Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Busca de uma identidade




SEGUNDA-FEIRA: Faz um ano que procuro encontrar-me comigo mesmo, mas em vão. Minhas mãos, minhas pernas, meu rosto, tudo estranho. Nem mesmo olhando ao espelho me reconheço. Meu pensamento titubeia entre o ser e o não ser. Entre o antônimo e o sinónimo. Sou metáfora do iceberg! Na encruzilhada, vacilo entre a esquerda e a direita. Procuro a minha identidade…! Que perfume estranho!
TERÇA-FEIRA: Finalmente ontem, consegui escapar-me do quimbanda. Que horror! Mais de um mês que não tomo banho. Meu corpo tem o cheiro de folhas e raízes.  Esta gente devia merecer um tratamento especial, pois é extremamente empreendedora. Sabe retirar dinheiro do bolso do pacato cidadão sem anunciar assalto. São psicólogos das aldeias globais. Aldeias? Agora também das grandes cidades. O quimbanda modernizou-se a ponto de ter tradutor para português, francês e inglês, cobra em dólar, tem cartão multicaixa, cartão-de-visita, Internet, portfólio e anda em jeep zero 0 km. Pudera, com tanta clientela de luxo!... Incrível, quimbanda também usa entre os seus amuletos a bíblia como um pastor!
QUARTA-FEIRA: Vagueio sem destino. Dizem que estou a enlouquecer. Também essa era a opinião do quimbanda. Disse que tudo começou, quando um gato preto apareceu no telhado lá de casa naquela noite em que acordei sobressaltado. O gato miava como criança faminta. Segundo ele, se esse gato não fosse caçado seria um dilúvio em toda a família.  E para apanhar o gato pediu 5 mil dólares e uma cesta básica, onde incluiria uma lata grande de leite Nido selada. Mandou colocar a lata de leite no tecto lá de casa e pediu que a trouxesse de volta uma semana depois. Qual foi o espanto ao abrir a lata! O espanto foi ver um gato inflamado a sair do seu interior e com uma corda atando-lhe o pescoço. Era preto. Não acreditei! Pediu mais 5 mil dólares para remover todas as desgraças lá de casa. Foi aí que perdi a cabeça! Uma cabeçada no olho esquerdo deixou-lhe inconsciente. A seguir agarrei no pescoço do tradutor afrancesado e obrigue-o a ingerir uma mistura que havia preparado para mim. Minutos depois, caiu exausto sobre a possa de fezes e vómitos. Seria eu!
QUINTA-FEIRA: Falo ao vento, mas falar ao vento na cidade não é mesma coisa que na aldeia. As palavras faladas ao vento na aldeia não se perdem no ar, são captadas pelos deuses, nossos antepassados… São estes que intercediam por nós. Agora, o pôr-do-sol perdeu o seu colorido e as palmeiras a sua valsa vespertina. As perdizes pararam de esgaravatar o solo, deixaram-se enlear pela mornes da terra e as garças taciturnas evitam o horizonte.  
Sabe por que o sonho acaba na melhor parte? Não?! Porque o destino espera que você acorde para vida e realiza o teu sonho, pois não serão os outros a fazerem-no por ti. A única razão para escrever-te é porque preciso falar, desabafar, libertar-se do fardo do silêncio condoído, antes que este petardo exploda aqui no peito e pare o palpitar inquieto do coração. Mas tenho medo! Mas como dizes muito bem no seu mural, se não encontras solução para determinado problema, pode ser que você seja parte dele. Desculpa se lhe vou incomodar, talvez encontre nesse gesto o pretexto para continuar a seguir adiante a solo mesmo com os solavancos do caminho. Temo melindra-lo com as minhas conjecturas, equívocos, conflitos e cobranças, quando você barganha tempo ao sono e ao sossego familiar para dar conta dos imperativos que os seus afazeres lhe impõe. Eu tenho medo de não me entenderes, porque o passar dos anos talvez cristalizem o pensamento - estigmatizem o reiterar dos dias comuns. Mas o medo é antigo. Desde pequeno que era proibido chorar ou gritar à noite, pois dizia-se, sua voz podia ser levada pela alma de outro mundo. E onde fica o outro mundo, ninguém sabia ao certo. Acreditava-se apenas.
Olhava enviusado, quando a voz áspera do velho Quitumba Kiazumba gritava da sua casa cercada pela floresta . Toda a aldeia estremecia e calava-se o choro de crianças rabugentas. Ele era o medo, ninguém ousava desafia-lo.
– Está a ouvir o tutú? Ninguém se ria do filósofo da aldeia, cujas tiradas ficaram na memória de hoje: O mundo é feito de coisas que estão em permanente movimento, dizia com sua voz de trovão… Ainda me lembre!... Certa vez, o filósofo foi ao Posto Médico da roça de café, pois tinha febres e dores em todo corpo. Pediram-lhe que trouxesse fezes e urina em dois frasquinhos para serem analisadas. Contrariado recebeu os dois fraquinhos vazios antes usados para Penicilina. Caminhou indeciso até a casa de banho. Tudo estava asseado, era a primeira vez que entrava para uma casa de brancos. E ficou a olhar intrigado para a sanita e o bidé. Os tamanhos eram diferentes. Um era alto, parecendo um pequeno pilão, instrumento multiuso, que servia para triturar o milho, as folhas para fazer kizaca, moer o feijão para o quitandé (Feijão descascado e posteriormente pisado e cozido, Nkalé). É multiuso que até já vi pilão a caminho do Kilamba!...
Velho Quitumba, depois de vários minutos de indecisão, optou pelo bidé. Era mais largo. E cometeu a maior desgraça. Os excrementos espalharam-se pelo chão e o cheiro inundou o ambiente. Aflito abriu a porta e correu alucinado em direcção à aldeia. Jurou jamais voltar. Ao verem-lhe chegar com o pânico estampado no rosto, justificou-se dizendo que havia encontrado um corta-cabeças no caminho do hospital. Queria chupar o seu sangue. E contava com todos os pormenores. Toda a aldeia acreditou.
Dias depois, a doença imobilizou-lhe na cama. Aflito chamou pelo enfermeiro da aldeia que o aconselhou procurar um médico. Ele recusou-se a voltar para o Posto Médico, optando em ficar a dormir na sua cama de paus. Doente dorme, doença não! Certa noite, chamado de urgência, o enfermeiro encontrou-o a gemer de febre.
- Têm que analisar as tuas fezes e a urina para ver se tens infecção de parasitose ou de bactérias.
-Bataria? – Disse entre os dentes, enquanto gemia!
- Bactéria!
- Sukuama! Pessoa também tem bataria!
O enfermeiro preferiu o silêncio. Não adiantava insistir. Aplicou-lhe analgésicos para baixar a febre.
- Vais ao hospital e lá, depois das análises, irás saber se o resultado é positivo ou negativo. Mas trate de levar o produto. Se for positivo…
- Brututu?... E se for pujitivo?
- Se for positivo, quer dizer que tens alguma infecção.
- Pujitivo, está male?... - Uá-ué, nga fu, quer dizer que tem infenção na bataria?!!! – e ficou ainda mais intrigado.
Mas forçado pela enfermidade, dia seguinte, partiu cedinho em direcção ao Posto Médico, levando no saco de pano dois recipientes. Ao chegar apresentou-os ao enfermeiro de serviço. Questionado, disse que vinha da parte do enfermeiro Ferreira e que tencionava fazer exames. E exibiu as duas garrafas de refrigerante Mission, uma cheia de urina e outra de fezes. O enfermeiro deu um grito e o velho deixou cair os vasilhames. A urina e as fezes espalharam-se na sala, afugentado os doentes que aguardavam atendimento.
Envergonhado partiu e jamais voltou ao hospital. Daí, sempre buscou a cura nas plantas do campo.
- O branco é complicado! Faz as coisas só p’ra ele! Nós também podemos fazer o que é nosso. - E foi assim que ele se tornou em quimbandeiro.
Me perdi. Desculpa, amigo! Pois, dizia: Queria falar-te. Os anos estão a passar e a vida se esvai no ritmo do tempo. Um temporal de ansiedades nos persegue e abate. Viu? É a memória ainda povoada de estórias do mato e de pretos rotos que sobem as palmeiras a correr. Bebem marufo e aguardente de milho e dormem felizes, despertando tranquilos sob a sinfonia do chilrear de pássaros. Dizem que são matumbos porque não são civilizados como os da cidade. Qual cidade? Perdi a fronteira.
SEXTA-FEIRA: Estou algures na estrada de Catete. Carros velozes sobem e descem. Quem estará no seu interior?! Deve ter alguém com coração. Estico o braço em vão. Ninguém olha p’ra mim. Boleia na carrinha Datsun, Bedford ou Peugeot foi com o colono. Caridade emigrou.
SÁBADO: Ardinas vendem jornais aos condutores. Aumentaram o número de jornais, mas nunca mais os li. Ando demasiado ocupado com o meu destino! Tenho 500 dólares que retirei do bolso do casaco do quimbanda. Mas do jeito esfarrapado como me apresento, ninguém vai acreditar nem em mim nem no meu dinheiro. Maluco não pode ter dinheiro! Serei logo assaltado pelo vendedor.
DOMINGO: Cheguei, mas ninguém está em casa. Foram todos à igreja. Não tenho forças para subir o muro. É preciso ter fé! Adormeço e espero, mas a mão está no bolso do dinheiro. Suku, suku, suku!...

