Eram 10 horas. Nas imediações da Igreja Sagrada Família, em Luanda, o trânsito automóvel era escasso, calmaria sonhada e desejada para horas de ponta. Caminhava tranquilo, quando foi interceptado por um militar. Não falou. Segurava firme uma metralhadora. E era com a ajuda desta que as instruções foram transmitidas. Eram gestos ríspidos e bastante eloquentes não deixando ruído para equívocos. O soldado todo vestido de uniforme preto, usava boina preta, luvas e óculos da mesma cor.
Atingido pela surpresa, o pedestre assustado descreveu um arco para não pisar no jardim da igreja, atravessou a rua e encaminhou-se agora para os lados do Hospital Militar. Depois de alguns passos, parou para apreciar o que aconteceria a um outro pedestre que seguia na direcção do soldado. Esperou num misto de receios e ansiedades. E de contentamento por não lhe ter acontecido o pior. Será que vai passar? … Suspirou. Não passou. Foi igualmente impedido de seguir no mesmo trajecto. Mas este não mudou de direcção. Recuou descendo pela Zona Verde e precipitadamente desapareceu.
Mas o que é que se passa? Nos seus 30 anos nunca tinha visto tal aparato militar! Já tinha visto vários tipos de uniformes: castanho, camaleão, tigre... Aliás, já usara muitos, mas este não se pareciam com os do exército coreano, cubano, russo, alemão democrático… enfim. Era algo novo.
A arma era estranha. Toda preta, tinha coronha dobrável e cano curto. O carregador era quase parecido com o da AKM. Mas são apenas aparências. Talvez, a coronha podia ser confundida com a da AK-47, mas não tinha nada a ver. Ancorou saudoso na sua alegria durante a recruta ao receber a sua primeira arma com coronha e guarda-mão reluzentes. A sua kalashi (diminuitivo de Kalashinikov) tinha bandoleira castanha e 3,6 kg de peso. O carregador era também castanho. Possui boa precisão e é fácil de montar e desmontar. É resistente capaz de suportar tudo desde a chuva, calor, areia, lama e até o próprio soldado. Do suspiro desabrochou um leve sorriso. Esse senhor Kalashinikov é o máximo! Dizem que desenhou esta arma, quando estava internado num hospital depois de ter sofrido ferimentos durante a batalha de Stalingrado. A AK é a minha grande paixão!
Ele sabia o que falava. Não encontrou semelhanças com aquela arma toda preta. Facto que o deixou inquieto. Mas o que é que se passa? O seguro morreu de velho, por isso correu para casa. Não queria ser surpreendido por qualquer infortúnio.
Se tivesse telefone telefonaria para alguém conhecido para obter informações. Mas telemóvel, em Junho de 1992, ainda era para o mercado ficção científica.
Contornou o Hospital Militar Principal e seguiu pela rua Comandante Jika. Perscrutava com subtileza no rosto de outros transeuntes indícios de alguma inquietação. Mas nada! Sob um clima ameno, caminhava colado ao cerco da Rádio Nacional de Angola. Ele procurava esbater o impacto vespertino causado pelo encontro com aquele militar, quando, ao aproximar-se da entrada da RNA foi novamente convida-do a afastar-se: – Senhor, afaste-se do arame!
Como gazela acordada por predadores na savana, sem olhar para onde vinha a ameaça, cor-rendo afastou-se. Só depois, com o pavor nos olhos, procurou saber de quem era aquela voz.
Isso é azar ou quê? Será que o mesmo soldado está a me perseguir? Não pode!... O coração carburava apressado. Isso não é normal. Está em todo lado! …Franziu o rosto!...
