Era 8 de Maio de 2010! Chovia e fazia frio, os resquícios do Inverno ainda molhavam a Primavera, mas avancei convicto. As aulas já estão no fim, …nem sei quando terei a oportunidade de vê-los juntos em palco outra vez. Nunca sabemos o que nos espera ao dobrar a esquina. Pensei na idade dos dois e finalmente na minha. E abri os braços em sinal de resignação.
Desembarquei no Rossio e encaminhei-me para o Coliseu. Os ingressos já haviam esgotado. Procurei aflito entre a multidão. Exausto, quedei-me diante de um dos guichés, de onde saia uma conversa animada de moças apaixonadas.
As horas corriam apressadas para o início e eu entrava em sofrimento, quando alguém apareceu oferecendo-me um bilhete. Comprei três, mas o meu filho desistiu no último momento, disse enquanto recebia o dinheiro.
Agradeci a Deus e a senhora e entrei na sala cheia e iluminada por lâmpadas multicolores.
Segui tenso os acordes do violão, a aflição do saxofone, a ginga do cavaquinho, as traquinices da bateria, a bondade do Piano e o choro do violino acompanhando a voz sublime de Cesária Évora. “Amor di Mundo” “Beijo de longe”, Regresso”, “Angola”!
Hora di Bai! Suspiro e viajo até São Vicente e de lá regresso ébrio da morna dos “Flagelados do Vento Leste”. Sodade!
Cesária e Bonga dividem o palco e cantam juntos. Bonga no seu jeito Muangolê quão galo conquistador cortejava a Diva dos pés descalços. A sala entra em delírio. Depois ela termina a sua apresentação e acena para a multidão deixando Bonga cumprir a sua empreitada. “Caroço quente”! “Kambonborinho”!..”, “Mariquinha, vem comigo pra Angola”.
Era zero hora, quando o espectáculo terminou. E saí feliz por ter assistido pela primeira vez Bonga e Cesária juntos. Onde a força não chega a cultura supera!
E dia seguinte, o susto: a cantora Cesária Évora foi internada e operada do coração em Paris. Fico triste, mas torço numa enorme corrente de fãs para a sua rápida recuperação!
Guardo com carinho o seu aceno! Espero e torço para que ela volte tão logo aos palcos e alegre os amantes da sua música!...
Quando dia 8 de Dezembro de 2011, cruzei com “Bonga” na sala de embarque do Aeroporto de Lisboa, com sua mala e seu último Cambwá que vira lixo no entulho, “De Mãos a abanar”, lembrei-me daquela noite e da alegria dos espectadores.
PENA! Sábado, 17 de Dezembro de 2011, a notícia sobre a morte da “Diva dos Pés Descalços” deixa milhares de fãs entristecidos. Lágrimas mornas salgam as lembranças como o mar sobre as areias. Uma estrela se desprendeu da árvore de NATAL, deixando um vácuo de tristeza.
Mas a sua canção segue nossas vidas empobrecidas com a partida, ai…! “Vida Tem Um Só Vida…/Sô na madrugada di um note sem fim/ …Cu nha razâo magoado sem gosto/Na nha alma um vazio/Dum tristeza profundo/'M conchê um verdade dess mundo: C'ma vida tem um sô vida”…
ADEUS CESÁRIA, DESCANSE EM PAZ!
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