Sábado, 6 de Abril de 2013

Olho mágico


  • A algazarra conquistava a natureza. O sol sumia lá longe deixando no rasto a ternura do adeus. Como no cais, as aves, depois de mais um dia de luta pela vida, aconchegavam-se tranquilas nos ninhos. E celebravam alegres, entoando a canção de enleio à vida. O quimbanda ébrio de tanta aguardente de banana olhava perdido para o horizonte onde a brisa do ocaso brincava serena sobre o verde da paisagem.
O homem recém-chegado, e que tinha a perna, dizia-se, inflamada por uma tala maligna, com ais de dores contorcia-se, tendo estampado no rosto o sofrimento em forma de uma máscara rústica.
A esposa desesperava-se na ânsia de encontrar a cura para a enfermidade que deixara inesperadamente o seu homem sem a capacidade para se movimentar por suas próprias pernas.
A assistência olhava em silêncio, esquecendo-se momentaneamente da sua própria dor. Foi naquele instante que o telefone de um dos ocupantes do Corolla despertou tendo como ton a música: “SÓ ME RESTA É CHORAR, MAMÃE UÉ!…UÓUÓUÓ…” O homem atendou afastando-se do enxame onde estivera.
- Alô mano, estás onde? Localização…! – Na voz do interlocutor, percebia-se nitidamente uma certa urgência.
- Estou a tratar daquele assunto da mana! Que se passa?
- Durante o dia, andei a tentar várias vezes para contactar-lhe, mas o teu telefone dava sempre fora de área de cobertura. Estavas com telefone desligado?
- Não, meu telefone esteve sempre ligado, deve ser a maca da rede. Sabe, quando cai chuva ela traz sempre problemas na rede de telecomunicações, na rede rodoviária, na rede ferroviária, na rede eléctrica, na rede de abastecimento de água! Se chove, é porque choveu. Se não chove…!
- Olha, tens de regressar com urgência! Hoje de manhã encontramos um aviso pregado na porta do edifício a exigir o pagamento dos meses atrasados.
-A tua cunhada não foi lá?
- Olha, por outro lado, teu filho está com dengue.
- O Kandengue?
- Sim! O Kandengue está com dengue!
-Dengue é quê?
- É uma nova doença, irmã do paludismo! Paludismo vai contar coma ajuda da irmã dengue…A cunhada está desesperada. Não sabe se vai ao hospital ou ao Banco. A imobiliária ameaça inclusive despejar todos aqueles que não o façam nos prazos solicitados, isto é dentro de quatro dias.
- Este aviso é de quando?
- Tem data de 13 de Março, mas foi afixado no dia 23. Tens de pagar os cinco meses de atraso, senão…! A mana, foi lá na imobiliária na segunda-feira. No local encontrou dezenas de moradores abraços com a mesma situação. Faltaram ao serviço para resolver o tal problema, mas até às 10 horas não apareceu ninguém. O Hiace da empresa passava e repassava sem dizer nada. Quando foram 11 horas, apareceram alguns funcionários… Você não vai acreditar no que disseram!
- Disseram o quê?
- Apenas vieram para os informar que o local indicado no aviso já não era aquele. E apontaram um outro lugar. E lá foram todos a correr para o outro local. Postos lá, funcionária não tinha nem papel para escrever nem informações para dar aos moradores, porque o chefe não estava. Aquilo é mesmo brincar com os cidadãos.
- No acto da assinatura dos contratos, cada arrendatário fez a entrega do número da conta com o respectivo IBAN para que fossem descontados mensalmente. A maioria não foi descontada. E tem mais! Outros pagaram ou devem pagar renda de apartamentos que não são o que de facto ocupam. Por exemplo, há quem more no nº 22 mas o recibo faz referência ao 24. Isso assim ainda vai dar diculo.
- Mas isso não é possível!... O contrato foi assinado numa altura que o meu apartamento custava 125 mil dólares. Como é renda resolúvel devia paga 603 dólares por mês. Mês depois, o Executivo baixa os preço para 70 mil dólares. Não seria justo reverem o valor da renda?... Se não vamos pagar um valor superior ao preço do apartamento… Eu até já queria pagar a totalidade do valor do apartamento, mas a imobiliária exigiu requerimento para o efeito Fundo de Fomento Habitacional. Fiz. Depois me disseram que era na Delta. Possa, na casa de renda o sono não acaba mesmo!...
- Então, é melhor vir. Porque se já começaram assim, com estas ameaças, com estas arrogâncias, tudo pode acontecer. Com tanta gente aflita em busca de casa para morar, as vezes é pretexto para vos retirar do apartamento. E preparem-se, quando a factura da água e da energia eléctrica chegar, muita gente vai arrumar a trouxas para o Zango 5… As gémeas de Luanda, a Edel e a Epal o que fazem!
O homem agitou-se. O telefone mudava de mão e de orelha várias vezes. Ele estava inconformado. Cinquenta anos esperou ansioso por aquela oportunidade: a de ter acesso a uma casa condigna num espaço com as melhores condições de habitabilidade jamais vista desde que seu país se tornara independente da potência colonizadora. Por isso fizera grande festa, quando recebeu as chaves do apartamento. A espera foi angustiante. As noites mal dormidas.
Acompanhado da esposa e do funcionário da imobiliária, depois de abrirem a porta, jogou-se e rolou na poeira que cobria o chão da sala. Naqueles instantes, percorrera as léguas da vida. A sua vida humilde na aldeia em que nascera e crescera. Os pés descalços no caminho da escola e a humilhação da gente rica ao troçarem a sua bata furada pelo uso reiterado ou o seu lanche que era quase sempre banana ou mandioca cozida com dendém ou ainda milho torrado trazido numa garrafa com água. Mastigava com dor e raiva. Algumas vezes chorou inconsolável a sua sorte. Inclusive já fizera queixa à professora, mas esta não se manifestara solidária. - Rapaz, tu és pobre, o que esperas? – disse, enquanto alisava descontraída a sua maquiagem.
Naquele dia, ele voltou para casa e ao longo de todo o percurso, continuou a repetir com lágrimas as palavras da professora: - Rapaz, tu és pobre, o que esperas?
Informou ao seu pai do sucedido. O pai abraçou-lhe com carinho e depois tirou 5 escudos da algibeira para que ele comprasse pão com ginguba no recreio. E quando ia receber a moeda percebeu que seu pai também chorava. Nunca mais se esqueceu daqueles dois momentos.
Cresceu repetindo as palavras da professora loira e a lembrar as lágrimas do pai sobre o rosto engelhado. Quando os Capitães de Abril saíram à rua de Lisboa, ele ficou feliz, pois ninguém mais depois de tudo lhe iria voltar a humilhar.
Lembrou-se da Lua-cheia, da Má-língua, do seu rio da infância onde se banhava antes de ir à escola. Memória dos seus amigos e companheiros de todas a horas. César, Prazeres, Pascoal, Fama…
Agora estava feliz. Não se importou com a poeira nem com os chuveiros que haviam sido roubados no apartamento.
Passados cinco meses eis que despertou do sonho. Ofegante, não acreditava no que ouvia. Recebera o apartamento em Setembro e mudou-se. Foi o primeiro morador a desembarcar com os seus parcos haveres. Seus móveis cansados de tantos anos de espera por substituição, por isso fez a mudança à noite, por volta das 20 horas, para evitar a bisbilhotice de gente disponível para comentar a vida alheia.
Pagara apenas o primeiro mês, depois a imobiliária, em comunicado afixado na soleira da porta do edifício, pediu aos moradores que não fizessem qualquer tipo de pagamento, aguardando por novas ordens. Aguardaram por novas informações desde Outubro, Novembro, Dezembro. Janeiro, Fevereiro. Eis que agora em Março chega o novo aviso em forma de ultimato. Um pedregulho no vidro da esperança!
Desligou o telefone e chamou rapidamente pelos seus companheiros. Wandalika também aproximou-se na ânsia de partir.
-Temos de bazar, me querem tirar o apartamento do Kilamba!... Vamos, antes que não seja tarde!... Tu estás doente, vais ficar! – disse o condutor dirigindo-se com rispidez ao Wandalika.
Os demais embarcaram e partiram apressados acelerando o Corolla. Wandalika ficou estático entre a fumaça expelida pelo velho motor. E teve dó.
- Coitados! Se acreditam tanto no quimbanda, então, antes de partirem, deviam pelo menos fazer um tratamento para ver se conseguiam acalmar a imobiliária… Isso ainda vai-lhes render aborrecimentos. Mil desassossegos!
Suspirou e procurou um adobe de consolo para sentar-se enquanto aguardava resignado pela sua sorte! E pela primeira vez, nos últimos anos, voltou a sentir aquela saudade que diante do vazio, destroça qualquer coração. Saudade da sua vida simples e despreocupada da aldeia. Da sua modesta casa construída na colina e afagada pela sombra de frondosas mangueiras. Saudade do milho torrado e do funge quipicula feito com óleo de palma e sal. E do sono sossegado no colchão de palha ou na esteira. O acordar tranquilo sob a sinfonia do canto de galos e pássaros! As cidades possuem tudo, mas não têm galos nem galhos para poleiros dos mais variados pássaros da sua infância.
- Ai Chorinho doce, de Adélia:
Eu já tive e perdi/Uma casa,/Um jardim, uma soleira, uma porta/Um caixão de janela com um perfil./Eu sabia uma modinha e não sei mais./Quando a vida dá folga, pego a querer/A soleira/O portal/O jardim mais a casa/O caixão de janela e aquele rosto de banda. Tudo impossível./Tudo de outro dono,/Tudo de tempo e vento. Então me dá choro, horas e horas,/O coração amolecido como figo em calda.

Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Encontro com Salif Keita no deserto


No caleidoscópio, como nevoeiro que cobre as manhãs do interior, Wandalika ainda trazia no semblante a inquietude e na retina a imagem de crianças famintas, angariadas no interior da província da Huila para o trabalho agrícola nas fazendas do Namibe. Na fusão, se sobrepõe o retrato de adultos e adolescentes carregando água em baldes e bidons amarelos na cidade do Kilamba, enquanto aí perto uma fila de camiões cisternas abastecem-se do precioso líquido para comercialização.
Bidons, bacias e baldes são adereços obrigatórios, que ganharam com justiça um lugar cativo em todos os apartamentos, daí a sua justificada demanda no inflacionado mercado luandense. Estes utensílios de tão procurados até entraram para a longa lista de pedidos de casamento, sentando-se à direita do incontornável companheiro, o gerador.
Os seus sentidos confundem a realidade e a ficção. Talvez seja da ansiedade! Talvez seja da sonolência. Talvez seja da fome. Talvez seja da sede. Talvez seja do cansaço da espera incerta. A espera é como as melancias, verdes por fora e sangrando por dentro. Talvez seja da demência. Talvez seja dos solavancos e da poeira da obra da estrada da Penitenciária de Luanda.
Apesar da conjugação do futuro imperfeito, ele sentia-se aliviado. Pelo menos não ficaria preso como cogitara ao ser forçado a iniciar uma odisseia ao lado de quatro desconhecidos. Estar preso é ser privado da liberdade. É não puder ir onde se quer na hora que se quiser. E ele já acumulara experiência de sobra desde a primeira vez que fora preso por brincar com a Esperança. Dormiu no chão da cela, cobriu-se com papelões e a casa de banho estava desprovida do lavatório e da sanita. No lugar da sanita, apenas sobrara um buraco negro vigiado por dezenas de moscas. Usá-lo era preciso uma dose de pontaria, para não falhar o alvo. O procedimento era: 1º - apoiar correctamente os pés fixando-os no pavimento ao lado da abertura; 2º - regular a altura, flexionando as pernas e seguidamente tranca-las com os antebraços atrás dos joelhos. Era como se de uma corrediça da alça de mira se tratasse.
A refeição? Quando houvesse era arroz com chouriço ou com frango. As poucas vezes em que melhor se alimentou, foi graças à refeição trazida pela esposa de um presidiário que havia sido condenado por homicídio. Era tempo de estiagem e a manutenção dos presos era uma tarefa bastante difícil num contexto marcado pela escassez.
Wandalika partilhava a cela com o autor de um crime hediondo. Pelo facto do seu crime não ser grave, podia muito bem aguardar o julgamento em liberdade… Sim. E logo se lembra da estratégia gizada pelo anterior ministro do Interior para o combate à superlotação das cadeias. As pulseiras electrónicas seriam usadas pelos presos para o seu controlo à distância. Por isso torce para que o projecto conste no Orçamento Geral do Estado para 2013.
A implementação do projecto das tornozeleiras electrónicas iria reduzir o número de presos que entupem as prisões e pouparia milhões de dólares canalizados para a construção de novas cadeias, infra-estruturas de apoio, abastecimento com alimentação, água, energia eléctrica, assistência médica e medicamentosa, bem como o pagamento de pessoal de segurança.
A criminalidade custa cara a qualquer Estado. A título de exemplo, tendo em conta valores de 2011, a vigilância electrónica custa ao Estado português 16,35 euros, enquanto o custo médio diário de um recluso é de 47,81 euros.
Já no Brasil, o custo com cada preso é de pouco mais de 1.800,00 reais por mês, cerca de 900 dólares. Com o novo sistema, o custo será de R$ 539,58 por mês (300 dólares aproximadamente).
Além da redução dos recursos canalizados para a manutenção dos presidiários, a medida deverá trazer também mais benefícios para o processo de reinserção social dos condenados, que passam a ter convivência familiar e condições de estudar e trabalhar normalmente.
Por conta das reduções dos números de detentos, aqueles que permaneceriam nos presídios, teriam maior espaço e condições de maior sanidade.
Assim, combater-se-ia a ociosidade que é outra inimiga do presidiário. Permanecer todos os dias fechado numa jaula é coisa que mais os fragiliza comprometendo a sua reeducação. A criação de hortas, carpintarias, oficinas de veículos e máquinas, fábrica de blocos, escolas e bibliotecas era importante para que pudessem vencer o relógio preguiçoso da prisão.
Eram quase 13 horas. Naquele momento, um peão procura atravessar a rua movimentada. Ao chegar no meio da faixa de rodagem, ele vacila e recua correndo para o ponto de partida. No trajecto quase foi colhido por uma motocicleta. Elas estão em todo lado e não respeitam nada e ainda reclamam batendo arrogantes com o punho nas viaturas quando os condutores destas não os deixam passar. E acham que têm sempre razão!
O Corolla, em que ia Wandalika, teve de travar de repente.
- Olha o jornal! Olha o Jornal!
Naquele instante, um ardina aproximava-se com várias publicações. Wandalika esticou o pescoço para espreitar as manchetes do único diário da República de Angola. Assustou-se…
Mas logo o carro acelerou, deixando para trás o adolescente. E a alma reteve o susto. A figura que aparecia na capa usava traje tradicional onde sobressaía o lenço feito túnica cobrindo a cabeça. Quem será?... Será o presidente líbio Muammar Khadafi?...
Khadafi não pode ser, pois este foi morto em 2011, depois de vários meses de resistência contra os revoltosos vindos de Benghazi e sempre apoiados pela OTAN.  
- Em 20 de Outubro de 2011, foi formada uma coluna de mais de 40 veículos que deveria, antes do amanhecer, fugir de Sirte  em direcção à aldeia de Jaref, localizada a 20 quilómetros a oeste da cidade sitiada. Mas a coluna somente partiu por volta das 8 horas da manhã e aviões da OTAN rapidamente atingiram um dos veículos da mesma. Um segundo ataque aéreo causou um maior número de vítimas e atingiu o carro onde ele estava e, por isso, teve que tentar continuar a fuga a pé, mas foi cercado, capturado e morto.
Wandalika ainda se lembra do antigo líder líbio com seu traje e a sua guarda percorrendo os corredores da Sede da União Africana. Ainda ouve a sua voz entusiástica e vê os seus gestos frenéticos no palanque da União Africana projectando os Estados Unidos da África. Ele queria uma África livre e independente de facto, que fosse capaz de ser dona dos seus próprios destinos.
- Na véspera  de uma das Cimeiras, naltura na qualidade de presidente da UA, o líder líbio Muammar Khadafi, concedeu uma longa entrevista a agência PANA, manifestando o seu cepticismo quanto aos resultados alcançados pela organização desde a sua criação. Segundo ele, passados cerca de dez anos após a proclamação da UA “e na sequência de um trabalho laborioso, os africanos rendem-se, infelizmente, à evidência de que o continente continua longe de realizar o seu projecto de uma África Unida.
Kadhafi foi morto sem conseguir atingir o seu sonho. E mesmo nos momentos mais derradeiros dos combates em Trípoli, poucos ou raros irmãos africanos o ajudaram.
 Como praga, na sequência da sua morte, deflagraram ou se acirraram conflitos antes latentes em vários pontos do continente: Costa do Marfim, Guiné Bissau, Mali, RDC e República Centro africana. E o continente, 50 anos depois da proclamação da Unidade Africana, tem-se mostrado incapaz de solucionar os seus próprios conflitos e carências, a ponto de apelar para a presença de tropas francesas e de apoio logístico de outros países da OTAN e dos EUA para fazer face à ameaça de desagregação do Mali.
A conflitualidade que se regista na República do Mali tem probabilidade de afectar países vizinhos. Basta observar a dimensão territorial e a quantidade de países que o cercam. Argélia, (que ainda procura curar as feridas deixadas pelo ataque terrorista contra as suas instalações petrolíferas), o Níger, Burquina Faso, Cote D´Ivoire, Guiné Bissau, Guiné Conacry, Senegal.
As mesmas armas que assassinaram o antigo líder líbio estão hoje apontadas contra os tuaregues, que são tão africanos como ele. Que futuro?
Como disse o europeu Henry Palmerston “Nós não temos aliados eternos nem inimigos perpétuos. Nossos interesses é que são eternos e perpétuos, e nosso dever está em perseguir esses interesses.”
 E os interesses geoestratégicos das grandes potências vão vincar, pois o Mali é um país rico em Ouro, Urânio, tendo também reservas de cobre, diamante, ferro, manganês, fosfato, bauxita, zingo, lítio entre outros minerais.
Afro-pessimistas, afro-optimistas, pan-africanistas… Wandalika suspira com mágoa. E rumina no silêncio as palavras do Presidente António Agostinho Neto: - «Hoje a África é como um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço».
E com a sonoridade da música “Yamore”, do cantor maliano Salif Keita e Cesária Évora, os ocupantes do Corolla seguem em direcção ao município do Cacuaco... Todos gargalham descontraídos. Só ele está triste, introspectivo!... - Abutres sobre o corpo inerte!…

Não grita seus anseios                                  
no receio de perturbar um mundo
que o ofusca
com o falso brilho dos seus ouropéis.”

E Wandalika chora suas lágrimas de indignação.
AI NETO!... 

Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

Optimismo da Esperança


Algures, o Mundo espreguiçava-se no leito para o esforço de um novo dia e tão logo como abelhas se lançarão de mangas arregaçadas ao labor em busca do pólen da vida, suando na ânsia de se alcançar o sonho de felicidade. Esta felicidade dos homens, que o modernista brasileiro Oswald de Andrade, considerou como sendo uma felicidade carniceira, pois a última coisa que sobrava no cadáver era o dente. A felicidade, todos nós queremos! E é por ela que se batem em renhidas disputas indivíduos, povos e nações inteiras.
Aqui Wandalika, incrédulo, na esguelha das suas lembranças vespertinas, o raiar do sol encaminhava-lhe para um novo destino. Murmúrios de vozes brotam do seio de uma multidão espremida à saída do quintal de portão rudimentar para verem passar o carro que o transportava.
Em silêncio e com o olhar ainda fortemente marcado pelas mazelas da surpresa, lá estava ele ensardinhado entre dois varões. Um uá-ué desabrocha e perpassa a multidão angustiada desfazendo-se em lágrimas. Mas ficam apenas no gemido resignado. Condoíam-se com a sorte alheia, porém muito pouco ou nada tinham para contrariar a torrente do destino.
Como ovelhas submissas viviam suas vidas lineares sem grandes ambições, nem cobranças, palmilhando os mesmos caminhos, encruzilhadas e prazeres da infância com os mesmos pés descalços, que resmungavam aos espinhos e colisões contra as pedras do trajecto.
Era o sentimento comum de gente simples, de bairros também simples, criados na periferia das cidades, oscilando errante entre a modernidade e tradição. Aí a notícia chegava calma, descia a encosta e perdurava além das 24 horas, num cenário que o relógio tinha pouca serventia. Tinham o Rei-Sol como guia. Não viviam apressados, aflitos, ofegantes, como se o Fim do Mundo estivesse a poucas horas. 
Apesar do vendaval urbano que sopra persistente despenteando o capim da floresta do vale, eles ainda zelosos, cultivavam valores como a obediência, a humildade, a honestidade e o amor ao próximo. A alegria repousava no partilhar com equidade o pouco que se tinha e, assim, se diziam felizes, pelo menos compreendiam na devida dimensão que riso à solo podia ser o limiar da demência.
Na sua lhaneza, os dias tinham todos o mesmo colorido do pôr-do-sol com seus lilases e perfumes de flores silvestres, embriagando a tela da vida com a sua magia.
Ao anoitecer, depois do jantar, ao luar brincavam e cantavam e contavam as suas estórias procurando costurar o sentido da vida. Não falavam do Patinho Feio vindo da Europa. Para eles, esta estória dos brancos era triste. Pois como aceitar que um patinho só por ter nascido feio fosse excluído do seio da sua família sendo obrigado a refugiar-se. Eles não pensavam assim. Se fosse assim, talvez as aldeias estivessem vazias, mas não. Cimentavam a harmonia e a concórdia como ingredientes para a solidificação das suas comunidades. A Estória do Patinho Feio é uma lição flagrante de exclusão, que não deve ser apreendida pelas suas crianças, que desejam felizes e fortes na solidariedade.
Felicidade!... Os anos iniciavam e terminavam, deixando atrás de si lembranças boas e más ou rugas da longa espera por um dia de sonho. Mas tinham esperança. A tal esperança que é a última que perece no confronto renhido pela sobrevivência.
A esperança do náufrago por uma folha ou tronco ainda que minúsculo que flutue sobre as águas tempestuosas do rio. A esperança do moribundo pelo milagre para reverter o quadro clínico definido pelo médico como altamente reservado, quando os gestos dos enfermeiros traduzem o vazio da espera vaga por algo que supere as suas capacidades sempre limitadas.
- Nem sei se acordará amanhã.
Mas, contra todos os prognósticos e diagnósticos, dia seguinte, o paciente, não só continua vivo, mar soergue-se trôpego da cama para ir ao banheiro e no seu regresso pede água para humedecer a garganta e sopa para reabrir o caminho dos alimentos. A esperança pela promessa ainda promessa.
Esperança-fé. Esperança, mola que impulsiona energias e vontades para se alcançar a meta. A esperança pelo amor que nos faça depois do altar definitivamente livres-felizes e remova do escaninho da memória as placas de lembranças e frustrações feitas paradigma do reiterar dos anos. Para ele Wandalika, não havia desespero pois este estava fixado no limite além espera.
E lembra-se da sua Esperança. E nesse instante, o seu rosto triste é iluminado por um morno sorriso. A Esperança, alta, andar senhorial, era uma moça bonita nos seus 18 anos, exalando perfume de sua beleza e juventude nos caminhos da aldeia. Atrás de si a cobiça fazia brotar da mente comentário miúdo de adultos envelhecidos pelo passar dos cacimbos. Nos jogos de cabra-cega, garrafinha ou de banana-verde era incansável, corria, driblava sem perder equilíbrio, feita flecha atirada certeira para o alvo. Usava duas tranças na cabeça arredondada, vulgo tranças bailundo. Nela, cabeça, corpo, olhos, lábios, nariz e voz. Tudo era harmónica despertando suspiros de antropófagos.