Na antiga Escola Comandante Jika, através do arame axadrezado visualizou o antigo gabinete do director “Nino”, a tribuna e a parada. Lembrou-se do desfile das tropas em parada nas sextas-feiras e dias de cerimónias. À Banda de Música e as canção: “Quero! Quero/ quero ser soldado/… com esta farda aprender a marcha/ com as armas lutaremos pela revolução”
– A Parada é um lugar sagrado. Tudo começa e acaba naquele lugar. O início da recruta. As formaturas. As marchas de Ordem Unida. Distribuição dos meios e equipamentos. Táctica, defesa, ataque, manobra, emboscada, flanco. Juramento de bandeira. A recepção de missões de combate. A partida, o regresso e o balanço. As alegrias e as tristezas. Parada é forja da amizade, da camaradagem e da lealdade. As canções e a cadência das botas no asfalto. Parou e imaginou o comandante do Batalhão de Instrução “Vulapata”, no seu jeito Garrincha de andar com suas pernas arqueadas, a marchar: Olhaaaar à Direita! Está alinhaaaar!...
Desperto por uma alfinetada de mau pressentimentos, retomou a marcha com vigor. Saudou a sentinela e dirigiu-se para o Bairro Prenda. – Kuemba tem que estar sempre atento! Camarão que dorme a calema leva. E sorriu!...
Ao atravessar a Rua Revolução de Outubro, ergueu a cabeça e leu no alto do edifício: LIBERDADE DE ÁFRICA…E acalmou-se sem um motivo aparente. Chegou a casa às 11 horas. Depois do almoço dormitava esquecido dos seus medos e receios, quando foi desperto pelo sinal horário da RNA: O Papa João Paulo II chegou hoje a Luanda.
Envergonhou-se pela teia de pensamentos que o atormentaram. Aqueles soldados pertenciam a uma nova polícia. A informação se espalhou no areal. A Polícia de Intervenção Rápida era a grande novidade. A arma não era AK, era Gallill de fabrico israelita. São parecidas, mas contrariamente a AK, que é de calibre 7,62 mm, esta é de 5,62 mm.
As botas também eram diferentes e usavam coletes à prova de bala… Usavam pistolas mas não eram de marca Makarov nem TT, Star ou walter. Essa tropa veio de onde? A pergunta teimosa perseguia todos que tivessem no seu caminho uma “Polícia de Intervenção Rápida”, que depois viraram “Polícia de Emergência” e “Ninjas”.
Todos a estimavam. Aquilo é que é polícia! Organizados, disciplinados e educados. Não falam muito, não se metem com a população, não brincam em serviço, no carro estão sempre bem alinhados e aprumados. Postura é postura e quando são chamados a agir em defesa da pátria angolana, da paz e da tranquilidade dos cidadãos fazem-no com muita prontidão e eficiência.
Os “Ninjas” lutam com destreza, neutralizam os seus inimigos impiedosamente e conseguem desaparecer sem deixar rasto. São invencíveis! É essa a imagem que se tem dos “Ninjas” e que é-nos transmitida através do cinema. Mas cinema é ficção!
Mas basta ouvir um pouco da folha de serviço e a história da Polícia de Intervenção Rápida de Angola para percebermos que a realidade não fica tão longe assim da ficção!
Augusto Alfredo, angolano nascido no município do Amboim, província do Kwanza Sul, é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil.
sábado, 6 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Kizaca enlatada
Sábado comprei no Supermercado Kizaka e Muamba enlatadas. Subtilmente joguei-as no carrinho. Sentia-me maravilhado por ver folhas de mandioqueira pisadas e hoje enlatadas a disputar espaço com os outros manjares estrangeiros nas prateleiras de supermercados da Grande Cidade. A Kizaca e a Muamba são pratos familiares que marcaram a minha vida na aldeia. Ai que doce infância, ai que brisa amena, ai que cheiro bom da terra depois da chuva. Ai que bela paisagem!
A Kizaca acompanhando um prato de feijão com funge (pirão) era irresistível. Mas era comida de pobre, quando o arroz era apenas saboreado no Natal. Orgulho é perceber que eu e a Kizaca estamos novamente juntos. Apesar da nossa origem humilde, estamos sempre juntos nas avenidas caóticas da modernidade!
