da saudade da família distante, mas sim de emoção de perceber que todo o sacrifício de gerações sucessivas de angolanos não fora em vão. E não tinha dúvidas! Através da devoção, do amor ao país e aos seus símbolos identificamos um verdadeiro patriota.
Esquecido do almoço, mergulhei em meus pensamento, ao caminhar nas ruas da Lisboa, onde desembarquei dois dias antes das celebrações do 34º aniversário da Independência de Angola. Cheguei à Europa, num momento em que mundo comemorava o 9 de Novembro, dia da queda do Muro de Berlim. O Muro que separava a Nação alemã caiu há 20 anos. Na cerimónia vi Walesa a derrubar a réplica, mas quantos muros estão por derrubar?
É com atitudes como as da Stela e Amélia que derrubaremos o muro da pobreza, da fome, da injustiça e do desemprego e em seu lugar edificarmos uma Angola reconciliada e próspera.
Hoje é 20 de Novembro, pensei ao chegar ao hotel. Faltam poucos dias para o CAN 2010! E a alegria, por tão retumbante vitória, banhou o rosto. Já ganhamos!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Morangos da paz



Um cestinho veio do Huambo. Trazia morangos. Mal chegou e logo o cheiro da fruta inundou a casa. Eram morangos gostosos, que minha cunhada enviara. No cartão preso na pega lia-se: “Queiram aceitar a fruta da paz! Assina, Graça”.
Todos nos deliciamos. Minhas filhas, pela primeira vez, comeram morangos. Não eram morangos da televisão, que pobre come com os olhos! Eram de verdade. Por isso, houve disputa. Disputaram cada fruto e finalmente o cestinho feito de folhas de palmeira. A do meio queria usá-lo para guardar roupa da sua boneca, a mais velha queria-o para ornamentar a prateleira do seu quarto, enquanto o rapaz, o cassule, queria aproveitá-lo para fazer uma armadilha para prender pássaros.
Atraídos pelos morangos, no Natal de 2003, decidiram viajar até à fonte.
Foram 15 dias no Huambo. Chegaram com muitas novidades. Falaram dos primos, dos tios, das ruas e das pessoas. Apaixonaram-se pelo linguajar da região. A mais novinha disse que todas as paredes estavam picotadas: “Papá, o Huambo é muito bonito, até estão a pintar os prédios!”.
- Mas já começaram a pintar?
– Não, apenas picotaram as paredes!
Calei-me! ... Ela não sabia, que aquelas marcas nos edifícios eram sinais, deixados por anos de um conflito sangrento. Então, para quê fazê-la lembrar? Para quê mexer nas chagas?
Dormimos e durante uma semana as conversas gravitaram em torno do Planalto, até o brilho das imagens da parabólica retomarem o seu lugar cativo com a novela “Chocolate com Pimenta” e “A Cor do Pecado”.
Os relatos das crianças fizeram-me sair da casca e retomar um velho sonho. Então, nas férias, em Fevereiro, decidi viajar por terra. Queria conhecer melhor o país. O conhecimento propicia amor profundo.
Parti de Luanda de Jeep, como se estivesse a ir à Barra do Kwanza. Nada de preocupações com pistolas, AKM e granadas, apenas o cuidado redobrado com o carro emprestado.
Olhei para a paisagem sem medo de ser surpreendido por um disparo. A vegetação em movimento e os solavancos mexeram o saco de lembranças. Entre a ponte do rio Longa e Porto Amboim está o Calele. Era perigosíssimo. Em tempo de guerra passei ali com o coração apertado. Até para ateus Deus era a única salvação! Hoje, nem dei por ele.
A viagem entre o município do Porto Amboim e Gabela houve alturas que durava mais de 10 dias. Agora, apesar de parte dela não ter asfalto, apenas são precisas três horas. Entre as Cachoeiras da Binga e a Gabela havia um ponto crítico: o tal “Pau Preto”. No local, os camponeses trabalham a terra, os camionistas, que circulam a qualquer hora do dia, param para descansar. As flores silvestres cobrem os restos dos veículos atingidos pela violência. Enquanto, a oxidação corrói o metal, o tempo apaga o rasto da guerra fraticida.
Visitei a Quilenda, Kibala, Wako Kungo, Huambo e Benguela... Voltei a Luanda feliz e rejuvenescido! Os morangos da paz eram de verdade e jamais serão mofados! Morango é amor, é paz, é concórdia! VIVA!