Wandalika, descarregou num suspiro todo o seu desgosto. Lá estava ele olhando através da janela do velho Corolla uma miscelânea de rostos de olhares terrosos, cabelos multicolores e gestos e mímicas. Confuso, não acenou, deixou-se ficar quieto entre os seus algozes.
E seguiram viagem em direcção à Baixa de Luanda. O homem que ia ao lado do condutor olhava frequentemente para trás, enquanto andava de um lado para o outro com o sintonizador do rádio receptor. Os demais mascavam de forma ruidosa uma mistura de raízes e folhas de Santamaria na ânsia de afugentar os maus espíritos.
Durante alguns instantes uma música suave invadiu os seus ouvidos, mas depois saltou para uma outra rádio. Não demorou-se. Talvez pela baixa qualidade sonora e dos seus programas. Era Para-Lamentar! Devia estar em quarentena durante algum período até melhorar a qualidade da sua grelha. Logo o homem mudou de frequência e, pela primeira vez, estavam de acordo.
RÁDIO3: Um correspondente falava de camiões atolados na lama da estrada no Kuando Kubango. As chuvas que se abateram no sul de Angola abriram ravinas e cortaram a circulação rodoviária. Um grito aflito temendo a deterioração das mercadorias do Natal. Tinham esperança…
- RÁDIO4. Falava da preparação dos Palancas para o CAN da África do Sul. A Esperança é chegar o mais longe possível. Por que não às meias-finais?
RÁDIO5- Abordava aspectos relacionados com a economia do país. A agricultura, pecuária e indústria, crédito à economia, agricultores do fim-de-semana. Irrigação! Ordenamento do território. O Vector da economia! Que já devia ganhar prémio nacional de jornalismo pelo contributo que tem dado para a reflexão sobre as questões do desenvolvimento do país. A esperança é viúva, é última que morre!
RADIO6- Tudo está atoa no trânsito da grande metrópole. Inquilinos de bairros dormitórios vêem-se aflitos para chegar ao centro da cidade. Essa é sua rotina. De manhã, descem aturando longo engarrafamento e à tarde idem. O custo do engarrafamento não entra nas estatísticas, mas é alto. Milhões de litros de combustíveis consumidos num trajecto de 30 quilómetros. E o custos com o stress e suas doenças derivadas? E a baixa produtividade? E o mau-humor? E os conflitos domésticos?
RADIO7- Diz-se de Escola, mas concebida para servir de laboratório para os alunos de jornalismo, no viés do projecto, virou rádio comercial. Os cursos de rádio, Tv e de jornalismo, que até tinham muita audiência e importância, jamais foram leccionados. Cefojor é simples sigla na memória como Dinaprop, Econdipa, Empa, Egrosbind, Egrosbal…
RADIO8- Era o de Línguas Nacionais. A língua é um instrumento importante para a preservação da identidade de um povo, mas cada dia que passa o número de falantes cai perigosamente para o vazio. A força da língua está no perfil dos falantes. Língua apenas falada por velhos, pobres e analfabetos está moribunda. A Faculdade ensina língua nacionais, mas quantos estudantes aprenderam comunicar-se de facto. É só para passar de classe. Ainda que aprendessem, onde iriam poder exercitar? Na Rua?... No serviço?… O preconceito ainda reina. Nenhuma telenovela Nacional tem um personagem que se exprima em língua nacional. Só na Radionovela Camatondo! Que valores nacionais se quer preservar?
Naquele momento, o carro que transportava Wandalika atinge finalmente a Maria Pia. Pensou que o internariam, mas não. Ficou triste, pois pelo menos terminaria a incerteza, o suspense. 
Desceram a Avenida 1º Congresso, admirou as novas construções com vidros reluzentes e os vários guindaste q     eu se disseminavam pela baixa luandense e arredores. E ficou feliz. Depois, ao passar no Cine Nacional, lembrou-se dos velhos tempos. Henrik Ibsen era a sua paixão. E jamais se esqueceu da peça “Um inimigo do povo”. Lembra-se que depois de ter sido escolhida pelo seu Grupo, ela não foi encenada por falta de actores à altura do texto dramático. Teatro tem de contar com bons actores. Mede-se a cultura de um povo pelo seu teatro, dizia Garcia Lorca. E ele sorri. Olharam-no, assustados.
Atingem a Marginal e rapidamente chegam ao Porto, encaminhando-se para o bairro Boa Vista. Poeiras mil! Havia um grande engarrafamento. A estrada que sai de um dos portos comerciais mais importantes do Continente africano, que movimenta milhões de dólares em mercadorias por dia, está altamente degradada. Camiões com contentores circulam com dificuldade e os acidentes fazem rotina. As construções desceram o morro e invadiram a antiga estrada.
- Chefe, vão me levar pra onde?
- Você não é pessoa, não tem direito à palavra!...
- Eu então não fiz nada! Estão a me levar na penitenciária por que?...
- Cala essa boca, Kazumbi!... Vou te levar na igreja
- Pai, não me faz isso, faz favor. Vão me matar!...