Aliás, já tivemos um encontro nas terras altas de Minas Gerais, Brasil. Mesmo não havendo pilão, o liquidificador serviu para triturar as folhas! Como vê a nossa amizade tem tem sementes, tem história! Por isso há sempre um jeitinho para se vencer a distância e ruminar o bom paladar!
A Kizaca acompanhando um prato de feijão com funge (pirão) era irresistível. Mas era comida de pobre, quando o arroz era apenas saboreado no Natal. Orgulho é perceber que eu e a Kizaca estamos novamente juntos. Apesar da nossa origem humilde, estamos sempre juntos nas avenidas caóticas da modernidade!
Aliás, já tivemos um encontro nas terras altas de Minas Gerais, Brasil. Mesmo não havendo pilão, o liquidificador serviu para triturar as folhas! Como vê a nossa amizade tem tem sementes, tem história! Por isso há sempre um jeitinho para se vencer a distância e ruminar o bom paladar!
Lágrimas de menina!
Por altura da independência, ela ainda jovem partiu para Lisboa. Trinta e três anos depois, ela volta para a antiga sede da Companhia Angolana de Agricultura (CADA), no Amboim, província do Kwanza Sul. Na berma da estrada, a poeira dorme sobre os limbos dos cafezeiros lembrando o pó fino que cobre a memória. Com passo húmido, passa pela antiga Estação do Caminho de Ferro do Amboim, a Cancela, as mansões pálidas pelo cacimbo dos anos e o Colégio S. João de Brito, a Barragem e o verde da paisagem. Do Colégio Santa Filomena apenas um montinho de terra de salalé. O périplo passa pelo local onde estavam os Escritórios centrais. Apenas algumas pedras e tijolos cobertos pelo capim remetem para aquele tempo de prosperidade. O Hospital resistiu aos tempos agrestes e ainda ajuda a população nativa a sobreviver. Depois da igreja, reencontrou a sua antiga babá , aí não teve como resistir. Então chorou de saudade dos velhos tempos de menina!
Viva a paz!
Cartazes, bandeiras, painéis, passeatas, programas de rádio e de TV momentaneamente invadiram os sentidos, transformando-se em novos atractivos. A programação quer da Rádio Nacional de Angola, da TPA quer dos jornais sofreu profunda alteração. Na grelha surgem os tempos de antena. Como saltimbancos, dez partidos e quatro coligações políticas empenham-se em procurar mostrar o quanto são capazes para justificar a escolha nas eleições de 5 de Setembro de 2008.
Seja quem vencer, a verdade é uma: todos os angolanos são vencedores, pois basta ver a tranquilidade como decorreu a campanha. Hoje de manhãzinha, ao descer para o Centro da cidade, me emocionei ao ver, nas ruas de Luanda, bandeiras do MPLA juntinhas as da UNITA…Viva a paz!
Seja quem vencer, a verdade é uma: todos os angolanos são vencedores, pois basta ver a tranquilidade como decorreu a campanha. Hoje de manhãzinha, ao descer para o Centro da cidade, me emocionei ao ver, nas ruas de Luanda, bandeiras do MPLA juntinhas as da UNITA…Viva a paz!
sábado, 23 de agosto de 2008
Quem aceita Jesus?
Nossa Senhora Aparecida, no Estado de Minas Gerais, Brasil, era um bairro de gente simples com muitos brancos, negros e mestiços. Funcionários, operários de construção civil, vendedores e empregados. Algumas ruas eram asfaltadas e outras calçadas de pedra. A casa onde morávamos ficava no término dos autocarros daquela linha. A cerca de 20 metros havia duas cantinas e um orelhão (telefone público). O bairro Nossa Senhora Aparecida fazia fronteira com o bairro Santa Rita, Santa Cândida e Nossa Senhora de Lourdes. Era muita Santa à nossa volta.No anexo com o Sangueve, também vivia um capitão da Força Aérea Angolana chamado António. Um luandense do Bairro Rangel. Mais tarde viemos a saber que era apenas tenente. Estamos zerados, dizia o Sangueve. Estamos é zebrados! Sorríamos. Sorríamos... Na primeira semana, peguei, a título de empréstimo, em 100 dólares e dei-os a cada um deles. A alegria havia retornado. Dois dias depois, voltaram a pedir mais 100 dólares. Acedi. Semana seguinte pediram mais 100 dólares. Recusei. Dei-lhes apenas 50. Entretanto, os gastos eram compreensíveis, pois os meus companheiros tentavam atenuar a dívida do aluguer, melhorar a dieta alimentar, comprar roupa e diminuir o cansaço andando de autocarro.Do frango havíamos passado para carne, sobretudo de fígado de vaca. Voltamos a gargalhar ao lembrar os esqueletos de frango.Mas no mealheiro o nível de segurança baixava. Em menos de um mês estava apenas com 300 dólares. O ponteiro estava no vermelho. Para quem não sabia quando receber reforço de verba, a situação era realmente aflitiva.Como o quadro degradava-se a cada dia, decidi manter um encontro com os companheiros de caserna para a revisão da situação. Camaradas! Nós somos militares e temos que buscar soluções. Mas que soluções? Somos comandos desembarcados na profundidade do inimigo. A nossa missão é de alto risco.Não temos como receber apoio da retaguarda, devemos contar com os nossos próprios meios e capacidade de sobrevivência. Temos de aprender a pescar!O Sangueve acendeu um cigarro com indisfarçável insatisfação pelo diálogo que para si até aí era incompreensível. Esperei alguns segundos até a conclusão da primeira baforada e prossegui com maior acutilância. Como vos disse, a guerra em Angola não deixa espaço para vislumbrarmos um futuro de paz dentro de pouco tempo. As tropas do Governo desdobram-se no terreno para rechaçar o inimigo, mas a situação vai durar algum tempo.Sabem que o inimigo está bem municiado. Caxito, Catete... são zonas de guerra! Não temos como receber o dinheiro da bolsa dentro de pouco tempo. Temos de resistir. Todo esforço vai ser canalizado para a guerra. Esta é a verdade.A impaciência dos interlocutores empurrou-me precipitadamente para a parte principal do plano. Vamos procurar uma igreja. O falso capitão, sorriu numa alta gargalhada, levantou-se, abriu a porta e saiu, fechando-a atrás de si com alguma violência. A porta fechou-se e no caminho que nos unia apareceram pedras que cresceram e chegaram a pedregulhos. Para ele, eu era um doido, um exibicionista! Quem olha em várias direcções não avança! Concentrei o fogo no Sangueve. Queria convencê-lo. Fica calmo, nós vamos conseguir manobrar. Os chineses dizem que a arte da guerra é a arte da manobra. Vamos à igreja! Meu companheiro Sangueve manifestava-se relutante, argumentando que era católico desde os tempos de criança no município do Bailundo e não protestante. E eu contra-atacava. Quando a vida está em perigo, as soluções devem ter em conta primeiro a sobrevivência. Lá vais seguir todos os movimentos de levantar, fechar os olhos, assentar e ajoelhar. Fica calmo! Mas porquê que você não quer ir na Católica? ... Até fui baptizado pela Católica, mas ainda era criancinha, apenas tinha 2 anos. Então, vamos lá! Nem pensar! A última vez que pus os meus pés numa igreja Católica foi em 1993. Nem imaginas! O