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

Regresso de Pessoa


Há mais de uma semana que ele desaparecera. Em sua casa, uma multidão de familiares e amigos aguardava ansiosa por notícias sobre o seu paradeiro. A esposa, sentada na esteira da viuvez, cansava-se em contar e recontar as circunstâncias que envolveram o seu desaparecimento. Pai, já se foi em tudo que é morgue nesta cidade, mas até agora nada! Já fomos no Ecos & Factos, da TPA… O mano não viu ontem a foto dele?… Passou na Televisão, até as famílias da província telefonaram a perguntar… Hummm, azar procura o dono!... Pai, azar não custa que custa é casar! E com gesto pesaroso se erguiam, suspirando as suas angústias e sofrimentos.  Coragem!!!
Ao se verem livres, afastados do quarto, lá fora reuniam seus parceiros para o jogo de cartas, enquanto outros procuravam trocar impressões sobre a vida quotidiana nos seus bairros e aldeias. Os das aldeias, falavam da chuva que caia e da germinação das sementes no campo. O verde da paisagem do milheiral que se estendia para além do horizonte. Contabilizavam os custos com a mão-de-obra, o aluguer do tractor na empresa de mecanização agrícola, o transporte e os inseticidas usados no combate aos insectos nocivos à plantação, antevendo as margens de lucros. E todos eram unânimes: Os agricultores trabalhavam dia e noite para aumentar a produção de milho, hortícolas, feijão, mandioca, batata e tantos outros produtos do campo, mas no fim quem mais ganhava são os comerciantes. Por isso, vêem-se mais gente a comercializar do que a produzir no campo. E o campo começa a se tornar pouco atractivo. Por isso é que as pessoas estão a fugir. O trabalho do campo é muito duro, é preciso ter muita força de vontade para aguentar. O ano inteiro não há feriado. Tudo começa com a preparação do campo para a sementeira: a capina, a recolha e queima do capim, a sementeira, a luta contra as aves e os macacos colocando espantalhos em toda lavra ou marcando presença diária, gritando e batendo o tambor. A sacha, a luta contra os javalis, veados e elefantes que procuram folhas tenrinhas para saborear e matar a fome.
A conjugação de exclamações e interjeições procuravam exprimir a dimensão do estrago que cada interveniente provocaria à plantação:
Eh, pai! Veado quando encontra milho ou campo de kizaca, aquilo é comer ou quê?!!! Ele come para uma semana! Até se esquece que o milho tem dono. Quem se esquece no que é alheio, não valoriza a segurança da sua própria vida.
O velho de chapéu de cowboy e de olhar distante, com uma mão segurando o cajado e outra sobre a cobertura, ergueu-se da cadeira de plástico, vulgo espera condições, ao referir-se aos elefantes que com frequência devastavam a sua plantação no Bié. Eu nunca vi tantos elefantes!… Mas estes bichos andavam aonde? Dizem que tinham fugido para os países vizinhos por causa da guerra que ameaçava as suas vidas. Depois que a paz foi alcançada, eles decidiram regressar para as suas terras. O seu regresso tem gerado muitos conflitos, sobretudo com os homens que, alguns deles, construíram aldeias e lavras nas suas áreas de pasto. O elefante tem memória tipo gente, sempre regressa à sua aldeia de origem. Até aqueles que haviam fugido estão a regressar e a exigir o que era deles. Nova cooperação! Estamos mal!...
O pai acha que as pessoas que vivem hoje aqui em Luanda um dia voltarão às suas aldeias? Perguntou o Pastor Zagueu, da Igreja Justiça Divina!
Todos entreolharam-se e alguém sorriu com desdém antes de comentar: Hehehehe regressar ao campo, nem pensar! A vida no campo é muito dura, difícil. Você no campo, depois de muito trabalho, vende um cacho de banana a 100 kwanzas. O comerciante que vem da cidade bota o cacho na carrinha e chega no mercado do Catintom, em Luanda, revende-o a 1000. Mesmo que o frete seja alto, ele acaba lucrando mais do que o próprio agricultor. O homem do campo continua com muitas dificuldades e a viver com a camisa e as calças rasgadas, enquanto outros enriquecem à sua custa. É mais fácil vender jinguba no muro do quintal ou em qualquer esquina das cidades do que trabalhar a terra.
E todos corroboraram. Quem partiu para a grande cidade dificilmente regressa. Por isso as aldeias estão a ficar vazias de braços e de força jovem para o seu desenvolvimento. Em muitas delas hoje apenas encontras velhos e velhas, esperando o dia da partida. Muitos deles já têm as suas trouxas arrumadas! Cada ano que passa a extensão da plantação diminui. Os velhos estão cansados e o corpo enfraquecido. Contrariamente ao que muitos pensavam, o fim da guerra não incentivou o regresso, mas o êxodo rural. Basta ver que muitos dos bairros que existem hoje, surgiram na era pós conflito.
Aliás, muitas das construções anárquicas nasceram nessa época. Como é que se aceita que um indivíduo construa uma casa naquela ribanceira do Morro da luz? Mas aquilo é perigoso! Não há Polícia para evitar aquela buandja, aquela anarquia? Pai, eles constroem à noite. Mas a polícia não dorme. Como dizia o outro: O inimigo madruga, nós não dormimos. Isso é buandja!
Olha, no tempo colonial nós nem caporroto podíamos fazer. Se te apanhassem destruíam tudo e eras levado para a esquadra donde sairias com as mãos e o matacos inflamados. Aquilo era purrada! Qual Direitos Humanos!
Hoje nas ruas das cidades e nos becos dos bairros, você encontra gente a beber álcool logo de manhã. E tranquilamente! Os outros estão a ir trabalhar ele já está a beber!...  Olha, eles bebem também mata macaco! Mata Macaco? Sim, vocês não conhecem uma bebida que mata macaco? Não?!!! O mais velho pode então nos explicar! Olha, a tal bebida vem numas garrafas pequenas e no rótulo traz uns números. Cada garrafa traz o seu número…
A gente compra as tais garrafinhas na cidade, quando chegar na lavra, colocamos numa tijela. O macaco ao ver o recipiente, desce das árvores e começa a beber. Todo o bando desce para beber. Invadem a bebida. Até eles esquecem o milho! Chega uma altura que eles lutam por causa da bebida! Aquilo vira confusão! Depois de veres que eles já se embutiram da bebida, então você aparece. Olha, quando te verem a chegar, eles partem em correrias, subindo nas árvores… Pai, quando você gritar, eles com medo começam a pular de ramo em ramo. Como estão bêbados, eles não conseguem medir a distância entre um ramo e outro. Resultado, se atiram no abismo, morrendo ao se espatifarem no chão.
E todos sorriram. Não riem! Agora vocês estão a ver por que razão tem hoje muitos acidentes nas nossas estradas?… Bebida, muita bebida! As pessoas quando bebem não calculam as consequências dos seus actos. Quando pegam o volante pensam que não morrem mais. E muitos casos de sida é consequência do álcool, porque quando você bebe, perde o medo e a noção do risco. Depois diz que é feitiço!
Olha, o Governo devia reduzir o comércio de álcool. Daqui para o Sumbe, Benguela, Huambo, Malanje, Uíge..  Ao longo da via você encontra bebida. Os acidentes estão directamente ligados ao consumo de bebidas alcoólicas.
Naquele momento, aproxima-se um homem vestido de calça social e uma garrafa de aguardente na mão. Usava um chapéu de palha. Eram 20 horas. Olharam-no assustados. Uaué, pai, kazumbi do Wandalika voltou! E todas a pessoas puseram-se a correr. Na aflição, deixaram para trás as esteiras, os panos e os bancos.
Era uma algazarra! Uaué, kazumbi do Wandalika voltou!...
E calmamente, Wandalika subiu num banco, ergueu os braços e na sua voz rouca começou a declamar Fernando Pessoa! Os seus gestos foram projectados pela Lua Cheia sobre a parede de blocos. 