quê? Fomos corridos pelo padre! ... Hum, fizeram quê! Sabes que depois de 1975, após a proclamação da independência quase todos os jovens aderiram ao ateísmo científico. Aliás, era condição para ser-se militante do MPLA, mais tarde transformado em Partido do Trabalho. Todos queriam ser comunistas! Então, em 1991, familiares de um militar falecido queriam que se realizasse uma missa em sua memória na Igreja Sagrada Família. A plateia era composta maioritariamente por militares garbosamente fardados exibindo braços musculosos. Eram dos debraços!... Quando começou a missa foi uma desgraça. O diabo desceu? Não, nenhum deles sabia rezar o Pai Nosso e nem Ave-Maria . Nem ninguém sabia cantar as canções. O Padre sentiu-se solitário perante o cadáver. E enfurecido começou a amaldiçoar os presentes: O que é que vieram fazer aqui? São vocês que quando vivos não se preocupam em ir à igreja e fazem-no apenas na hora da morte. Vocês são oportunistas. Igreja não é loja onde se compra a fé. De nada adianta pedir a Deus que receba a alma de alguém que em vida foi carrasco do Senhor. Sem terminar a missa, pegamos no caixão e saímos apressados.O padre tinha razão. As pessoas só procuram a igreja quando têm problemas. Quando estão encravados. Eu não vou mudar de igreja agora. Epá Sangueve, então vai me fazer companhia para eu não ir sozinho. Vou pensar no teu caso...Apesar da dificuldade, consegui convencê-lo. Contribuíram para o facto, acredito, vários factores, entre quais o ser-se da mesma arma: a Marinha. Subimos paralelo ao rio Paraibuna em direcção ao Bairro Benfica, passando pelo Jóquei Clube, Parque de Exposições e admirámos os canhões expostos no Batalhão de Artilharia de Campanha.Conversávamos tranquilamente ora em português ora em Umbundo. Nessa última língua era apenas em ocasiões, quando era preciso rematar ou colocar ênfase no discurso. Chegamos ao destino por volta das 17 horas. Parámos perto do jardim do Benfica e encaminhámo-nos em direcção à Igreja Baptista. Mas o culto começaria apenas às 19 horas.Fizemos um raid de reconhecimento e buscámos um esconderijo por perto. Numa distância capaz de controlar todos os movimentos de entrada e saída do templo.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Viva a paz! Viva a Democracia!
Em Setembro de 1992, era a primeira vez que iria votar. Tinha 29 anos! A ansiedade tomava conta das horas vespertinas. O sono foi coberto por várias pulgas. Muitas coisas estavam em jogo. Os Programas eleitorais haviam (des) vendado alguns pontos obscuros. A propaganda ajudava, mas também atrapalhava.
A guerra, com suas dores e horrores, havia terminado há pouco tempo, há 18 meses. E os eleitores eram chamados para escolher quem os iria governar. Era como se os antigos contendores haviam repassado para o eleitorado o que não foi decidido no teatro operacional.
Aguentei a fila várias horas. Vi o sorriso com que saiam os que haviam exercido o seu direito de cidadania na Angola Independente e animei-me!
Já passava da hora do almoço, mas nem dei pelo ruído da fome. Quando chegou a minha vez, rezei para que tudo corresse bem, pois de algures já partiam mensagens de inquietações.
Caminhei sobre o gume da navalha até a mesa de voto. E trémulo, procurei o partido e o candidato da minha preferência. Sem titubear, Xis num e Xis no outro!
Quando depositei-o na urna ainda me questionava se não me havia enganado na hora do voto, tamanha era a responsabilidade e a tensão que pesava no ombro de cada eleitor.
Dezasseis anos depois, volto às urnas mas mais tranquilo, calmo. Acabou o medo e as incertezas!
Viva a paz! Viva a Democracia!
A guerra, com suas dores e horrores, havia terminado há pouco tempo, há 18 meses. E os eleitores eram chamados para escolher quem os iria governar. Era como se os antigos contendores haviam repassado para o eleitorado o que não foi decidido no teatro operacional.