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.”

E naquela noite, Wandalika ficou só na casa vazia. Até os cachorros recusaram-se a entrar para o quintal, optando por uivar errantes pelo bairro.

Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

Martelo ou bigorna


Às 7 horas e 30 minutos cruzou com um estudante, meia altura e uma sacola artesanal à tiracolo. Caminhava tranquilo. Ao cruzarem no corredor, cumprimentou-o. Você é da onde? Sou de África, o Continente Berço. Sabia que você era gringo! HEHEHEH Você é do continente onde se dorme muito, né cara? ehehehehe Como assim? Uai, berço não é para bebé dormir?! Não tem nada a ver! Viste o jogo da Nigéria? Perdeu por infantilismo. Vocês são muito emocionados e a emoção é coisa de criança! Hehehehehe… Falando sério. A África é um berço em permanente convulsão. Aquilo é um caos federal, percebe? Já viste o formato, parece uma pistola, cujo gatilho está no Golfo da Guiné, o cão na Somália! A mira está em Moçambique e o cano na África do Sul. Heheheh! Wandalika olhou-o desconfiado… Será mercenário! O célebre francês Bob Denard tinha varias ramificações no mundo, até na América Latina! Amigo, na África não há um único país que possa ser apontado como exemplo de desenvolvimento e de boa governação. A África do Sul! Ok! Talvez seja o único e porque andou lá a mão de ferro. Vais ver o que vai acontecer dentro de alguns anos! Tirando a terra de Mandela, cara, o resto é paisagem, é leões, antílopes e macacos correndo na paisagem! Hehehehe… Não se esquece que a escravatura e o tráfico de escravos afectaram profundamente os africanos. Fomos nós quem construiu a felicidade das Américas, sobretudo no Brasil! Isso teve reflexo no desenvolvimento do continente Negro. Quê isso cara?! Os vossos reis é que eram ambiciosos, pois trocavam os seus filhos com produtos da indústria europeia: pedaços de espelho, cachaça! Foi tudo ambição! Ao invés de se unirem estavam vidrados no negócio. É lógico, os europeus não são bobos, aproveitaram! Aproveitaram roubar a nossa riqueza! Cara, deu moleza, apanha! Na vida ou se é martelo ou bigorna. ................................................

Extrato do livro "Aventura de um estudante Angolano no estrangeiro" apresentado pela Editora Mayamba em Agosto de 2012 em Luanda.

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

PONTEIRO NO VERMELHO



 
ESTAMOS NA CIDADE DE JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS, BRASIL, 1995. Nossa Senhora Aparecida era um bairro de gente simples entre as quais muitos brancos, negros e mestiços. Funcionários, operários de construção civil, vendedores e empregados. Algumas ruas eram asfaltadas e outras calçadas de pedra. A casa onde moravam ficava no término dos autocarros daquela linha. A cerca de 20 metros havia duas cantinas e um orelhão (Telefone público). Nossa Senhora Aparecida fazia fronteira com os bairros Santa Rita, Santa Cândida e Nossa Senhora de Lourdes. Era muita Santa à sua volta.

No anexo com o Cativa, também vivia um capitão da Força Aérea chamado Maurício. Um luandense do Bairro Rangel. Mais tarde, vieram a saber que ele era apenas tenente.

Estamos zerados, dizia o Cativa. Estamos zebrados! E sorriam,sorriam... Na primeira semana, Wandalika pegou, a título de empréstimo, em 100 dólares e deu-os a cada um deles. A alegria havia retornado. Dois dias depois, voltaram a pedir mais 100 dólares. Acedeu desconfiado. Semana seguinte, pediram mais 100 dólares. Recusou. Deu-lhes apenas 50. Entretanto, os gastos eram compreensíveis, pois os seus companheiros tentavam atenuar a dívida do aluguer, melhorar a dieta alimentar, comprar roupa e diminuir o cansaço andando de autocarro[2]. Do frango haviam passado para carne, sobretudo de fígado de vaca. Voltaram a gargalhar ao lembrar os esqueletos de frango.

Mas no mealheiro, o nível de segurança baixava. Em menos de um mês Wandalika estava apenas com 300 dólares. O ponteiro estava no vermelho. Para quem não sabia quando receber o reforço de verba, a situação era realmente aflitiva.

Como o quadro degradava-se a cada dia, decidiu manter um encontro com os companheiros de caserna para a revisão da situação: Camaradas! Nós somos militares e temos que buscar soluções. Mas que soluções? Somos comandos desembarcados na profundidade do inimigo. A nossa missão é de alto risco. Não temos como receber apoio da rectaguarda, devemos contar com os nossos próprios meios e capacidade de sobrevivência. Temos de aprender a pescar!