Aguentei a fila várias horas. Vi o sorriso com que saiam os que haviam exercido o seu direito de cidadania na Angola Independente e animei-me!
Já passava da hora do almoço, mas nem dei pelo ruído da fome. Quando chegou a minha vez, rezei para que tudo corresse bem, pois de algures já partiam mensagens de inquietações.
Caminhei sobre o gume da navalha até a mesa de voto. E trémulo, procurei o partido e o candidato da minha preferência. Sem titubear, Xis num e Xis no outro!
Quando depositei-o na urna ainda me questionava se não me havia enganado na hora do voto, tamanha era a responsabilidade e a tensão que pesava no ombro de cada eleitor.
Dezasseis anos depois, volto às urnas mas mais tranquilo, calmo. Acabou o medo e as incertezas!
Viva a paz! Viva a Democracia!
Mazungue é meu e ponto
Mazungue, o rio Gabelense que corre entre pedras, troncos e angústias. Adoptei-o como meu pseudónimo, aliás nunca tive outro. E os questionamentos surgiram: -
- Por quê Mazungue?
- É o rio da minha infância!
Pois todos têm um rio correndo dentro de si. Muitos já o viram ao relento, mas poucos ouviram enternecidos a melodia das suas águas entre rochas. Ademais a cidade é sempre ruidosa e degradante. Passando por debaixo da cidade da Gabela, transporta as gorduras da modernidade e só lá mais em baixo se purifica e sorri. Não sei onde fica a sua nascente nem a sua foz. Dizem nascer na Donga - região a norte do Amboim, perto da Gabela e desaguar no rio Chilo, que por sua vez desagua no rio Keve, na região da Binga, desaguando este no Oceano Atlântico.
Sei apenas que ele ornamentou as nossas brincadeiras e arrefeceu-nos do calor das correrias no capim das margens. É dele os bagres e cacussos que ajudavam a vencer a rotina pesada da cozinha feita de funge com feijão.
O mergulho no rio virou desporto para gente ribeirinha como as do Pange e Londa. Suas águas irrigavam no cacimbo as hortas fertilizadas com excrementos de cabras e excitava na memória das lavadeiras o sabor do canto da última farra.
Ouviu e guardou lamúrias de amores desavindos, paixões proibidas, traições e declarações de enamorados.
O Mazungue é o confidente, amigo, camarada!
O Mazungue é meu não o partilho com mais ninguém. Me desculpem, mas ser fã tem esse quinhão possessivo. E ponto!
- Por quê Mazungue?
- É o rio da minha infância!
Pois todos têm um rio correndo dentro de si. Muitos já o viram ao relento, mas poucos ouviram enternecidos a melodia das suas águas entre rochas. Ademais a cidade é sempre ruidosa e degradante. Passando por debaixo da cidade da Gabela, transporta as gorduras da modernidade e só lá mais em baixo se purifica e sorri. Não sei onde fica a sua nascente nem a sua foz. Dizem nascer na Donga - região a norte do Amboim, perto da Gabela e desaguar no rio Chilo, que por sua vez desagua no rio Keve, na região da Binga, desaguando este no Oceano Atlântico.
Sei apenas que ele ornamentou as nossas brincadeiras e arrefeceu-nos do calor das correrias no capim das margens. É dele os bagres e cacussos que ajudavam a vencer a rotina pesada da cozinha feita de funge com feijão.
O mergulho no rio virou desporto para gente ribeirinha como as do Pange e Londa. Suas águas irrigavam no cacimbo as hortas fertilizadas com excrementos de cabras e excitava na memória das lavadeiras o sabor do canto da última farra.
Ouviu e guardou lamúrias de amores desavindos, paixões proibidas, traições e declarações de enamorados.
O Mazungue é o confidente, amigo, camarada!
O Mazungue é meu não o partilho com mais ninguém. Me desculpem, mas ser fã tem esse quinhão possessivo. E ponto!
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