O Cativa acendeu um cigarro com indisfarçável insatisfação pelo diálogo que para si até aí era incompreensível. Wandalika esperou alguns segundos até a conclusão da primeira baforada e prosseguiu com maior acutilância: como vos disse, a guerra em Angola não deixa espaço para vislumbrarmos um futuro de paz dentro de pouco tempo. As tropas do Governo desdobram-se no terreno para rechaçar o inimigo, mas a situação vai ainda durar algum tempo. Sabem que o inimigo está bem municiado! Caxito, Catete, são zonas de guerra! Não temos como receber o dinheiro da bolsa dentro de pouco tempo. Temos de resistir. E o Primeiro-ministro Marcolino Moco?... Todo o esforço vai ser canalizado para a guerra. Esta é a verdade.

A impaciência dos interlocutores empurrou-o precipitadamente para a parte principal do plano. Vamos procurar uma igreja! O falso capitão sorriu numa alta gargalhada, levantou-se, abriu a porta e saiu, fechando-a atrás de si com alguma violência. A porta fechou-se e no caminho que os unia apareceram pedras que cresceram e chegaram a pedregulhos como as que existem no rio Mazungue. Para ele, Wandalika era um doido, um puro exibicionista!

Quem olha em várias direcções não avança! Por isso concentrou o fogo em Cativa. Queria convencê-lo. Fica calmo, nós vamos conseguir manobrar. Os chineses dizem que a arte da guerra é a arte da manobra. Vamos à igreja!

O seu companheiro Cativa manifestava-se relutante, argumentando que era católico desde os tempos de criança no município do Bailundo e não protestante. E ele contra-atacava. Quando a vida está em perigo, as soluções devem ter em conta, primeiro, a sobrevivência. Lá vais seguir todos os movimentos de levantar, fechar os olhos, assentar e ajoelhar. Fica calmo! Mas porquê que você não quer ir na Católica? Até fui baptizado pela Católica, mas ainda era criancinha, apenas tinha dois anos. Então, vamos lá! Nem pensar! A última vez que pus os meus pés numa Igreja Católica foi em 1993. Nem imaginas! O quê? Fomos corridos pelo padre!... Hum, fizeram o quê! Sabes que depois de 1975, após a proclamação da independência quase todos os jovens aderiram ao ateísmo científico. Aliás, era condição para ser-se militante do MPLA, mais tarde transformado em Partido do Trabalho. Todos queriam ser marxistas e leninistas! Depois do Muro de Berlim ruir em 9 de Novembro de 1989, criando um mundo unipolar… O sol se pôs e órfãos da Guerra Fria tacteavam nas trevas, buscando a luz! Então em 1993, familiares de um militar falecido queriam que se celebrasse uma missa em sua memória na Igreja Sagrada Família.

A plateia era composta maioritariamente por militares garbosamente fardados exibindo braços musculosos. São dos debraços e cangurus[3]! Quando começou a missa foi uma desgraça! O diabo desceu? Não, nenhum deles sabia rezar o Pai-Nosso e nem Ave-Maria. Nem ninguém sabia cantar as canções. O Padre sentiu-se solitário diante do cadáver desconhecido. E enfurecido começou a amaldiçoar os presentes: o que é que vieram fazer aqui? São vocês que quando vivos não se preocupam em ir à igreja e fazem-no apenas na hora da morte. Vocês são oportunistas. A Igreja não é loja, onde se compra a fé. De nada adianta pedir a Deus que receba a alma de alguém que em vida foi carrasco do Senhor.

Sem terminar a missa, pegamos no caixão e saímos apressados. O padre tinha razão. As pessoas só procuram a igreja quando têm problemas. Quando estão encravados. Eu não vou mudar de igreja agora. Epá Cativa, então vai me fazer companhia para eu não ir sozinho. Vou pensar no teu caso!...

Agora mais calmo. É preciso ter fé, amigo! A fé move montanhas. Como assim? Olha, quando estava internado no Hospital Militar depois de ter accionado uma mina durante uma emboscada no Lucusse… Quando?  Na altura da ofensiva de Mavinga em 1989. Pensei! Pensaste o quê? Pensei que fosse em Cangamba? Ah, ya durante a guerra de Cangamba eu ainda estava na Academia Inter-Armas… Yá, conheci um capitão que havia fracturado a coluna num acidente. Era domingo e caíram com o camião de marca Ural num precipício na Serra da Leba. Possa, aquilo é perigoso!  Ele estava internado há mais de um ano e não saía da cama. Estava todo magro e as costas cheias de chagas. Todas as necessidades fisiológicas fazia-as na cama. Chorava todas as noites ao pensar na mulher e nos filhos que ele já não via há bastante tempo… É triste! Olha, ele chorava mais nos dias de visita. Tem razão! Quando estás internado ou preso e não recebes visita, ficas maluco. Família faz falta! E o que é que aconteceu com o capitão? Ok. Certo dia, ele chamou-me todo radiante. Wandalika! Wandalika vem só ver! Peguei na muleta canadiana e fui. E ele dizia todo feliz, eu ainda vou andar! Estás a ver o meu dedo do pé?... Yá!... Está a mexer! Aproximei-me  até a um palmo do referido pé, mas não via nada se mexendo. E ele? Ele insistia, estás ver, chefe? Qual era a sua patente? 2º tenente. E ele te chamava chefe? Epá… E depois? Yá! Olhei-lhe nos olhos e comecei a pular de alegria. O capitão Kupessala vai andar! … vai andar!... vai andar! E ele ficou ainda mais feliz. Nunca o tinha visto tão alegre!

Quando se tem fé as coisas acontecem. E o capitão voltou a andar? Não sei, porque eu tive de sair, deixei a cama para doentes mais graves, sobretudo os que chegavam da frente de combate. E não eram poucos! O que me substituiu era um jovem tenente, que tinha o corpo cheio de queimaduras! Será que o camião Gaz 66 em que seguia pegou fogo? Não! Disse que durante o avanço em direcção a Mavinga um obus anti-tanque passou bem perto dele e a farda pegou fogo. Possa, teve sorte! Aquela brincadeira é bem quente e é capaz de derreter um tanque, já imaginaste?!... Nem sei se ele sobreviveu! A vida militar é dura! Yá. Só o patriotismo obriga a tamanhos sacrifícios.

Olha, falando nisso. Certo dia chegou uma ambulância que trouxe muitos feridos. Vinham da frente. Um artilheiro estava a sangrar dos ouvidos. O sangue jorrava como se fosse de hemorragia provocada por uma bala. Segundo informações,foi preciso retirá-lo da peça à força, pois a Unidade já estava a retirar-se, mas ele e o municiador continuavam a disparar e no meio daquela poeira. Eles não viam, nem ouviam mais nada. Apenas resistiam!. À volta da peça viam-se corpos de companheiros tombados. Um ferido pedia para os camaradas o liquidarem. Não queria ser capturado. O outro estava com as duas pernas fracturadas, mas pediu munições e granadas para se defender. E suspiraram quase juntos. Angola tens heróis de verdade. Homens corajosos e valentes. Eles merecem o nosso respeito! O reconhecimento de toda a Nação! Tem o túmulo dos soldados desconhecidos. Yá, nunca entendi bem isso. Como soldado desconhecido, não tinham nome? Epá, é universal!

 



[1] Texto extraído do seu livro com o titulo “Aventura de um estudante angolano no estrangeiro”
[2] Ônibus, para os brasileiros e camioneta, para os portugueses
[3] Tipo de exercício que imitava o movimento dos cangurus